GANHADORA DO PREMIO FÉMINA 2017

A moçambicana Sónia Sultuane lança seu segundo livro para crianças

A moçambicana Sónia Sultuane lança seu segundo livro para crianças
Sónia Sultuane
Sónia Sultuane  

A escritora e artista plástica moçambicana Sónia Sultuane lança nestes dias em Moçambique seu livro Celeste, a boneca com olhos cor de esperança. Em Novembro receberá o Prémio Femina 2017.


O Prémio Femina agracia as Notáveis Mulheres Portuguesas e da Lusofonia, oriundas de Portugal, dos Países de Expressão Portuguesa, das Comunidades Portuguesas e Lusófonas, e Luso-descendentes, que se tenham distinguido com mérito ao nível profissional, cultural e humanitário no Mundo, pelo Conhecimento e pelo seu relacionamento com outras Culturas.

 

O Prémio Femina 2017 será entregue no dia 18 de Novembro, às 20 horas, no Aura restaurante, na Praça do Comércio, em Lisboa, onde será servido o jantar e realizada a cerimónia de imposição dos prémios às Agraciadas.

 

-Celeste, a boneca com olhos cor de esperança, é o seu segundo livro infantil. O que é que conta?

 

-Acima de tudo sugere relembrar os valores humanos e a solidariedade, num contexto de desequilíbrio que vivemos hoje em dia.

 

-De que cor são os olhos da esperança? 

 

-São da cor da bondade, da irmandade, do amor, da partilha da solidariedade.

 

-A boneca é um símbolo da solidariedade. É também símbolo da memória da avó? 

 

-Sim, isso vem das histórias que as nossas avós nos contam, os saberes, os sabores que nos passam, os valores que nos ensinam para nos tornarmos seres humanos melhores, e sim também da minha avó que passou-me esses valores.

 

Screen Shot 2017-10-05 at 17.31.11-É verdade que é mais difícil escrever para as crianças do que para os adultos? Ou isso é um tópico? 

 

-Pessoalmente considero mais difícil, porque da mesma maneira que as crianças são genuínas, também são exigentes nas histórias que lhes contamos e como lhes contamos. Escrever para crianças é acima de tudo construir um mundo de sonhos para elas, somos os portadores das ilusões, do que um dia irão querer ser, assim somos responsáveis da semente que vamos deitar nas suas cabecinhas e no seu mundo imaginário e futuro. Cabe a elas usar e usufruir destas sugestões do mundo encantado. 

 

-Roda das encarnações em 2016, editado no Brasil em Agosto passado e Celeste, a boneca com olhos cor de esperança em 2017. Já está aí 2018. Teremos novo livro?  

 

-Sim estou a terminar de escrever um livro sobre o meu projecto Walking Words que faz em Março de 2018 dez anos de existência, é uma viagem às minhas memórias, passando pelo percurso literário e plástico até chegar a essa concretização de que as palavras andam e têm esse poder físico e de movimento.

 

-Celeste, a boneca com olhos cor de esperança foi lançada em Portugal, em Junho. Agora em Novembro volta a Lisboa para receber o Prémio Femina 2017, Notáveis Mulheres portuguesas e da lusofonia, por mérito nas letras. O que supõe isso para você?

 

-Um reconhecimento não só do meu trabalho mas da literatura moçambicana feminina, do contributo das moçambicanas na Lusofonia e no mundo. Acima de tudo da poesia escrita em Moçambique, afinal é por esse mérito que vou ser distinguida, como poeta.

 


 

 

Publicamos, por cortesia de Sónia, três passagens do livro Celeste a boneca com olhos cor de esperança.

 

1- passagem 

 

A Joana estava a estudar na faculdade de Medicina, pois queria ser médica. Tinha guardado num baú, que os pais compraram na China, todos os pertences mais queridos da sua meninice para um dia dar a uma filha sua. Guardou algumas roupas, uns sapatos, os lápis de colorir, uma casinha de bonecas e a sua querida Celeste. Guardou ainda um globo terrestre, onde tinha aprendido com um amigo dos seus pais, o Padre António, missionário em África, o nome dos muitos países onde ele tinha estado. 

 

2- passagem

 

O Padre António falou-lhe sobre os meninos moçambicanos, dos seus sorrisos e da sua grande esperança na vida, apesar de terem muito pouco. Precisava de ajuda para arranjar brinquedos, lápis de colorir e livros, três coisas muito importantes e às quais os meninos de África não tinham acesso. Levaria o que pudesse recolher para o hospital onde era missionário e voluntário. Aquele hospital estava cheio de meninos, de todas as idades, à espera de serem operados e ficarem saudáveis. Havia ainda muitos com doenças terminais sobre as quais nada sabiam.  

 

A Joana ficou muito comovida com a missão do Padre António. Não hesitou e resolveu entregar-lhe o seu baú, dizendo-lhe: 

 

3- passagem:

 

A um canto em cima de uma esteira, perto de um amontoado de brinquedos, estava uma menina sentada de costas para a porta. A Joana aproximou-se e ajoelhou-se na esteira, bem pertinho dela, em silêncio. E antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, a menina voltou-se e pediu-lhe: 

 

-Podes por favor, dizer-me como é a minha boneca? Ela é a minha melhor amiga. Desde que ela chegou ao hospital, nos últimos meses, eu nunca mais me senti sozinha...estou quase cega, só a sinto, mas queria tanto vê-la!

 

A Joana olhou para o colo da menina e ficou sem fôlego. Com os olhos infundados de água, respondeu-lhe:

 

Ela chama-se Celeste, tem um vestido cor de cenoura, cabelos cacheados loiros…

 



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