ANA MATOS, CAPICUA

"É um sonho antigo poder mostrar a minha música a quem partilha da mesma língua "

"É um sonho antigo poder mostrar a minha música a quem partilha da mesma língua "
Capicúa
Capicúa  

Ana Matos Fernandes, mais conhecida como Capicua, é famosa no mundo da música pelo seu rap distinto, um “rap poético: entre a emoção e a intervenção”. Natural do Porto, agora acaba de ganhar o I Certame aRi(t)mar Galiza e Portugal com Medusa, uma música que fala sobre a violência contra as mulheres. Poderemos ouvi-la ao vivo na gala de entrega de prémiosdo aRi(t)mar, no próximo 25 de outubro no Teatro Principal, em Santiago de Compostela.


Como é que nasceu Capicua?

A Capicua nasce quando comecei a fazer música, inspirada pelas primeiras bandas de Rap do Porto (como Dealema e Mind da Gap). Como é habitual no Rap, tive de escolher um “nome de guerra”, surgiu “Capicua” e ficou até hoje!

Qual foi a tua primeira abordagem ao Hip Hop?

A minha primeira ligação à cultura Hip Hop foi através do Graffiti, aos 15 anos. Comecei a pintar na rua e, a partir daí, a conhecer mais gente com o mesmo interesse. Isso fez com que passasse a frequentar festas de Hip Hop e a ouvir Rap (português, americano, francês...) e a cultivar a vontade de escrever as minhas próprias letras.

Por que o nome?

Porque me chamo Ana e Ana é um palíndromo, uma capicua. Além disso acho piada a palavras compostas e “capicua” vem do catalão “cap i cua”, que significa “cabeça e cauda”. Além de soar bem, é muito gráfico, é quase a imagem da serpente de rabo na boca, o símbolo do eterno retorno...

As tuas letras caracterizam-se por apresentar um espírito crítico, uma música reivindicativa, mas também emotiva. Como é que definirias o teu projeto musical?

Acho que essa é uma boa definição: rap poético, sempre entre a emoção e a intervenção.

"A minha agenda de preocupações políticas e sociais acaba por estar muito presente nas letras"

A tua formação na Sociologia influencia o rap que fazes?

Acho que tudo influencia. A vida, a escola, a arte a que estamos expostos... Mas respondendo concretamente, acho que é mais ao contrário: escolhi estudar Sociologia porque já tinha esse olhar crítico e esse interesse em questionar o que acontece em redor. No rap isso também acontece... A minha agenda de preocupações políticas e sociais acaba por estar muito presente nas letras. Precisamente porque acho que a música, como a entendo, é uma das mais poderosas ferramentas para a mudança das mentalidades e, como consequência, do mundo!

Medusa (Norte Sul, 2015) foi agora selecionada no certame aRi(t)marGaliza e Portugalcomo melhor música portuguesa. É um disco de remisturas com dois temas originais, mas o que é que podemos encontrar aí?

A “Medusa” é o tema que dá nome ao disco de remisturas que lancei em 2015, mas na verdade é um tema original. Conta com a participação do Valete e fala sobre a violência contra as mulheres nas suas diferentes formas. É sobre o eterno dedo apontado à vítima e não ao opressor e, tendo uma letra muito poética é, ao mesmo tempo, muito séria e forte.

Também atuas e faz música para crianças… Como é essa experiência?

Esta aventura da música para crianças é recente. Fui convidada par fazer uma temporada de concertos para os mais novos, no Teatro São Luiz em 2015 e, como não tinha repertório apropriado, convidei o Pedro Geraldes (guitarrista da banda Linda Martini) para compormos juntos. Ele fez a música, eu fiz as letras e o concerto correu tão bem que resolvemos gravar em disco. Chama-se “Mão Verde” e saiu recentemente. Estamos muito contentes com o resultado e com o feedback que temos recebido!

Quais são os teus projetos para um futuro próximo? Quando poderemos ouvir-te ao vivo na Galiza?

Neste momento estou entusiasmada em levar o “Mão Verde” para a estrada. Tocar o mais possível, em salas cheias de crianças, e dar a conhecer o nosso trabalho. Estou também a preparar um concerto inédito para o CCB (Centro Cultural de Belém, em Lisboa), a acontecer em Dezembro e em que, pela primeira vez, vou tocar com uma banda (com instrumentos) e não no formato Hip Hop habitual! Estou muito ansiosa.

Na Galiza, além da actuação no Certame da aRi(t)mar, agora em Outubro, não tenho nada programado. Mas é um sonho antigo tocar na Galiza e poder mostrar a minha música a quem partilha da mesma língua e da mesma cultura! Espero que seja um sucesso e que possa acontecer mais vezes!