UNHA ESCOLMA DO PAPEL

Ensinar português para sugar o potencial da nossa língua

Ensinar português para sugar o potencial da nossa língua

Estremadura considera esta língua, para el@s estrangeira, "prioridade absoluta". Na Galiza a sua aprendizagem não está garantida nem sequer nas escolas da raia.


"Quem saiba galego pode comunicar-se com mais de 200 milhões de habitantes. Excluído o chinês, depois do inglês e do espanhol está o português, a lusofonia".

 

Tal afirmação bem a poderia ter pronunciado Carvalho Calero. Mas não é uma cita dele. É a resposta que deu o presidente da Junta, Alberto Núñez Feijóo, numa entrevista na estação espanhola Intereconomía ao lhe perguntarem pelo "grave problema" que supõe que as salas de aulas de Conhecimento do Meio se dêem em galego.

 

Ficou curto na cifra porque o português já tem mais de 250 milhões de falantes, mas a relação entre a língua própria da Galiza e a lusofonia não é nova por muito que surpreenda ouvi-la em boca de quem varreu o galego das escolas e ainda em 2011 votou contra uma proposição não de lei do BNG para que o português se oferecesse como segunda língua estrangeira.

 

"O que nos diferencia da Estremadura é que ali sim existe uma aposta estrutural no ensino desta língua", razoa Joseph Ghanime, membro da Associação de docentes de português na Galiza. Do território que ele nomeia diferencia-nos também esse vínculo cultural e linguístico que Feijóo vai defender fora embora renegue dele até conseguir que, no tocante ao relacionamento com o Portugal, o nosso País fique, como disse Carlos Callón quando foi eleito presidente do Comitê do Estado espanhol da Agência Européia para as Línguas Minoritárias, "praticamente ao mesmo nível que a Murcia". Nesse caso, quais são as possibilidades de aprendizagem do português na Galiza?

 

Face às 39 escolas de ensino primário e as 45 de secundário que oferecem português na Estremadura —8.500 estudantes— língua que o alunado também pode estudar em todas as escolas de idiomas —mais de 2.000 estudantes— na Galiza a presença da variante mais extensa do idioma nas salas de aulas não está quantificada já que apenas depende da boa disposição da professora ou professor. O único dado oficial, da conselharia de Educação, fala de 799 alun@s que estudam português em centros educativos galegos. A respeito das escolas de idiomas —EOIs—, com perto de 1.200 matrículas, somente se poderia estudar nas sete cidades, em Vila García e em Tui.

 

Porem, não há ensino do português nas EOIs de Monforte, Viveiro, Ribadeu, Negreira, Riveira, Ordes, Noia, Cedeira, Barco, Carvalhinho, Cangas, Nigram, Lalim, A Estrada, Ponte Areias e Coia. Além do caso de Monforte, onde em Abril do ano passado houve um importante movimento para introduzir este idioma na EOI, também fica ausente em toda a Marinha luguesa e em Verim.

 

"Talvez pareça que isto é puxar a brasa para a minha sardinha, mas existe uma discriminação do português face a outras línguas", assinala Ghanime. Rejeita o pruído isolacionista: "nom tiraria espaço a outras línguas e aprofundar na sua aprendizagem resultaria numa maior competència em galego".

 

Fora das EOIs, na Galiza só 10 escolas do primário —200 matrículas— e 30 liceus —800 matrículas— oferecem português. E fazemno sem apoio institucional. São docentes de galego que explicam estroutra variante da nossa língua de maneira voluntaria. Contudo, a Junta não convocou nunca uma oferta pública de vagas. Apostou no francês e no alemão, mas não garantiu a continuidade do português se professoras e professores como @s dos IES Ánxel Fole ou Nossa Senhora dos Olhos Grandes, em Lugo, abandonassem o 'voluntarismo'.

 

Proximas, mas diferentes

 

"Se es unha privilegiada que mora na cidade e pode aceder aos estudos regrados tes tamén acesso ao portugués, nas EOIs e nos centros de línguas das universidades", continua Joseph Ghanime. É o caso da Tatiana T., aluna da EOI da Corunha que principiou o ano passado os estudos da variante que o galego toma alén da Raia. Vê nessa variante "um galego mais culto" e diz que tem interesse nela para, no curso que vem, ir a Lisboa. Duma das turmas da EOI de Ourense faz parte a Iolanda X. Mora em Calvos de Randim, município que outrora pertenceu ao Couto Misto e onde cada qual podia escolher libremente a nacionalidade espanhola ou a portuguesa. Por que estuda português? "Porque antes que falar inglês ou francês prefiro que não me resultem alheios os outros sotaques da minha própria língua".

 

Na EOI de Compostela conversamos co professor Eduardo S. Maragoto a respeito das motivações do alunado. Conta que "até há uns anos eran sobretudo culturais e os vínculos com o galego na sala de aulas eram evidentes". Agora, sem deixarem de transparecer eses vínculos, aparecem também os motivos laborais ou ter umha segunda língua no grau. "Em termos comunicativos na maioria de destrezas, um galego já tem un nível muito avançado e compreende português sem necessidade de explicações prévias", acrescenta Maragoto. A principal dificultade está na fonética e, paradoxalmente, na proximidade, que torna "muito difícil" assimilar usos diferentes "que às vezes nem sequer detetamos".

 

A aprendizagem não-regrada

 

Fora das salas de aulas é o magim quem trabalha. No IES Cacheiras, em Teu, os Cantos da Maré para escolares soaram este ano por segunda vez numa tentativa de conjugar as possibilidades lúdicas que oferece a música com a reivindicação da língua própria. Um reencontro na lusofonia ao que pôs voz o cantor e compositor de bossa nova e samba Fred Martins. Aliás, o alunado deu leitura a poemas de Pessoa, Florbela Espanca ou o Zeca Afonso.

 

"Tratamos de abranger justamente aqueles aspectos que o currículo oficial margina na procura de um estudantado crítico, conhecedor de realidades diferentes mas muito próximas, às que quase nunca pode aceder". Puri Cabido, vicedirectora do liceu, explica que a iniciativa procura rachar "com o ensino mercantilizado".

 

Ponte nas Ondas, projecto que fomenta a colaboração entre escolas da Galiza e Portugal, promove cada ano uma jornada de jogos tradicionais galego-portugueses e viagens linguísticas, experiência esta última que se faz também desde alguns liceus como o Sanches Cantón, em Pontevedra, ou A Sangrinha, na Guarda. Carme S. faz parte do 'Ana Politkovskaya', o clube de leitura mais veterano da rede galega Pega no Livro, onde se integram diferentes clubes que se comprometem a ler, no mínimo, um livro em português ao ano. "A vantagem comunicativa do galego é óbvia e a leitura é uma forma de lazer barata", explica. Diz que em cada cidade há uma livraria que pode conseguir títulos em português pelo que "a má distribuição já não é desculpa para não ler" nesta língua.

Contos da Montanha, um clássico do Miguel Torga, ocupa o primeiro posto dos livros melhor valorados no ranking da Pega no Livro. Ao perceber de Joseph Ghanime, as experiências anteriores demonstram que "a nível popular existe uma relação directa com a lusofonia mas há uma fronteira cultural em tudo o que depende das instituições". Queixa-se de que a possibilidade de ler um jornal em português é simbólica ou que nos estantes das bibliotecas públicas não há livros nesta língua, excepto uns fundos antigos que localizou em Pontevedra e alguns títulos na Ánxel Casal, em Compostela. O cinema que se faz além do Minho é nos alheio e mesmo na música "poderia estar ainda bem mais presente". Convencido de que comunicar a língua, para além de a ensinar nas escolas, não vai garantir per se o seu futuro, Ghanime tem claro também que "o que é impossível é pensar na sobrevivência sem aproveitar todo ese potencial. Seria um suicídio linguístico". Assim que como disse, agora sim, Carvalho Calero, "ou é galego-português ou é galego-castelhano; não há mais alternativa".

A ILP Paz Andrade

 

Embora deixarem bem claro que " é uma língua estrangeira" e que, portanto, "o seu estudo é opcional" —o inglês também é língua estrangeira mas é matéria obrigatória— o PP também é parte do acordo histórico alcançado em Maio no Parlamento galego, a aprovação da ILP Paz Andrade, o meirande apoio institucional que recebeu nunca o galego- português.

 

De momento, ao não ter categoria de lei, o pacto não passou do simbólico. Porém, deveria concretizar-se em dous ámbitos: o ensino do português nas salas de aulas do País, umha reclamación que encetou o Movimento Defesa da Língua em 1998; e favorecer a comunicação co resto dos países lusófonos, outra velha reivindicação que data de 2005, quando se criou a Plataforma para a receção das televisões e rádios portuguesas na Galiza.

 

Dous anos depois, em dezembro de 2007, o deputado do BNG Francisco Rodríguez só conseguiu arrincar do Governo espanhol o leve compromisso de "estudar a possibilidade", dissera Zapatero, por enquanto Mariano Rajoy, naquela altura chefe da oposição, lhe indicava que "o que deveria garantir é que possam estudar em castelhano".

 

Diz Joseph Ghanime, da associação de docentes de português na Galiza, que "urge um conhecimento direto da realidade dos países lusófonos e uma maior exposição a esta língua, independentemente da questão ortográfica" e aínda que o Estado espanhol "é muito surdo a outras culturas". Por certo que a televisão pública da Estremadura emite desde 2012 Falamos Português, uma parceria com a RTP.

 

Este texto foi orixinalmente publicado no Sermos Galiza 76, que saíu á rúa o 5 de decembro de 2013



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