“Que há que ser pacífico? Sim, mas há

muitas maneiras de sê-lo”. 

Periko Solabarria

 

Até justo antes da sua  morte podiam-se ver nos jornais quase a diário, as fotografias de um idoso de aspecto frágil, com txapela e em muletas, que aparecia em quanto protesto havia na Margem Esquerda da ria de Bilbau. As suas batalhas eran infinitivas (contra os despejos, pola saude pública, contra a exploração laboral e a violência machista…) e o seu reportório de combate variado e imaginativo: do piquete mais clássico à dessobediência nudista. “Foi terrível ver que os ertzainas eran tão jovens. E emocionante aprender outro meio de luta”, reconhecera este octogenário após encerrar-se no hospital de Cruces em protesto contra a reforma da lei do aborto. Em outra ocasião, hospitalizado polas lesões que lhe causara a polícia durante uma greve, somou-se sem pensá-lo às concentrações do pessoal do centro contra os cortes à saude pública. “É que eu sou militante”, admitia ufano como quem reconhece orgulhoso uma trasnada. 

 

Este senhor chamava-se Periko Solabarria, e a editorial Txalaparta vem de traducir ao castelhano o livro de memórias que consentiu escrever, contra as suas convições anti-narcissistas, com a mocidade de Ernai através de entrevistas. Periko Solabarria, conversaciones con la juventud é a impagável herdança que nos deixa quem, para sempre poder botar uma mão, levava as suas vazias. 

 

Triano

“-Limpamos-lhe o cu, cuidamos 

as suas crianças e continuam sem 

ver-nos”. 

A protagonista de Pão e rosas

(Ken Loach, 2001)

 

Durante um programa de televisão Steven Biko, ativista preto contra o apartheid, instou o branco liberal Donald Woods a que compreendesse as motivações da sua luta: “Nós sabemos como é que vivem vocês. Limpamos as suas cacas, cuidamos os seus filhos e arranjamos os seus jardins. Mas vocês não sabem como é que vivemos nós. Não nos julgue até que saiba o que suportamos” (1). Biko, como a traballhadora salvadorenha do filme de Loach, expressa de forma clara o particular jogo de lucideces e ignorancias que acarreta cada posição no espaço social: quando Mariano Rajoy ou Esperanza Aguirre dizem que não veem miséria por nenhures, provavelmente não estejam a mentir, na sua limitada experiência social, no topo da pirâmide, a misêria não se apreza em nenhum lado. Triano, o bairro proletário ao que foi trabalhar o joven crego Periko Solabarria, sorte de expressão geográfica desta assimetria de classe, era um lugar desde o que se podia alviscar Neguri, o símbolo da oligarquia bilbaína, mas de Neguri é impossível ver Triano…

 

O novo crego de Triano aginha destacou polos seus jeitos pouco ortodoxos; amiúde, esquecia as suas obrigações –podia esquecer botar a missa por estar a organizar um jogo de futebol com a rapaziada-, renunciava inexplicavelmente ao seu salário para ganar o pão como o resto das vizinhas, dava muita mais importância ao ensino do que ao catecismo, e praticava um cristianismo genuinamente revolucionário. Aquele cura era o nunca visto. 

 

As missas de Periko faziam que a igreja recuperasse dignamente o seu significado original de “assembleia”, começando a missa com um simples: “E logo como vos foi a semana?”, para que a gente fosse aprendendo a debater em público e a solucionar os seus problemas em conjunto. Como a polícia costumava enviar agentes de secreta a vigiar, Periko aproveitava para aprofundar na sua pedagogía: “Rapaz, -dizia ao sacristão-, vai onde aqueles polícias e que apontem com este lápis o que dixem eu”. “Assim infundia valor ao rapaz e tirava-lhe o medo”, explicava ao jeito de Franz Fanon. O confessionário, por outra parte, instrumento de saber-poder desenhado em Trento, reconverteu-no em umha espécie de caixa de resistência onde cada quem tinha falta, de forma anónima, porque “a caridade não criava a dignidade; no entanto, a solidariedade sim. A solidaridade e a luta”. Okupado o confessionário para tais mesteres, as confessões e as absolvições tornavam-se coletivas; Periko expropriara o perdão às autoridades eclessiásticas e devolvera-o ao povo, quem entendia perfeitamente que o verdadeiro pecado é o social: “agora confessai-vos ,pedide perdão. Mas não escolhades pensar no que estáis a pensar: que tu és joven, que sei lá o que sucedeu com aquela moça… Não, não. O pecado é perjudicar o companheiro, com o poder aos demais, pisar o teu companheiro para que ti medres na vida… O demais, são cousas vossas; não é pecado”. E falava completamente a sério, o trauma de ver morrer uma amiga nos próprios braços polas feridas ocasionadas por um aborto clandestino blindaria-no contra o puritanismo sexual, e não se avergonhava de conseguir preservativos para o povo quando isso era bem difícil. “O feminismo achegou-me sensibilidade e segurança…”, reconhecerá muito depois. 

 

Pola sua trajetória pessoal, Periko encarnou o conceito do “Povo Trabalhador Basco”, avanço teórico de Txabi Etxebarrieta que, fronte à ideia xenófoba de nação que defendia o PNB –com a categoría de maketo e demais-, serviu de chave para construir um novo abertzalismo de esquerdas cóvado com cóvado com os trabalhadores recém chegados das zonas mais pobres do Estado, como a Galiza. “Bascos são todos aqueles que deixam o seu sangue e o seu suor aquí e continuam a lutar”. Por isto Periko não podia compreender como Gure Esku Dago convocava a sua cadeia humana polo direito a decidir pisando a convocatória do Dia Internacional contra o Racismo: “esse é o meu direito a decidir”. A minha decisão hoje é ir à concentração contra o racismo em vez de ir ao ato de Gure Esku Dago”. 

 

A outra luta

“Nos tapetes não se deixa pegada, 

na lama sim”

 

Ainda que poda parecer paradoxal, pois Periko foi o paradigma do militante de rua, o de Portugalete também tem uma dilatada experiência institucional da que também se podem tirar lições para essa outra luta, a que se libra no ventre do sistema. Nã em vão, Periko já figera parte das candidaturas de Euskadiko Ezkerra antes da divisão desse partido, e depois, já en Herri Batasuna, foi eleito deputado em Madrid e em Gasteiz, assim como concelheiro em Barakaldo, onde se candidatara a alcaide em 1987 e 1991. Nesta longa incursão na luta institucional sempre se orientou por três principios reitores: 1) a austeridade, digna e formosa palavra que nos roubou o inimigo, como método de prevenção do acomodamento; 2) o recordatório constante da existência de presas políticas como guía ética; e 3) uma estratégia comunicativa audaz mas autêntica. 

 

O último ciclo político da esquerda estatal parece estar a seguir as fasses canônicas: grande vaga mobilizatória seguida de uma tradução na política representativa em centos e centos de novos cárregos nas instituições. Perguntado polo repto que isto supõe, Raúl Zibechi contestou: “É bom que os nossos estejam nas instituições. É uma possibilidade, mas também tem limitações e uma delas é que tens de rodear-te de técnicos, de bons salários, afás-te a não ter que fazer cousas das que não gostas. Temos de estar mui alerta e ser, não autocríticos, mas rigorosos com nós próprios. Os que temos uns anos sabemos que certa incomodidade na vida cotiá é boa e necessária para manter o espírito rebelde em pé” (2). Periko detetava perfeitamente este perigo (“agora há azafaifas nos atos de Sortu… Que ninguém se apoltrone! Aí está o risco…”) que conjurava praticando esse ascetismo que lhe vinha de berço e metodizara no seminário. Para quem durmira tantos anos em um colchão a rentes do chão, ser o único deputado do Congresso espanhol que em vez de um escritório tinha um mono azul nas obras da ponte de Rontegi, era algo completamente natural. Foi ali, em plena faena, onde se inteirara da sua eleição: não podera ficar toda a noite seguindo o reconto na rádio porque havia que madrugar para trabalhar. 

 

Nada mais sairem eleitos, os deputados Salabarria, Monzon e Ortzi, acudirom ao cárcere de Sória para entregarem as suas credenciais aos presos. “Isso gostaria de vê-lo aquí hoje, que algum parlamentário fosse ao cárcere e diante da televisão ter um gesto destes. Que se perde dinheiro? Claro, mas que se perda”. A existência de um ingente e perene coletivo de militantes encarcerados também foi um elemento reitor para a conduta dos representantes do movimiento, bem mais efeitivo do que qualquer “código ético”. Se no último Congresso de Sortu Arnaldo Otegi se orgulhava de que “em 40 anos a gobernar de grandes instituições a pequenos concelhos” os casos de corrupção da esquerda abertzale são “zero” (3), algo disto tem a ver com o elevadissimo nível repressivo que tornaria insuportavelmente obsceno o lucro pessoal de uns enquanto outros padeciam os rigores do cárcere. Também se orgulhava disso Periko, lembrando que em uma ocasião não votara por si próprio para alcaide porque considerara muito mais importante ir declarar a Marselha para impedir a extradição de um companheiro: “tínhamos muita dignidade; a nós não nos dobregava nada, nem o dinheiro nem o ganar eleições. Melhor perder umas eleições do que renegar dos presos”. 

 

Por último, e agora que se pretende reduzir a política ao virtuosismo comunicativo, convém ter presente o significado que Periko atribuia aos “necessários golpes de efeito sérios de verdade”. Nesse sentido lembrava gestos “específicos de lutadores”, como o de Ortzi erguendo o punho perante o Parlamento espanhol e berrando “Gora Euskadi eskatuta”, ou outros de Labordeta ou Idigoras. Pessoalmente orgulhava-se de ter rachado a hipócrita carta de pésame que o presidente parlamentário lhe entregara nas mesmas escadas do Congresso em Madrid tras os assassinatos de Santi e Josu. E é que Periko saia nos cartazes eleitorais com o casco de obreiro posto, mas a ele notava-se-lhe que era de verdade. 

 

Um rodeio pola Galiza

 

Periko Solabarria, conversaciones con la juventud é o último de uma extensa lista de libros em que a editorial Txalaparta se compromete com a transmissão geracional do importante legado militante que foi gerando o movimiento independentista basco e que, com certeza, é o seu mais importante capital político. Do movimiento galego não podemos sentir outra cousa que enveja sã, por quanto nós temos sérias dificuldades para superar as limitações de uma transmissão quase que exclusivamente oral do nosso tesouro experiencial, enquanto o trabalho letrado se centrou exageradamente em uma história literária e inteletualocêntrica e, por outra parte, a historiografia dominante focou-se muito mais na genealogia de siglas, programas e teorias, do que nas histórias de vida da militância de base. Dito de outra maneira: a história que fomos escrevendo é mais boa para estudar que para lutar. Esta atenção exclusiva na palavra escrita deixou nas margens da memória figuras fundamentais, como por exemplo Antom Moreda. Não foi escritor, mas dele -conta Méndez Ferrín- uma nova geração de militantes pola libertação nacional ouviram pola primeira vez palavras como “militância” ou “organização” (4). 

 

Villabona, 15 de agosto de 2017

 

Eneko Barberena Mondragon (coord.. e red.), Periko Solabarria, conversaciones con la juventud, Tafalla, Txalaparta, 2017. 

 

NOTAS:

1.-Citado por Gerry Adams em: Memorias políticas. El largo camino de Irlanda hacia la paz, Madrid, Aguilar, 2005, p. 90. 

2.-Raúl Zibechi entrevistado por Dabid Lazkanoitorburu, “En América Latina nos faltó firmeza estratégica para ir abandonando el modelo económico extrictivista”, Zazpika, nº 903, 15/15/2016, p. 29. 

3.-Citado em: Ramon Sola, “Sortu reinicia el camino refrescando ideas y renovando toda su dirección”, Gara, 22/1/2017, p. 2. 

4.-Sobre Antom Moreda: Antom Santos Pérez e Uxío-Breogán Diéguez Cequiel, Antón Moreda. Memória do exilio, Compostela, Asociación Galega de Historiadores, 2011. 



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