“Sairá do cárcere melhor ainda do que entrou

nela. Ali descansa-se, estuda-se o que nós nom temos

tempo de fazer quando nos achamos em liberdade. 

Eu estivem três meses preso, e cada

um dos meus encerros, embora com grande 

desgosto, reportou-me, indubitavelmente, proveito

para a inteligencia e para o coraçom”. 

Máximo Gorki, A mãe

 

Reconhece-se desde Aristóteles que a scholé, esse tempo libertado das urgencias e necessidades quotidianas, é a condição de possibilidade do conhecimento. A escola obreira não seria outra cousa que a institucionalização da scholé (palavra da que deriva, ao igual que escolástica e demais), um tempo socialmente conquistado para o conhecimento contra o dickensiano trabalho infantil. Tales de Mileto caindo no poço, o mito -o gag- fundacional da filosofia, é a caricatura dessa condição estrutural do filósofo como pessoa negligentemente imersa no mundo das ideias. É uma imagem tão representativa que se repetiu incansavelmente até os nossos dias, como nos mil e um despistes que Hergé fai passar ao profesor Tournesol. Tanto se insiste nessa fenda entre o mundo teórico e o prático, que mesmo parecem incompatíveis: assim lhe ocorreu a ‘kenkeirades’ que enquanto lhe escrevia a Otero Pedraio uma carta sobre as bondades da leitora campestre, uma vaca fugida fez-lhe uma estragueira na leira do vizinho, como recordando-lhe a incompatibilidade (1).

 

Das implicações epistemológicas dessa posição privilegiada de scholé, ocupou-se largamente Bourdieu, na crítica do que ele chamou o “ponto de vista escolástico” ou “inteletualocentrismo” (2), que era ao que se referia Wittgenstein ao escrever que “não é na vida prática onde nos encontramos com problemas filosóficos… senão que é quando começamos a construir sentenças não com fins práticos senão sob a influência de certas analogías da linguagem…” (3). Não será este, sem muito menos, o principal problema dos teóricos do movimento obreiro –bem achegados aos fins práticos-, senão o de conseguir uma scholé onde cartografar os caminos da emancipação. 

 

No início de muitas trajetórias inteletuais protagonizadas por pessoas das classes populares –“milagres estatísticas”, por tanto- costuma estar uma scholé acidental: o neno labrego que enferma e tem que botar semanas encamado, nas que devora quanta letra impresa encontra, ou que o apresenteiam com algum livro para passar o tempo. O seminário, para o agro galego, foi praticamente o único espaço legítimo no que os nenos podiam iniciar essas vertiginosas acumulações primitivas de capital cultural; esse mesmo que os seus pares das classes abastadas adquiriam por ôsmosse, em forma de capital cultural herdado. Eis também a típica “bulímia cultural” dos estudantes universitários populares. 

 

Em La Nuit des proletáires Jacques Rancière evoca essa experiência através da vida duma minoría obreira, que entre 1830 e 1850, sofre duma autêntica febre de cultura. No meio duma exploração brutal, ainda conservavam forças para lhe furtarem, de noite, horas ao tempo de descanso. Consagravam-no ao esforço inteletual e à leitura frenética. Experimentavam uma sorte de sobreabundancia de ser, ao que não podiam dar saída no trabalho alienante. É o lado oculto da luta obreira, uma tradição subterránea de autonomia cultural, conquistada através de milheiros de epopeias domêsticas e leituras de madrugada, na penumbra fría da noite proletária. A humilde origen duns conhecimentos ao serviço da emancipação. (4). 

 

O cárcere, que fazia e faz parte do horizonte vital de muita militância revolucionária, foi uma paradoxal scholé. Alguns dos principais contributos para a libertação engendraram-se nela, longe da molice acadêmica, como nos recorda a enorme obra gramsciana (5). Para os revolucionários cursos mesmo se poderia dizer que foi fulcral. Para Lenine, por exemplo, o cárcere foi um “período sabático do ponte de vista político”, durante o qual escreve O desenvolvimento do capitalismo em Rúsia e brinca com a sua irmã Anna Ilínichna: “Estou em melhor situação que outros cidadãos do Império Russo: não me podem deter!” (6). Para Trotski, diretamente, “no cárcere não havia mais táboa de salvação que o trabalho inteletual” (7). D. Svertchov recorda em Na aurora de revolução esse ambiente carcerário que enfrentavam com humor leniniano: 

 

“A cela de Trotski não tardou em converter-se numa espécie de biblioteca. Pode dizer-se, sem exageração, que apenas havia livro novo de importância que não lhe levassem. Trotski passava entregado à leitura e à escritura o dia inteiro, da manhã à noite. Aquí -costumava dizer-nos- está-se maravilhosamente; lê-se, trabalha-se e um não vive sujeito à preocupação constante de que o encarcerem (…) Não me negarão vocês que isto, na Rússia zarista, não é algo extraordinário!” (8)

 

Mas se Lenine foi um pioneiro na incorporação do exercício físico à rutina dos presos políticos, Trotski parece que se concentrava na leitura a tempo completo, ora como trabalho militante, ora como ócio (otium, o contrario que negotium, é por certo a palavra latina equivalente à grega scholé): 

 

“Para distraer-me dedicava-me a ler os clássicos da literatura europeia. Tendido no camastro devorava as suas obras com esse sentido físico de voluptuosidade com que os gourmets paladeiam um grolo de bom vino ou botam chupadas dum bom charuto. Eram as horas mais formosas do dia. Todos os meus trabalhos de aquela época guardam, em forma de citas e lemas, impressões do meu contato com os clássicos” (9). 

 

Nas suas lembranças, o balanço final da penúria carcerária, como confirmando aquilo de que o que não destrói fortalece. Contudo, não se devem malinterpretar as palavras do ruso: não fala de nenhum encerro idílico, senão dumas frágeis e mínimas condições “monacais” duramente conquistadas, e sempre ameaçadas. O elógio monacal só se entende em contraste com o tédio do castigo psicológico do ruído, como se desprende destas linhas: 

 

“Na realidade, não posso queixar-me dos cárceres nem do tempo que me fizeram passar neles. Forom para min uma excelente escola. Ao abandonar a cela, se bem cerrada e tapiada, onde me tinham recluido na fortaleza de São Pedro e São Paulo, tive um leve sentimento de pena: era tão tranquila, tão monótona, tão silenciosa, tão apropriada para os trabalhos de espírito! Em troques, o cárcere preventivo era uma colmeia de homens e de ruído (…)”. (10)

 

Ainda, concluirá que “nos cárceres, com um livro diante ou uma pluma na mão, vivi horas de gozo tão radiante como as que pude desfrutar naqueles mitins grandiosos da revolução” (11). Mesmo alguém com um encerro tão prolongado e inumano como Nelson Mandela, terá essa mesma estranha sensação de “saudade carcerária”: 

 

“Gostava bastante de ler durante aquela época; antes de estar tão ocupado… Agora é uma das cousas que boto de menos, já sabes, uma das que desfrutei enquanto estive no cárcere. Podia erguer-me, dar um banho, aguardar o doutor…., depois almorçar e, então, já era… livre para sentar a estudar”. (12). 

 

Wittgenstein nos fiordes, H. D. Thoreau à beira do Walden, Heidegger na Selva Negra… A scholé tornada arquitetura tomou forma de cabanas “boas para pensar”. Nos cárceres, aliás, são imprescindíveis para sobrevivir. 

 

24/1/2014, Terra Ancha

 

NOTAS: 

1.-M. García Barros, “Dos tempos idos. Sonata de San Xoán”, Dos meus recordos, Vigo, Galaxia, 2001 [1928-1962], pp. 167-184.

2.-É o tema central de P. Bourdieu, Meditaciones pascalianas, Barcelona, Anagrama, 1999. 

3.-Nos Manuscritos catalogados por Von Wright. 

4.-J. Rancière, La Nuit des proletáires. Archives du rêve ouvrier, Paris, Fayard, 1981. E também J. Borrer, Les Saurages dans la até. Auto-émancipation du people et instruction des proletáires au XIX e siècle, Seyssel, Champ Villon, 1985. 

5.-Veja-se Antom Santos, “Gramsci através das reixas”, galizalivre.org, 19-IX-2012. 

6.-R. Service, Lenin. Uma biografía, Madrid, Siglo XXI, 2001, p. 112. 

7.-L. Trotski, Mi vida. Memoria de un revolucionario permanente, Debate, Barcelona, 2006, p. 145. 

8.-Citado em L. Trotski, op. cit. , p. 210. 

9.-Íbidem, p. 210. 

10.-Íbid., p. 211. 

11.-Íbid, p. 639. 

12.-N. Mandela, Conversaciones conmigo mismo, Planeta, Barcelona, 2010, p. 294. 

 

 

 



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