para Xosé Luís, quem me explicou que os 

elfos falam galego polo dicionário de Carré

Fam-se cinquenta anos da publicação em George Allen&Unwin Ltd. do The Lord of the Ring, o libro que J.R.R. Tolkien escreveu para esas pobres crianças modernas que já não “tinham aldeia”, completando uma das fazanhas mitopoéticas mais notáveis da Era Industrial. Tolkien, de algum jeito, vestiu uma geração que vinha despida ao mundo. É esta, então, uma boa ocasião para regresar ao mundo dos hobbits, e talvez para enviar à Comarca uma missão etnográfica, como no seu dia Le Goff e Vidal-Naquet enviaram Lévi-Strauss às terras artúricas. No nosso caso difícilmente encontraríamos alguém melhor preparado do que Pierre Clastres: e não só pola sua formação como mitólogo; ou pola sua sensibilidade humorística (“de que rim os índios?)”, perguntava-se num artigo em Les Temps Modernes; nem sequer pola sua esquisita qualidade literaria. Há que enviar Clastres à Comarca porque esta, como as tribos que ele amou na Amazonia, é um formoso exemplo de “sociedade contra o Estado”. 

Os hobbits, a pouco que nos fixemos, revelam-se como uns seres em contínua vigilancia perante a emergência de relações de poder e de estruturas de dominação, ameaça larvada que conjuram sem cessar. Paradoxalmente, o relaxado modo de vida hobbit contrasta com a sua mitología cheia de orcos, trolls e outros seres terroríficos, sem dúvida porque, como sinala David Graeber, “são as sociedades mais pacíficas as que, nas suas construções imaginárias do cosmos, se acham mais acossadas por espetros em guerra permanente”, como se esse fosse o preço da sua vida igualitária. Mas o elemento central da mitologia hobbit do mal, o Anel Único, é también o símbolo desse risco de aparição de relações no seio da própria sociedade. Quando Gandalf entrega o anel a Frodo expõe-lhe uma magistral analítica do poder: o perigo é que se o hobbit cai na tentação de pôr o anel do poder, já ninguém poderia conjurá-lo, “senão pola força, em cujo caso che arruinaria a mente. Para rematar com o Anel, de nada serve a força. Não lhe farias dano embora o golpeases com um martelo grande”. Eis o poder segundo Foucault: não uma instancia alheia –algo assim como um posto central de mando que se pode “tomar”- senão mais bem uma relação que exercemos e que nos atravessa. O Estado, explicava o anarquista Gustav Landaver, “é uma condição, uma relação entre seres humanos, um modo de conduta humana; destruimo-lo quando estabelecemos umas outras relações, quando nos comportamos de forma diferente”. 

Os hobbits, a pouco que nos fixemos, revelam-se como uns seres em contínua vigilancia perante a emergência de relações de poder e de estruturas de dominação

Tolkien dá alguma que outra nota etnográfica que permite entender os hobbits como um desses povos instruidos no que James C. Scott chama “a arte de não ser governado”, e cuja existência permaneceu longo tempo opaca aos olhos do Poder Obscuro: 

“A comarca nesse então apenas tinha “governo”. As famílias cuidavam em geral dos seus próprios assuntos e dedicavam a maior parte do dia ao cultivo e consumo de alimentos. Noutras questões eran polo comum gente generosa, tranquila e pouco ambiciosa, de modo que as herdades, granjas, obradoiros e pequenas indústrias tendiam a se conservarem invariáveis durante anos”.

A ausencia de “governo” seria, na prática, um auto-governo conforme os costumes de economía moral das multidões, que nunca chegava a cristalizar num Estado nem tão-pouco gerava hierarquias, dominação e violência. Voltando a esse deslocamente das tensões do igualitarismo ao mundo mítico que apontava Graeber, não podemos esquecer que os hobbits tinham um rei, meramente legendário e incapaz de coacionar: 

A ausencia de “governo” seria, na prática, um auto-governo conforme os costumes de economía moral das multidões

“A antiga tradição que falava dum rei de Fornost ou Norburgo, como lhe chamavam mui ao Norte da Comarca, conservava-se ainda, obviamente. Mas não tinha habido rei durante quase mil anos e as ruinas de Norburgos estavam cobertas de erva. Porém, os Hobbits lembravam-se ainda dos povos selvagens e criaturas malignas (como os trolls) que não tinham ouvido falar do rei. Atribuiam ao antigo rei todas as leis essenciais e polo geral aceitavam-nas de bom grau, já que eran Os Precetos (como eles diziam) à vez antigos e justos”. 

Em consonancia com esta ausencia de Estado centralizado, tão-pouco havia autoridades permanentes, tolerando somentes chefes circunstanciais que confederassem e liderassem as aldeias livres em caso de agressão externa, mas era uma autoridade cujas competências se limitavam ao ámbito da autodefesa: 

“O Thain era chefe da Assembleia da Comarca e capitão do acontecimento e a tropa. Mas como a tropa e a Assembleia eran convocadas só em casos de emergência, que já não ocorriam, a dignidade do Thain era apenas nominal […]”.

Com certeza, um Thain que quigesse consolidar-se como chefe permanente havia de rematar do mesmo jeito tragicómico que Jerónimo. Este líder índio –conta Clastres- ao ver que o seu poder apenas era aceitado polo seu povo durante as guerras contra os colonizadores, e tão-so por causa do seu talento militar, isto é, técnico e meramente restringido ao parêntese bélico (pois nenhum compatriota seu entenderia que Jerónimo, por mui bem que guerreara, pretendesse só por isso gobernar a vida os demais), intentou arrastar o seu povo a um combate contínuo que o eternizasse como chefe. Rematou, claro, abandonado polo seu povo. 

Um Thain que quigesse consolidar-se como chefe permanente havia de rematar do mesmo jeito tragicómico que Jerónimo

O resto das autoridades hobbits, eleitas democráticamente em assembleias ao ar libre –como as Landsgemeinde suíças-, estavam na mesma situação que aqueles chefes indígenas que descreveu Lévi-Strauss, alvo de todas as brincadeiras do grupo, ou que as autoridades comunitárias galegas, das que Lisón Tolosana dixo que existia um copioso folclore ridiculizador (“mandas menos que um pedáneo”, sinala o dito). O poder, sabiam-no bem os hobbits, sobe com facilidade à cabeça dos homens, e por isso é melhor não deixar que se tomem mui a sério a si mesmos: 

“[…] o Alcaide da Cavada Grande (ou da Comarca) […] era eleito cada sete anos na Feira Livre das Quebradas Brancas, em Litne, isto é, a meados do verão. Como alcaide, a sua única obrigação consistia em presidir os banquetes nas festas da Comarca, que se realizavam com frequência”. 

O ideal de vida hobbit estava exento de qualquer pretensão de grandeza, e é em todo semelhante ao de qualquer povo camponês: 

“O pequeño jardín dum jardinheiro livre era o único que respondia aos intereses e necesidades de Sam; não um jardín agigantado até as dimensões dum reino; o trabalho das suas mãos, não as mãos de outros baixo as suas ordens”. 

Ora bem, o mundo tolkeiniano é um mundo claramente pós-tudoriano, e isso nota-se na ausência de dous importantíssimos elementos, cuja predominância costuma ir ligada: os comunais e as mulheres livres. 

Cárcere de Villabona, 1 de outubro de 2016