Quando Francisco Añón se sentia demasiado elogiado recordava que a sua irmã Nicolasa, quem nunca publicara nada nem frequentara os ambientes literários de Lisboa, sim era uma grande artista e não ele: “Ai, se ela estudasse algo, se só pudesse ler quatro versos, os seus fariam que os meus se esquecessem”. Liardo R. Barreiro, à procura de tamaño tesouro literário, organizou um viagem para conhecer Nicolasa Añón. Em Noia adquiriu um bote, e nele remontou o Tambre até à aldeia de Boel, na freguesia de São Pedro de Outes. Lá encontrou Nicolasa, já velhinha mas vigorosa, cuidando das plantas e dos animais. Nicolasa não tivo problema em botar-lhe umas cantigas, que Barreiro transcreveu no seu Esbozos y siluetas de un viaje por Galicia, publicado em 1890.

 

Estas relações entre o “culto” e o “popular” –cujos perigos epistemológicos balizaram meticulosamente Claude Grignon e Jean-Claude Passeron- foron dominadas durante muito tempo polo modelo germano do povo em si (an sich), atesourador inconsciente do cerne da nação, e o povo para si (für sich), que à falta da essência sim teriam a consciência para reconhecê-la. Esse modelo ainda ecoa nas relações, quase racistas, desses inteletuais que vão ao povo a “recolher” manifestações artísticas “inconscientes” producidas e reproduzidas polos aldeãos qual pássaros e que, em última instância, pouco menos que há que “proteger” de si próprios. No outro estremo, a relação populista atribuí às produções culturais populares uma qualidade suprema que não reconhece as suas limitações e que esquece que, a consagração das mesmas –o seu reconhecimento como a verdadeira arte”- costuma depender das estratégias de condescendência dos artistas realmente reconhecidos como tais e que também obtenhem beneficios simbolicos nesta descoberta da arte popular, entanto que “descobridores”, polo qual bem mais importantes do que o reconhecimentos dos próprios artistas populares, como sinalou Bourdieu a propósito dos vanguardistas e os naives.

 

Neste sentido, o caso da recentemente falecida Asunción Antelo Suárez resulta mui interessante. Ela sim chegou a publicar um poemário, Páxinas da Rexubeira de Bergantiños (1995), e nele não só dá conta da sua competência técnica a capacidade criativa e crítica, senão que em um exercício de reflexividade expõe as dificultades e limites que impõem à sua obra umas determinadas condições materiais da produção literária, exercício infrequente em artistas procedentes das classes dominantes, mais predispostas por razões sociológicas (grande capital cultural herdado, quase por ósmosse) ao mito do génio criador omnipotente. Asunción Antelo apresenta-se sem concessões como uma labrega iletrada, como pretendendo conjurar já de entrada qualquer possível malentendido polo que se lhe pudesse atribuir umas pretensões que não tem:

 

¡Bergantiños! ¡ Bergantiños!

¿Quen te ha de engrandecer?

Unha muller sin estudio,

¿que máis queredes saber?

 

Com essa especial lucidez que engendra a condição de artista das classes populares, Antelo aponta a dificultade que uma mulher, galega, camponesa e pobre, tem para achar a scholé, esse tempo libertado das urgências do trabalho que é condição necessária para establecer uma relação com o mundo em que este vira objeto de contemplação e reflexão:

 

Polo día traballaba no campo

e non podía escribir;

facíao pola noite

en ves de durmir.

 

Nos últimos versos alude à epopeia autoeducativa das classes populares –estudada por Jacques Rancière, e Narcisco de Gabriel para o caso galego- que, em um extraordinário afã de conhecimentos, sacrificarom as suas poucas horas de descanso para habilitar uma scholé noturna. Mas a scholé não é só um tempo livre; é também uma série de disposições que devem ser facilitadas por uns meios materiais, dos quais não são os menos importantes o aquecimento, a iluminação ou o mobiliário ajeitado. Eis as crônicas de autodidatas populares sublinhando o frio de umas leituras onde se ia alternando a mão que se tirava de baixo da menta por não congelar os dedos, as pelejas familiares pola poupança do pouco óleo da lámpada, ou a falta de um “quarto próprio”, simbólico e físico, onde poder estudar. Asunción Antelo descreve nuns versos de grande expressividade a falta de escritório e a “autoconstrução” do mesmo com o próprio corpo devindo mesa, do mesmo jeito que a falta de scholé se suplia com o roubo ao corpo de horas de descanso (as classes poplares não mostram preconceitos à hora de manifestar a “corporalidade” do trabalho inteletual, pois e não precisamente ao jeito do heideggariano Denken ist Handwerk, “pensar é trabalho manual”):

 

Para escribir este libro

non usei mesa nin banco,

as rodillas facían de mesa

e a cama de banco.

 

A poesia da Rexubeira de Bergantiños parte da cultura oral e as suas métricas e ritmos, mas também dialoga com Pondal e desmente com contundência a suposta ingenuidade política da boa selvagem galega. Eram os anos de construção da agora chamada Cultura de Autonomía, e Asunción Antelo desmascarava-a sem concessões já na altura:

 

Os galleguistas de antes

loitaron por um querer,

os galeguistas de hoxe

sólo loitan por comer.

Fraga máis o Rosón

deben ser uns bons larpeiros,

que sempre están metidos

co fuciño no pucheiro.

Se os queres botar fóra,

o remedio é baratiño,

tízalle lume ó cazolo,

escáldalle o fuciño.

 

Cárcere de Villabona, 27 de maio de 2017 

 



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