O enterro de Manuel Fraga Iribarne, perfeitamente cenografiado, foi o encerramento perfeito a um projeto político: a construção autonómica da Galiza, que rematou encarnando-se na pessoa do próprio líder. O cadeleito saiu da igreja coberto com a bandeira galega (as crônicas falam dos árduos trabalhos que alguém passou para que também figurasse uma rojigualda), ao som da Marcha do Antigo Reino da Galiza, interpretada solemente por uma banda de gaiteiros marciais. A colocação da lápide descobreu um epitáfio à altura do momento: “Manuel Fraga Iribarne. + 15-1-2012. Bo e xeneroso”. Apenas faltou uma salva de disparos ao ar, para dar-lhe honras de guerrilheiro. 

Tem-se discutido muito sobre a paternidade inteletual desta originalíssima estratégia contra-soberanista liderada por Fraga. Através da pirataria simbólica da expropriação e confiscação dos referentes galeguistas, a direita espanholista criou um novo galeguismo desativado de toda cárrega soberanista e que conseguiu fazer-se tremendamente popular. Este processo foi paradoxalmente concebido como uma estratégia contra-hegemónica que partia, polo tanto, do reconhecimento da existência da um projeto nacional galego que em muitos sentidos –como no cultural- era hegemónico. A contra-planificação cultural foi minuciosa: contra a autodeterminação, os (contra) conceitos de “autoidentificação” (com o seu correlato lingüístico) e “autoadministração”; contra o movimento anti-colonial, a brutal dissociação entre a “identidade” e a “política”. 

Tem-se discutido muito sobre a paternidade inteletual desta originalíssima estratégia contra-soberanista liderada por Fraga

Dizia que se tem discutido a autoria inteletual desta estratégia (X. L. Barreiro Rivas, por exemplo, reivindicava-a para si: “Com o eleitorado de AP eu fazia política nacionalista [galega, entende-se], e com a minha política nacionalista AP recolhia votos. Quando AP atinge o poder entra o medo a continuar progresando. Fraga não, Fraga entende o que está a suceder” (1)), em parte porque a imagem de Fraga como um franquista rude, embora dotado de um prodigioso olfacto político, parecia incompatível com a inteligência teórica. Nada mais longe da realidade. 

Autor de dúzias de livros – e para o caso, pouco importa a existência dos seus famosos “negros”-, Fraga dá em 1980 ao prelo um intitulado Ideas para la reconstrucción de una España con futuro, conjunto de discursos parlamentários e de partidos, textos acadêmicos, etcétera, onde já estão todas as linhas mestras da sua estratégia na Galiza, o que fai reconsiderar essa versão do Fraga que se retira ao regionalismo após fracassar em Espanha. 

O livro, que dedica aos caídos pola unidade de Espanha, sinala o separatismo marxista como o grande risco para o Estado espanhol, ameaça para a qual a direita não estaria preparada. O de Vilalva, numa crítica sem concessões, dá por zombie a velha direita que sonha com a continuidade do regime franquista sem nenhuma mudança. Ele não, ele asume que certa dosse de pluralidade política, descentralização estatal e liberdades cívicas são inevitáveis; dito de outro jeito: que a Transição é irreversível, e que o novo tabuleiro de jogo continuará com eles ou sem eles. Assim as cousas, o líder de AP diz que precisam de “un verdadero populismo, como el que sugiere nuestro mismo nombre, el de Alianza Popular. Ni podemos renunciar a él, ni actuar de modo incongruente con esa idea; en la que quepa todo el pueblo, toda la sociedad real; que no se estrecha de modo que un aldeano, o un trabajador, o un estudiante, no se pueden encontrar representados. Sólo si hacemos esto, de buena fe, y lo hacemos bien, podremos llegar a ser un gran partido mayoritario, como España necesita” (2)

O plano que deve seguir essa ferramenta populista, que entende que o independentismo é o principal inimigo do statu quo, divide-se na atuação urgente, a curto prazo, e na importante. Citando Maquiavel, Fraga diz que “um homem desarmado não pode nada contra outro homem armado”, e a continuação enumera os principais desafios do momento: antes de todos os demais ETA; despois os GRAPO, dos que sinala a sua influência na Galiza; um MPAIAC mui ativo e com certo eco internacional; e Galiza, na qual diz que “afortunadamente, los fenómenos nacionalistas son minoritarios, pero están radicalizados e fuertemente apoyados” (3), à vez que denúncia a vaga de sabotagens na AP-9 e já ensaia esse discurso de intoxicação que assócia a Praga de incêndios à dissidência. O caso catalão merece-lhe então menos preocupação do que o basco. O interessante aqui, na sua avaliação do urgente, é ver como o ex–ministro franquista se mostra mesmo mais agudo do que algum dos seus inimigos, e dando a chave da filosofia da contrainsurgência española até hoje, adverte: “no nos engañemos tampoco sobre esto: las masas ventean al que puede ganar, aunque no les guste; su grito predilecto es “viva quien vence”; sólo si ven al terrorista derrotado le vuelven la espalda. Es deber básico del Gobierno procurar a España esa victoria cuanto antes” (4)

Fraga não se cansa de repetir aos seus correligionários que a hegemonia –que têm na economia e na política- também se desputa no campo cultural

Quanto ao importante, para o que realmente necessita um instrumento populista, é para vencer nisso que chama “a guerra cultural marxista”. Eis o mais destacável do livro: Fraga não se cansa de repetir aos seus correligionários que a hegemonia –que têm na economia e na política- também se desputa no campo cultural, que aí há uma guerra em curso, e que de momento a estão a perder. E, sim, Fraga cita a Gramsci: “Antonio Gramsci descubrió la importancia del “poder civil” implícito resultado de la aceptación general de una serie de valores, mitos, sentimientos y costumbres, que crean una base consuetudinaria de respecto a lo establecido. Sin ese consenso básico, ningún Estado puede funcionar a la larga, por fuertes que sean sus instrumentos de coacción” (5). É justamente por isto, mais de que por puritanismo, que Fraga carrega contra uma longa série de fenómenos culturais, das “modas incoherentes, espetáculos absurdos, erotismos desviados, antipsiquiatria” até o “estruturalismo”, manifestações de “terrorismo inteletual” que corroem a ordem social e preparam a revolução.

Não é fácil precisar só pola leitura deste livro, até que ponto Fraga conhecia os teóricos marxistas que cita (sem referenciar bibliografia, cousa que sim fai com os conservadores), mas parece melhor informado do que a direita atual. Além de referências aguardáveis nele, como ao seu caro Carl Schmitt, também cita Bertolt Brecht, Marcuse ou Illich e mesmo apropria-se simbólicamente de Marx, rendendo-lhe um pequeno tributo simbólico (que na realidade é uma maneira de apresentar-se à sua altura inteletual) que serve para atacar os marxistas realmente existentes nesse momento: “Llevo años leyendo a Marx (casi todo) y a bastantes marxistas (de diversas tendencias) y he pasado dos años en Londres, donde Marx pasó la mayor parte de su vida y concibió sus teorías. Creo que los ingleses hacen muy bien en no dejar que sus restos vayan a la plaza Roja de Moscú, porque en aquella ciudad (ni la de entonces, ni la de ahora) Marx no hubiera podido escribir sus libros, ni librarse de pasar (como mínimo) por Siberia” (6)

Alentado pola irrupção na França, com a fúria dos conversos, dos “novos filósofos”, o político galego di que “hay que contrarrestar el monopolio que pretende el marxismo sobre la creación de vigencias literarias y artísticas”, fortalecendo o âmbito cultural hispano, como primeiro passo numa guerra cultural na qual a unidade de Espanha “es el problema capital, en el que confluyen todos” (7). À vista fica, pois, que a sua estratégia na Galiza nem foi improvisação nem fruto de um só dia. Fraga, o homem que pujo a teoria gramsciana ao serviço de um projeto reacionário, mesmo tinha ensaiado já a sua apropriação da retórica galeguista. Veja-se senão o prólogo que fai ao guía turístico de Lugo redigido por Cunqueiro em 1969: aí já estão as citações despolitizadas dos vultos do galeguismo, o elogio das “froliñas do toxo” norieganas, e uma fêrrea delimitação do possível, que jamais poderia ir além de um regionalismo inócuo (8)

Cárcere de Villabona, 1 de novembro de 2016

NOTAS:

1.-Declarações citadas em: Manuel Rivas, Galicia, el bonsai atlántico, Madrid, El País/Aguilar, 1989, p. 91.

2.-Manuel Fraga Iribarne, Ideas para la construcción de una España con futuro, Barcelona, Planeta, 1980, p. 65. O sublinhado é seu. 

3.-Ibidem, p. 45. 

4.-Ibidem, p. 197.

5.-Ibidem, p. 18. Esta e a seguinte página concentram a sua análise puramente gramsciana, onde diz, por exemplo: “Observando los periódicos de más prestigio en Europa, se puede ver que, a menudo, la página política está inspirada por el Gobierno, la economía, por la comunidad financiera; la cultural, por los marxistas. Ahí, justamente, está el problema: eso es el establishment real, pero no hace falta ser un lince para comprender quién gana a largo plazo, teniendo en sus manos las minas que debilitan las murallas, que un día habrán de oír las trompetas de Jericó”.

6.-Ibidem, p. 295. 

7.-Ibidem, p. 49.

8.-Manuel Fraga Iribarne, prólogo de: Álvaro Cunqueiro, Lugo, Leão, Everest, 1974 (ed. original de 1969).