As janelas exibem máscaras, lemas intermináveis inundam os cartazes que lideram as marchas contra a humilhação.


Artigo inspirado pelos comentários desrespeitosos
e despectivos de Adolfo Domínguez, para com as suas trabalhadoras,
e em geral a todos os empresários que fomentam a escravidão

 

As janelas exibem máscaras, lemas intermináveis inundam os cartazes que lideram as marchas contra a humilhação. O rejeitamento faz-se visível, mas o conceito semelha ser só a luta isolada dumas poucas, e nesta beirarrúa de linhas irregulares, veladas, uma acolhe na pupila, na comissura dos lábios os gestos inequívocos do terror, de ver-se sozinha, justo no meio da diana, com o coração tocado, como um relógio a ponto de estourar.

O tempo mede-se a través dum seletor de largura do ponto, do prensa teias que bate nos dentes impelentes e descansa fronte a chapa corrediça. Cingimos a astenia enleadas nas bobinas, pondo em marcha o motor da máquina de coser. Enfeitando as curvas sanefas dos dias.

As costuras cedem e abrem-se fendas difíceis de reparar, não existem mais que peças superpostas para agochar as tuas feridas costureirinha, a desesperação troca-se numa tendinite de ombreiro e a visão fica enevoada acima da escarvada sisa do vestido de veludo gris.

O ente tem o poder de converter-te só num número, as pontadas são ringleiras enormes, quilométricas, com as cores de moda, da temporada

Sabes que o esperpento trocou-se num cidadão mais, caminha ao nosso carão. Tem a verbalidade ambígua do opressor que insiste no seu lema até a saciedade: rápido, rápido, adiante, não pares, produz, produz...

O ente tem o poder de converter-te só num número, as pontadas são ringleiras enormes, quilométricas, com as cores de moda, da temporada. Ele se lhe deixaram, seria quem de fazer-te rea, impregnaria no têxtil, no código de barras o despido livre. Esta é a insígnia mais evidente de que vamos recuando para atrás, coma formigas escravas às que lhes atam nas costas sogas de organdi, com desenhos de Prêt-à-Porter.

As pinçadas liberdades atravessam as passarelas, encistam os furados que formam os alfinetes nas mãos. Os rotos direitos dormem entre voláteis saias de seda, pérolas e tacões altíssimos nas tendências duma coleção de outono-inverno, sujada com o suor da escravidão em talheres clandestinos. As vidas sujeitam-se com leves fios frouxos e lançam-se ao abismo, a onde quiser aqueles que possuem a voz e o poder de rematar-te. Esses que figuram entre os mais ricos, os todo-poderosos. Insetívoros que te chucham o sangue e logo vão de benfeitores repartindo caridade, doações milionárias à Sanidade Pública... e tudo isto, com o dinheiro conseguido muitas vezes pela explotação infantil.

As bágoas prendem-se nas pálpebras coma cintas de azeviche, são agulhas que che abrem a carne como numa sessão de acupuntura coreana.

É uma amanhã fria de chuva, e as gaivotas pousam-se acima dos sinais de trânsito e aguardam igual ca ti, igual ca mim, o espertar do amanhecer.