Resulta obvio que vivemos numa cidade diferente. Uma dessas urbes que não escatimam em luzinhas de cores para receber aos visitantes e, se é preciso, acochar aos pobres dos objetivos indiscretos, não vaia ser que se estropeie a luz da imagem perfeita.

                                                                                                  Texto nascido da impotência e a raiva.

Resulta obvio que vivemos numa cidade diferente. Uma dessas urbes que não escatimam em luzinhas de cores para receber aos visitantes e, se é preciso, acochar aos pobres dos objetivos indiscretos, não vaia ser que se estropeie a luz da imagem perfeita.

Dá igual pela avenida que caminhes, a capacidade do assombro não tem limite. Semelha que o Natal aqui é-lhes bem longo, e os domingos, e as festas de guardar...

A figuração atravessa as intermináveis horas dos dias, com o sorriso do fingidor e a contínua pose, em diversos atos religiosos, de gravatas e mantilhas em procissão.

"Ao sair à rua, chocas com a traça disparatada, o projeto delineado pelo organismo: os monumentos “criados para o serviço e honra do nosso imperador”.

Este quadro que nos ocupa é um esperpento, elaborado expressamente para dar uma versão colorida e fictícia, traçada pelo chefe cicerone do absurdo. Ao sair à rua, chocas com a traça disparatada, o projeto delineado pelo organismo: os monumentos “criados para o serviço e honra do nosso imperador”.

Semelha que vives entre crateras, entre inúmeros cavoucos que tens que iludir cada dia (sobre todo em época eleitoral, pois multiplicam-se). No imenso gruyère caminhar não é doado. Dar com o lugar adequado para atravessar, sem que a tua pessoa sofra um casual afundimento entre as lousas desarrumadas, é um milagre. Se olhas pela incisão da terra e cimento, crês estar nas imediações duma civilização perdida e não podes evitar que a nostalgia che bata no ombro e no coração ao recordar a cidade de anteontem. Se introduzes a mão no seu interior, case podes tocar a pedra das historias passadas. Na superfície só aparece o desastre caraterizado por eles como serviço social.
Realmente gostaria ter a idade suficiente para poder sentar-me num banco próximo e ver os desenhos arquitetónicos que o nosso benfeitor tem preparados para agasalhar-nos.

"Falar de rotundas atualmente implica optar por uma construção nada metódica, mas sim pela excentricidade. Uma estrutura com o ornamento apropriado que a enfeite". 

Devo dizer que gosto particularmente das escaleiras mecânicas que unem (quando é possível) a Porta do Sol com a rua II República... mas ainda não tive a oportunidade de usa-las, pois justo quando eu ia com essa intenção de, estavam folgando. A ver se um dia tenho sorte e faço realidade este antolho.
Quiçá acreditem na estética duma rotunda verde, com estatua, aborrecida... pois afastem de imediato essa ideia. As coisas já não são assim!

Falar de rotundas atualmente implica optar por uma construção nada metódica, mas sim pela excentricidade. Uma estrutura com o ornamento apropriado que a enfeite. Evidentemente hoje em dia, já não é viável se no centro dela não há um barco assentado, com uma iluminação e uns letreiros enormes, potentes como alucinogénicos...

Esta é a última tendência de moda a seguir. Se o que pretendem é pertencer ao escolhido grupo dos “mega guay” tomem nota! É a proposta que marca estilo, o imprescindível atavio de elegância. Um novo conceito de vanguarda que fará que a sua cidade alcance um lugar privilegiado... na listagem das mais “fashion”.

Cruz Martínez