Esta semana celebrou-se umha concentraçom infrequente: o concelho de Ponte Vedra convocou aos seus concelheiros para amossar rexeitamento ao atentado da mesquita de Al Rauda, no Egipto, que custou mais de 300 vidas. Ao contrário que nos casos de atentados em cidades europeias ou estado-unidenses, nom houvo iniciativas semelhantes noutras cidades.

 

O macabro atentado contra a revista francesa Charlie Hebdo, em janeiro de 2015, foi sucedido dumha campanha mundial de solidariedade, com centro no slogan “Je suis Charlie”, na que participaram milhons de pessoas. Manifestaçons masivas, condenas de todos os líderes internacionais, paros institucionais, actos simbólicos, decoraçom de monumentos com simbologia relativa à França, declaraçons de apoio e expressons de dor nas redes que incluiam a apariçom dumha nova aplicaçom no Facebook que permitia sobrepor as cores da república francesa. Os seguintes atentados em cham europeu -como os da parisina sala Bataclan no mesmo ano, os de Bruxelas, Niza e Berlin em 2016, e os de Londres, Estocolmo, Manchester e Barcelona neste mesmo ano- tiveram como resposta campanhas parecidas.

 

Se bem cada umha destas reacçons tem as suas particularidades segundo o momento, o país que padece o atentado e a forma concreta deste, si reúnem umha série de características comuns: do “je suis Charlie” ao “No tenim por”, tendem a difundir-se em forma de slogans fáceis de memorizar e distribuidos de forma massiva entre a povoaçom, comovida ante umha violência tam recorrente e indiscriminada; contam com um consenso e unanimidade insólitos entre medios, forças políticas e organizaçons sociais; e extendem-se pola expansom contagiosa em Internet, nos que avonda um click para manifestar umha indignaçom e umha repulsa compartida, para comunicar de forma imediata ante o nosso entorno ou ante espectadores e internautas desconhezidos que non somos indiferentes ante a dor dos nossos semelhantes.

 

O concelho de Ponte Vedra convocou aos seus concelheiros para amossar rexeitamento ao atentado da mesquita de Al Rauda, no Egipto, que custou mais de 300 vidas

 

Um consumidor superficial de meios de comunicaçom poderia concluír que o terrorismo de inspiraçom yihadista tem Europa como vítima principal. “Superficial” nom equivale em nengum caso a subinformado; polo contrário, mesmo pode associar-se à sobreinformaçom, já que poderiamos acumular a leitura de centos de titulares, em Internet ou em papel, o consumo de centos de horas de rádio e televisom, e continuaríamos convencidos desta idea. A realidade é completamente diferente, já que a inmensa maioria dos atentados tenhem lugar em países com mui pouca atençom mediática, fundamentalmente no suroeste de Asia, que conhecemos comummente como Oriente Meio, no Norte de África e no Sureste Asiático, e maioritariamente muçulmanos. 

 

No Ramadám deste ano, quando toda a Europa se comocionava polos atentados de Londres, produziam-se atentados em 26 países diferentes com mais dum milhar de vítimas. O 15 de outubro mais de 300 pessoas faleciam assassinadas em Mogadíscio, a capital do precário estado somali, com centos de feridos. Mas a atençom, a indignaçom e solidariedade espertada som completamente incomparáveis; nos principais meios do nosso entorno a notícia do atentado em Somália mereceu menos destaque que os três processos eleitorais de Áustria (legislativas), Venezuela (regionais) e Saxónia (estatais) e tivo também um percorrido menor nas redes sociais. Boa parte dos utentes chamaram a atençom sobre o mesmo assunto que este artigo, a existência dumha persistente hierarquia da morte, no termo que utilizaram certos meios anglo-saxons.

 

A teoria do “kilómetro sentimental” tenta exculpar em parte esta inquietante diferença. Nom somos inumanos por nos emocionar mais ante uns que ante outros, mesmo que os números de vítimas sejam maiores, porque nada é mais natural -asseguram- que a atençom dos meios e os seus consumidores seja mais intensa quanto maior seja a proximidade da tragédia, e inversamente proporcional; umha proximidade compreendida em sentido cultural e emocional, segundo o qual Estocolmo está muito mais perto de nós do que Marrakech, ainda que geograficamente a primeira cidade se atope ao duplo de distáncia. Mesmo aqui há umha hierarquia estrita entre os menos afortunados, pois o Egito é muito mais relevante geoestrategicamente que a Somália, por exemplo, e como tal tem maior releváncia e cobertura mediáticas. As estatísticas de mortos e os kilómetros de distáncia som temas de discusom para especialistas, quiçais para o matemático, para o sociólogo, para engadir mais um número em quadros ou notas a pé de página dos livros de história, mas nom elementos de mobilizaçom de massas. 

 

As estatísticas de mortos e os kilómetros de distáncia som temas de discusom para especialistas, quiçais para o matemático, para o sociólogo

 

Se bem o argumento contém -como toda crítica- partes de verdade, cabe perguntar-se se esta geografia sentimental é tam natural e quais som as raízes desse “sentido cultural e emocional”. Adorno e Horkheimer substituíram no seu dia a expressom “cultura de massas” pola de “industria cultural” para evitar precisamente que se puidesse interpretar esta como umha cultura derivada de forma espontánea das massas, quando estava determinada pola concentraçom da economia, os meios técnicos e a planificaçom comercial dos produtos destinados ao consumo. Poderíamos afirmar hoje que a industria mediática encobre umha variante seródia daquilo que Edward Said denominou como “orientalismo”, um modo de discurso no que a força e identidade da cultura europeia é afirmada en detrimento das demais, sempre entendidas como formas inferiores; umha hegemonia cultural que tende a apresentar-se como natural e consensual, mas que no fundo defende a idea dunha certa consciência geopolítica que desplega umha “identidade europeia superior a todos os povos e culturas nom europeus”. Said dedicou muitas linhas a demostrar que a política e o imperialismo tenhem consecuências nas teorias sociais, na literatura e na escrita da história. Este fio condutor é muito mais direto e evidente no superpoder dos grandes grupos de comunicaçom, empresas gigantes que tendem a apoderar-se de todo o espaço mediático, negócios em si mesmos e ao tempo vozeiros do capital. 

 

Os silêncios, as omissons e a reduçom a fragmentos nom som tampouco naturais, senom instrumentais. É este carácter utilitário o que permite também que determinados conflitos, como os da República Centro-Africana, o Iemen ou o Sudán do Sul permaneçam permanentemente na semiopacidade, independentemente da escalada milhonária de vítimas mortais, despraçados internos e refugiados. No caso concreto do yihadismo, permite projectar umha imagem de Europa -confundida aberta ou implicitamente como a civilizaçom que paga a pena defender- atacada desde o exterior por um inimigo tam fundamentalista que apenas se podem apreender mais explicaçons sobre a sua actuaçom que o fanatismo religiosso, liberando de qualquer trabalho prescindível ao jornalismo, à ciência política, à economia ou à sociologia. 

 

Mas os silêncios nom teriam efecto sem funcionar como complemento dos discursos que integram a ideologia da indústria mediática. Nos casos nos que se supera umha visom superficial e fragmentada dos conflitos e atentados, distorsionam-se as suas causas para melhor os adaptar aos interesses hegemónicos. Do contrário, ninguém aceitaria que os mesmos líderes e forças políticas que promoveram o yihadismo durante décadas puidessem participar e mesmo protagonizar as manifestaçons de repulsa a actos que som consequências das suas premissas. O caos yihadista nasceu da ofensiva contra-revolucionária no Afeganistám –“Que é o mais importante para a história do mundo? O Talibám ou o colapso do Imperio Soviético?“, preguntou-se o asesor de seguridade de Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski- e seria incomprensível sem a invasom e ocupaçon de Iraq, sem a ofensiva imperialista na Síria ou sem a destruçom da Líbia, que em diversa medida foram apoiadas polo PP, o PSOE e tristemente também polo general atlantista e ex JEMAD Julio Rodríguez, dirigente do Podemos. 

 

O caos yihadista nasceu da ofensiva contra-revolucionária no Afeganistám

 

Na unanimidade dos minutos de silêncio e a solidariedade inmediata nom se pesam nem calibram responsabilidades -nom se pode politizar, como argumentam os mais conscientes de que tudo é política- mas a sua existência nom se evapora, senom que revela a profundidade do cinismo. Como nom atopam rendabilidade em assumir a sua verdadeira identidade -som a Faluya calcinada polo fósforo branco, a Trípoli bombardeada, a Aleppo reduzida a entulhos- pretendem ser as vítimas de Bruxelas, Londres ou París. A manifestaçom do 26 de agosto em Barcelona, na que emergiu um vector de crítica -as obscenas ligaçons entre duas monarquias, a espanhola  e a saudita, denunciada por grande número de manifestantes- representou umha excepçom no branquamento das oligarquias,  facilitada em grande medida pola rebeliom independentista.

 

Por último, outra frente de crítica situa-se na utilidade da efervescência digital. A Internet que nos permite a cada um empregar o nosso teclado parece levar a efeito o sonho de Brecht sobre a rádio, quando reclamava um microfone para cada ouvinte, para poder convertê-los em falantes e assim explorar o seu potencial democrático. Mas nom é certo que se alterassem por completo as relaçons entre produtores e consumidores de informaçom, por muitas vezes que estes a repliquem e a comentem. Em 2013 o filósofo César Rendueles publicou unha crítica (Sociofobia) ao ciberfetichismo, na que explica que as redes sociais e a conectividade permanente nom melhoraram os nossos vínculos sociais nem a inteligência coletiva, senom que figeram emerger um simulacro de sociabilidade, um artefacto participativo baseado na inmediatez, no anonimato ou na exposiçom permamente de identidades convenientemente compartimentadas e seleccionadas. 

 

Nom é certo que se alterassem por completo as relaçons entre produtores e consumidores de informaçom, por muitas vezes que estes a repliquem e a comentem

 

Nom devemos conformar-nos com respeitar esta hierarquia imposta. Podemos superar à vez o relato hegemónico e o clickativismo com medidas materiais no mundo real. Com certeza, promovendo a alfabetizaçom na leitura dos meios de comunicaçom, sinalando os interesses que os sustentam e apoiando as iniciativas alternativas; também por meio da luta anti-imperialista, apoiando as acçons e organizaçons que atuam fora do escaparate. Já que o espaço institucional é um dos predilectos para reproduzir um corpo de teoria e práctica hegemonista, podemos empregá-lo também para demolir o círculo do “nós” legítimo, como entendeu o Concelho de Ponte Vedra: se os comunicados de condena e os minutos de silêncio estám condenados a resultar sempre dramaticamente insuficientes, si podemos decodificá-los de forma diferente ao introduzir outros nomes preventivamente condenados ao esquecimento, ao impulsar a concelhos, deputaçons ou parlamentos a pensar em Somália, Iemen, República Centro-Africana, a volver a mirada para tantas condenadas da Terra. 

 

Podemos superar à vez o relato hegemónico e o 'clickativismo' com medidas materiais no mundo real

 

O passado 9 de novembro o jornal berlinês Der Tagesspiegel publicava 32.393 nomes escavados doutra silêncio escandaloso. Tratava-se das identidades das pessoas afogadas no Mediterrâneo desde 1993, com o objectivo de identificá-los como seres humanos “com origem, passado e vida”. Enviemos mensagens semelhantes: respeitamos todas as vidas, sentimos cada injustiça como própria e nom só as que nos marca a geopolítica para defender interesses espúrios e alheios aos nossos. Seria um bom passo para abrir umha fenda no previssível, que sempre se situa do lado do hegemónico, e polo tanto contribuír a furar no imaginário imposto. Honremos todos os nomes, mas anunciemos também que nom queremos mais minutos de silêncio nem listas inabarcáveis de vítimas, que temos disposiçom a lutar para rematar com a barbárie e o imperialismo que a cria.

 



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