Rodeio com aspas o nome deste partido para sublinhar que considero que não é um nome galego autêntico, senão um galego deturpado que comumente se chama castrapo, o qual não é outra cousa que uma mistura de expressões galegas com castelhanas. É uma pena que tendo popularizado Uxía Senlle os seus Cantos na Maré não se seguisse já uma grafia que está muito bem aceitada popularmente, ainda que a fala popular normalmente utiliza «Marea», mas também no ano 1970 todos os galegos utilizavam a expressão popular «pueblo», que hoje consideraríamos anômalo. Uma observação semelhante se pode fazer a respeito do «Bloque», pois ainda que neste caso está consagrado por um uso dilatado, a opção desta força na atualidade polo reintegracionismo deveria propiciar um câmbio deste nome polo de Bloco.

 

Contudo, isto só é um inciso porque do que me proponho falar não é do nome senão do devir da formação política «Em Marea», um produto híbrido mistura de nacionalismo galego e nacionalismo espanhol. Os partidos que se integraram nela, Anova, IU e Podemos, basicamente concordam no modelo de sociedade, pois os três são de esquerda rupturista, mas divergem no modelo de estado, ou seja, no status político que cada um deles demanda para Galiza, que vai desde o independentismo, como é o caso de algumas formações integradas em Anova, como a Frente Popular Galega, ao federalismo como é o caso de todas as demais formações. O tipo de federalismo não o explicitam, que eu saiba, e, portanto, não sabemos qual vai ser o grau de ruptura com o caduco sistema da transição do 78. Já sabemos como o Castelao se opunha a um federalismo que se reduza a chamar-lhe estados federados ao que hoje são as autonomias, porque, segundo ele, isso implicaria multiplicar a nação espanhola, dando-lhe uma representação e um poder que não se correspondem com o peso que deveria ter na futura federação. O PSOE, que se proclama agora seguidor de Castelao, deveria inspirar-se também nisso e evitar que a qualquer demanda de autonomia respondam os barões dos territórios mais espanholistas que não consentirão nenhuma discriminação.

 

 Os partidos que se integraram nela, Anova, IU e Podemos basicamente concordam no modelo de sociedade, pois os três são de esquerda rupturista, mas divergem no modelo de estado

 

O compromisso dalguns dos membros da formação IU com o direito de autodeterminação pôs-se de manifesto com as declarações de Alberto Garzón nas que se opõe ao referendo catalão. "O referéndo do um de outubro não soluciona nada e, portanto, não o podemos apoiar". Fixemo-nos que não recorre ao consabido tópico de que é ilegal senão que não soluciona nada, pretexto que também se pode aplicar no futuro a qualquer referendo ainda que seja legal, e quem decide se soluciona algo ou não são os partidos espanholistas governantes na capital do Estado que consideram Espanha como o seu patrimônio e ao único que estão dispostos é a tolerar de má ganha a uns inquilinos molestos como são para eles os nacionalismos periféricos.  Ele prosseguiu declarando que “por solidariedade creio melhor uma República Federal e o direito autodeterminação expressado com garantias”. Suponho que nisto coincidiram praticamente todos os que são autenticamente democratas, incluídos os nacionalistas, ainda que não seja prioritariamente por solidariedade por não ser esta o fim dum partido político, senão por conveniência, se se faz por pacto livre, mesmo para o interesse dos povos respetivos, mas a questão não é o que um deseja em abstrato, senão o que se pode fazer num momento concreto e o que não aclara o Sr. Garzón é como se consegue todo isto, que, em todo caso, estaria subordinado a que se consiga: que cambie na Espanha o modelo de estado e se implante a república, opção à que se opõe tanto o PSOE como o PP e C’s; em segundo lugar, que se pactue que essa república seja federal, alternativa à que se opõe frontalmente o PP, mas si coincidem, com a esquerda rupturista, o PSOE e C’s, se bem parece que só nominalmente, quer dizer na decisão de chamar-lhe federal ao que não é mais que outro sistema autonômico mais ou menos disfarçado. Mas o problema não é nominal senão principalmente de competências e garantias, e qualquer pode ver que o trajeto que se pode andar com qualquer destes partidos, especialmente com o xenófobo C’s é bem curto como se comprova com as suas manifestações quotidianas; e, em terceiro lugar, que essa república esteja de acordo em convocar um referendo de autodeterminação para Catalunya para que tenha todas as garantias, solução à que se opõem tanto o PP como o PSOE e C’s. Em realidade estes pretextos mais bem parecem desculpas de mal pagador e o que escondem no fundo é uma grande renitência a que os povos se expressem livremente. Essas proclamas verbais que faz por vezes a esquerda espanhola parece que só pretendem garantir-se o apoio imediato dos provincianos e deixar a solução do problema da reordenação territorial ad calendas grecas. Lembremos que já IU urgia que se priorizasse o problema social, ou seja, o seu interesse como esquerda, sobre o problema nacional antes de fundar-se AGE, e, surpreendentemente, acederam a isto incluso os dirigentes da FPG, como se houver que optar entre montar a cabalo e assobiar.

 

Os ostentosos abraços do Beiras com a Yolanda Díaz dos inícios da travessia foram sucedidos por azedos reproches ao final do cruzeiro

 

Recordemos também que esta formação foi a substituta de AGE, um experimento com um notável êxito eleitoral nas primeira eleições às que se apresentou mercê em grande parte à personalidade carismática do Beiras. Os promotores da criatura, Anova e IU, consideraram fracassado o invento trás uma curta singradura, corroída por dissensões internas que se saldaram com várias cisões parlamentares. Os ostentosos abraços do Beiras com a Yolanda Díaz dos inícios da travessia foram sucedidos por azedos reproches ao final do cruzeiro. O labor do grupo reduziu-se a alardes estridentes de gesticulação teatral no Paço do Hórreo. Uma vez fracassada a AGE havia que substituí-la por algo distinto e consideraram que o salva-vidas viria da mão duma formação à essa altura em ascenso acelerado como era Podemos, que viesse dar-lhe oxigênio a uma desacelerada IU e aos debilitados nacional-esquerdistas de Anova, e isto deu como resultado «Em Marea». Na Galiza criou uma dose de otimismo e esperança em muitas capas da população, mesmo entre os nacionalistas, por crer que seria quem de aglutinar a cidadania num projeto ganhador que lhe reconhecesse ao nosso país o direito de autodeterminação e muitos nacionalistas consideraram que havia que defenestrar ao elanguescente BNG e subir-se ao novo salva-vidas que nos lançavam os podemitas capitalinos. 

 

 A esta altura «Em Maré» esmorece perante os reiterados ataques dos seus dirigentes mais mediáticos: Julio Ferreiro, Suárez, Martinho Noriega e Beiras

 

Pessoalmente nunca comparti semelhante onda de entusiasmo porque sempre considerei que ninguém nos vai dar nada regalado por muitas galantarias com as que se adube, como no-lo fez ver o processo de emancipação das mulheres, dos negros, dos escravos, dos homossexuais,... que nunca lograriam os seus objetivos se fiassem no apoio dos homes, dos brancos, homes livres e heterossexuais. Sempre considerei que o nacionalismo espanhol, seja de direitas ou de esquerdas, nunca vai propiciar um câmbio que implique maiores quotas de autogoverno dos povos submetidos do Estado espanhol, salvo se estes povos têm a força suficiente para obrigar a que sejam tidos em conta. Tenhamos presente que o nacionalismo jacobinista do PSOE foi quem participou em 1982, junto com a UCD, na aprovação da LOAPA que vinha a mutilar os já raquíticos estatutos de autonomia e submetê-los ao ditado dos partidos espanholistas com objeto de fazer-lhe um aceno aos setores golpistas. A prova é que em agosto de 2015 escrevia: “Apelar á candidaturas de unidade popular, onde a cidadania seja a principal impulsora do processo e os partidos, os motores auxiliares, parece-me que é uma burla e um insulto a esta mesma cidadania. Estes dias estamos presenciando uma atitude pedinchona e os abraços do Beiras com os representantes dos partidos espanholistas de esquerda para que acedam a pautar com ele uma candidatura de unidade popular, e estava sumamente preocupado porque o Pablo Iglesias lhe propunha uma saída que seria uma humilhação pública do líder de Anova ante as suas hostes reduzindo-o a sacristão do grande sacerdote madrilenho, convertido no galo do poleiro, impondo a sua marca Podemos como nome da candidatura, seguido doutra cousa, porque os galegos devemos ficar reduzidos a «outra cousa». O Beiras, insatisfeito, pugnou embravecidamente para que na candidatura figurasse «Marés-Podemos», em vez de «Podemos-Marés», permitindo que o seu grande Chefe madrilenho, dirija o processo e as políticas”. O recurso à unidade popular ficou num mero reclamo eleitoral e foi arrombada polos seus mesmos promotores; em si não é outra cousa que uma enteléquia que, em caso de existir faria desnecessária a pluralidade de partidos políticos. Tenhamos presente que a crise de fundo agora com Villares vem precisamente de que os partidos promotores saíram malparados na confrontação com o porta-voz parlamentar no Consellho de En Marea, porque precisamente os que montaram a invento e vem como se lhe escapa das mãos.

 

A esta altura «Em Maré» esmorece perante os reiterados ataques dos seus dirigentes mais mediáticos: Julio Ferreiro, Suárez, Martinho Noriega e Beiras, e alguns deles, como o Beiras, não se arredam de proclamar aos quatro ventos o seu fracasso. Agora falam de que necessitam discutir pausadamente o processo, como se não tivessem tempo de fazê-lo até agora. Isto indica que se vão ensimesmar em vez de procurar soluções para o país. Vai também acentuar-se a larvada luta polo poder, que é o que realmente subjaz no fundo, e, evidentemente, vão-lhe complicar muito mais o liderado a Villares, que é o que, em realidade se pretende. Apesar do seu êxito eleitoral significativo, ainda que menor do esperado, o seu futuro é problemático, e não surpreenderia que haja uma nova reordenação. O problema é agora a credibilidade que têm os que já fracassaram nos dous intentos anteriores.

 

Finalmente, quero lembrar uma chamada à unidade de Rafa Cuíña, alcaide de Lalím, cheia de sensatez e sentido comum: unamo-nos todos os que pensamos igual. Isto deveria fazer reflexionar a todo o nacionalismo desde o centro esquerda à esquerda rupturista, para que façam um esforço e não consumam as forças inutilmente em combater-se entre si, e por acima coligando-se com formações com as que existe uma disparidade qualitativa sobre o modelo de estado, que ao único que conduz é a converter o conglomerado numa gaiola de grilos. 



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