A união, por uma parte, da serôdia intervenção de Alberto Nuñez Feijoo quando o lume levava horas atuando, e, por outra, das informações que a imprensa galega levava horas adiantando, conduzem-me a pesquisar a possível relação entre os relatos dessa mesma imprensa e o construído polo poder, concretizado neste caso no Partido Popular. Provavelmente foi essa tão serôdia aparição e a introdução nela, por parte do presidente da Junta, do termo terrorismo o motor que empurrou estas linhas. 

 

Se olharmos as manchetes que deitam alguns jornais significativos dos que operam fora do nosso país para comunicar a desfeita, acharemos “El fuego intencionado en el sur de Galicia se cobra dos vidas” (ABC), “Los incendios ponen en jaque Galicia y causan dos muertos” (El País), “Dos muertos en uno de los múltiples incendios que asolan Galicia” (La Razón). Em termos semelhantes expressam-se outros jornais, como La Vanguardia ou El Mundo e neles sobrancea-se a situação de angústia, com expressões tais como ponen en jaque ou asolan. Deve-se também sinalar que —contendo, fundamentalmente, idéias semelhantes— os textos que constituem as manchetes são diversos na sua redação, na escolha das palavras, na vontade de estilo de cada meio, mostrando, contudo, os comuns denominadores de muertos/vidas e incendio/fuego

 

Mas, se nos dirigimos agora aos textos dos principais jornais galegos, descobrimos com pasmo as redações de “Dos muertos y caos en Vigo y su área por un gran ataque incendiario” (Atlántico), “Muerte y horror por el terrorismo incendiario” (Faro de Vigo), “Galicia asediada por criminales incendiarios” (La Región) ou  “Ataque incendiario y mortal a Galicia” (La Voz de Galicia). A unanimidade rebenta por toda a parte e os dous mortos só se nomeiam num caso (Atlántico).

 

Como não resulta difícil comprovar, a focagem dos blocos jornalísticos que agem fora e dentro da nação contém diferenças mais que surpreendentes. A imprensa forasteira visa a tragédia com elementos essencialmente objetivos e baseados no dado: na altura existiam duas pessoas mortas e assim fica refletido sem exceção, independentemente da orientação ideológica do jornal; aliás salienta-se um elemento evidente: o culpável da morte é o fuego ou o incendio, não outra causa. Quer dizer: a imprensa estrangeira tenta essencialmente descrever os feitos, talvez com a exceção de ABC que introduz o termo ideológico “intencionado”, embora tal questão não deixa de ser uma obviedade, já que a opinião pública está farta de saber que a mecânica que rege o abrolhar do incêndio é notavelmente distinta da que possibilita o aparecimento do cogumelo. 

 

A focagem dos blocos jornalísticos que agem fora e dentro da nação contém diferenças mais que surpreendentes

 

A imprensa galega, às avessas, e de maneira esmagadora, não comunica (põe em circulação o que é comum) as verdades mais dolorosas, a morte, a angústia, a desfeita ecológica. A proposta que faz a “nossa” imprensa é, em primeiro lugar, extraordinária e estranhamente homogênea. Longe de, como na imprensa alheia, centrar a questão na morte e no lume, a imprensa galega não tenta descrever, mas construir uma nova realidade, operando no campo semântico do terrorismo e do ataque, e, portanto, do acosso, da perseguição, do assassinato, da premeditação, da conspiração, até o ponto de que, no caso do Faro de Vigo quase se nos situa num panorama tipo 11-M ou 11-S (“Muerte y horror por el terrorismo incendiario”). De tal jeito que, se reduzirmos ao mínimo as manchetes, prescindindo de artigos, preposições, nexos e elementos secundários teríamos que a definição básica é a dum ataque incendiário (Atlántico), terrorismo incendiário (Faro de Vigo), criminais incendiários (La Región) e, de novo, ataque incendiário (La Voz de Galicia). Resulta muito significativo julgar que nenhuma das palavras ataque, terrorismo, criminal e incendiário figuram na imprensa de além O Padornelo, bem como resulta muito desconcertante que quatro jornais galegos, á hora de escolher duas palavras basilares para descreverem uma situação coincidam em todos os casos com o termo incendiário e em dous com o de ataque. Essa coincidência —estatisticamente falando, de probabilidade quase zero— resulta tão extravagante como a de, num mercado de livre competência, serem idênticos os preços dos carburantes para carros postos à venda por diferentes petroleiras. A gente sabe que esta coincidência não é produto da casualidade.

 

A imprensa galega não comunica (põe em circulação o que é comum) as verdades mais dolorosas, a morte, a angústia, a desfeita ecológica

 

O que constitui o cúmulo do sobressalto é que essa linha argumental, esse relato, é o que defende e mantém Núñez Feijoo na sua (serôdia) aparição (a de Rajoy ainda é mais serôdia, porque, segundo noticias da imprensa digital não galega, estava ocupado a ver o Betis-Valencia). Como é lógico, nem a imprensa, nem Feijoo muitas horas mais tarde, sinalam onde estão os terroristas, quem são as criminais, quem planificou o ataque e qual é objetivo real deste ataque terrorista e criminal. E isto ocorre porque esse, em verdade, não é o cometido da “informação” de quem preside a Junta, nem de quem informa. A memória, em casos como o que nos ocupa, é um valor essencial e um não pode deixar de lembrar uns acontecimentos ocorridos em março de 2004. Nas datas que seguiram, a sociedade adquiriu conhecimento das chamadas da Moncloa aos principais meios de comunicação para os “informar” de que não deviam equivocar-se, porque o executor dos atentados não era, como se dizia, o islamismo, mas ETA. Com precedentes como este, parece difícil não estabelecer no nosso caso -trata-se do mesmo partido- um nexo entre as informações da imprensa e as do presidente galego e semelha quase impossível não pensar que o relato comum deveu gerar-se longe das redações. E isto, mesmo assumindo as imensas contradições geradas, como, por uma parte, deitar a suspeita de se tratar dum ataque terrorista e criminal ao pé da que sugeria que era Portugal quem poderia chegar a se considerar responsável da tragédia. Mas, em todo caso, o fio condutor apontava na mesma direção: quer um inimigo desconhecido (terrorismo), quer um situado no exterior (Portugal), o qual nos desloca para os tempos da ditadura, cada dia mais presente, quando a discrepância se devia aos “maus espanhóis” ou aos “agitadores especializados extranjeros”. 

 

O fio condutor apontava na mesma direção: quer um inimigo desconhecido (terrorismo), quer um situado no exterior (Portugal)

 

Mas a verdade abre-se passo sempre e o que parece solidamente chantado quebra o que semelha inamovível. A verdade, a imensa, a radical verdade é que não existiam meios para combater o lume (obviamente provocado), ainda que a Junta seja uma das instituições que maior gasto esbanja -sim esbanja, sim, como os dados demonstram- na Europa no combate contra o lume, uma vez que este se declara e das que menos atua preventivamente, como um amplo coletivo de especialistas leva décadas a dizer. Desejo que Feijoo não tente generalizar este ponto de vista afirmando que o combate contra os cancros de mama ou de próstata se deve focar na luta contra eles depois de aparecerem, e não nas revisões periódicas preventivas. A verdade, crua, selvagem, violenta, manifesta-se através das palavras do próprio Alberto Núñez Feijoo, quando reconheceu que "perdemos o controlo durante 12 horas". Com efeito, durante essas doze, vinte e quatro, quarenta e oito horas, o governo galego sabia que era impossível combater o lume, sabia que só a chuva poderia vencê-lo, porque o monte, o nosso rural, está abandonado, literalmente “a monte”, porque Meio Rural são só duas palavras sem sentido. Durante doze horas, vinte e quatro, quarenta e oito, em realidade todo o tempo transcorrido até que chegou a chuva, o governo galego só pensou construir o relato que lhe lavasse a face perante a gente, porque durante doze, vinte e quatro, quarenta e oito horas, o mesmo que no caso do Prestige, não existiu a Junta, nem o Estado, nem nada. E, para tapar essa vergonha, Feijoo pronunciou frases como “Loitamos contra o imposible” ou “atacaron-nos indiscriminadamente”, desejando pôr, num território inacessível, uma proposta indemonstrável. 

 

Mas houve uma segunda fenda através da qual a verdade se abriu caminho e na que não repararam nem os meios nem Feijoo: as imagens da gente, as fotografias, fixas ou em movimento, publicadas por esses mesmos meios ou polas televisões (a TVG fazia-nos ditosos com Luar e Land Rober). A imagem dá conta, em alguns momentos, do que a palavra cala, exatamente como no caso do Prestige. O discurso do ataque, do terrorismo, dos criminais que a imprensa —com a intuição e o olfato que a caracteriza— adiantou, quer ocultar o que mostram as fotografias de primeira página dos mesmos jornais galegos que constroem esse relato e que são as que autenticamente desvendam a verdade: ali, as pessoas, soas, com caldeiros, com mangueiras improvisadas, moços e moças, soas, com trebelhos caseiros, gentes idosas ou de mediana idade, com foices ou com pás, soas, mostram com claridade a inexistência da Junta e do Estado que, como de costume, as abandona quando chegam os problemas; ali as pessoas, soas, com as suas próprias mãos, com a vida em jogo, até algumas a perderem, com camisola ou com o torso ao ar porque a calor era insuportável, com sapatilhas, botas, não com Fred Perry, sapato castelhano, cinto fino e mangueira de BricoKing, a poucos metros do lume, essa gente ateigada de dignidade, de defensa do seu, soa, decidiu botar-se, mais uma vez, o país às suas costas e fazer o que sempre faz, ainda que muitas vezes não o saiba: conseguir enrubescer -metaforicamente, porque falamos de faces de cimento armado, curtidas na mentira e na perversão da linguagem- o rosto duns governantes que são a vergonha do país que os viu nascer e indignos de serem mandatários. 



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