UN VERÁN EN GALEUSCA

"Danger", por Susana S. Arins

"Danger", por Susana S. Arins
Danger - Susana Aríns
Danger - Susana Aríns  

Susana Sánchez Arins nasceu em 1974 em Vila Garcia, mas criou-se e cresceu no Fojo, terradentro. Estudou Filologias Hispânica e Portuguesa na USC e tem o DEA em Literatura Comparada. Põe escola no Ensino Secundário. Estudou e trabalha na escola pública. Em 2008 ganhou o XXI Premio Nacional de Poesía Xosé María Pérez Parallé com a obra [de]construçom, publicada em 2009 por Espiral Maior. Seguiram-lhe Aquiltadas (Estaleiro Editora) e A noiva e o navio (Através Editora) em 2012. Em 2015 publicou seique (Através Editora) e em 2018 Carne da minha carne (Apiario Editora) e Tu contas e eu conto (Através Editora). Participou com textos voandeiros em obras coletivas e revistas e faz parte da Plataforma de Crítica Literária A Sega, para quem escreve recensões com perspetiva feminista. Publicamos o relato "Danger", no marco da sección "Un verán en Galeusca", partillada por Sermos Galiza, Berria e Vilaweb.


Maribel entrou. Nem sequer petou na porta ou deu as boas tardes:

- Faltam os meninhos. Estão aqui?

E começou a procura. Ela já mirara na casa toda, do soto ao faiado, no saído, na de Virucha e na de Batám.

- No teleclu?

- Está fechado e não têm chaves.

- Mas gostam de ir ao campo de atrás e brincar no picho da traída.

Lá foi a Irene a ver se estava a meninhada no teleclu a fazer navegar barquinhos nos regueiros e poças. A meninhada eram dous que passaram a ser três. Manuel e Bárbara eram as duas últimas crianças que tínhamos na aldeia. Como não havia outras do seu tempo andavam sempre ao rabo das grandes, que éramos nós. Vinham para junto nossa sem nos modificar a agenda. Se estávamos a escuitar música, sentavam e escuitavam também; se estávamos aos risos com Pablo, uniam-se a eles, mesmo sem perceber as piadas; se andávamos na garagem a arranjar na bici, lá se punham de aprendizes da mecânica. Chamávamos-lhes os pins, por cousa pequena e peghota. Neste mês juntara-se-lhe Luis, o primo recém chegado da Venezuela. Como lá as coisas não iam bem, enviaram-no ao Fojo para fazer aqui o ano escolar.

- Não iriam ao colégio? Ao melhor queriam-lho ensinar ao Luis?

A nossa aldeia está fendida em dous pola estrada que vai da costa a Lalim. Sempre foi limite infranqueável para as crianças. A escola ficava duma banda, nós, da outra. Podíamos ir a caminhar e nós fazíamo-lo com o papai. Todo eram carreiras até chegarmos às linhas brancas, parada em seco, vigilância adulta, olhar à direita, olhar à esquerda, e venha, que não venham carros! Quando o papai não vinha, saía da casa, sempre como casualmente, a sinha Lola, a aguardar pola neta, que não tinha que cruzar, mas era escusa para mirar por nós. Esta maneira de fazer continuava a reger no lugar. E a proibição de cruzar sem acompanhamento adulto estava vigente. Mas por enquanto, por se o primo da Venezuela era influência demoníaca, lá foi Xurxo até o cole.

A Maribel comiam-na os nervos. Botava cigarro atrás cigarro.

- Ai, se sabe meu irmão! E ele a temer as ruas de Caracas!

A minha mãe preparou-lhe uma infusão. Entretanto, a vizinhança repartia-se, de caçata, polo lugar.

- Que outro sítio podem conhecer por vós?

- Ao melhor foram fazer cabanas. A semana passada levamo-los ao castrinho.

E lá fomos eu e Carmela pola pista de Melha. Internamo-nos polo caminho que vai à de Juanito: a uma banda alcolitos, à outra os muros com tijolo à vista do serradoiro.

- Acordaste de quando Jose, o da Andaluza? - Carmela mentou o perigo. Jose entrara no serradoiro para se esconder e dar-nos um susto. Mamã viu tudo desde a cozinha. Nem tempo teve ta lhe berrar que baixasse do monte de madeira. Um dos troncos apinhados caiu-lhe em cima e esmagou-o. Finalmente só quebrou uma perna, mas o serradoiro virou espaço vedado, também.

- À volta entramos e damos uma olhada – a necessidade de aventar o temor.

Assomamos às veigas arvoradas da esquerda. Algumas das nossas cabanas secretas, as de verão, fazíamo-las aí, entre os fentos, que passavam da nossa altura, o que diz bem que minchas éramos. As crianças podiam andar agachadas, e chamamos por elas, enquanto continuávamos a caminhar. No castrinho os carvalhos recuperam o espaço, como lhes guardando o respeito que merecem os lugares sagrados. O castrinho é em realidade uma mámoa, uma elevação do terreio que dava para castelos, paços, fortaleças e procuras de tesouros. A su croa, violada e afundida, era agocho perfeito no jogo das escondidas. E juntava ao mistério o perigo: a poucos metros estavam os pendelhos do fogueteiro, rebordantes de pólvora que podia rebentar com a chispa mínima.

- E saberão elas que não se podem achegar às casotas da dinamita? -esta vez fui eu a mentar.

Do alto do castrinho gritamos os seus nomes. Desde aí escuitávamos os mesmos berros vindos do caminho real e da pista de Currás. Polo caminho, cara Agrelo ia o Inhaqui, com Javier de Ferrim, por ver se lhes acordara o campo de cogomelos que sempre íamos visitar. Era o único lugar onde podíamos admirar as amanitas, com os seus carapuchos encarnados e a tona branca e os seus alucinôgenos venenos.

Polas leiras de Currás eram as vozes de Irene e Pablo as que ouvíamos. O medo cresceu. Como podia ser que não respostassem? Todas nos escuitávamos entre nós. E da meninhada, nada.

Na casa continuavam mamã e Maribel. Na mesa, no cinseiro, cabichas de dez cigarros; ao carão, três saquinhos de tila. Saíam quando chegamos.

- Juntamo-nos todos na capela. Decidiremos onde procurar.

Botamos a andar e chegou-se a nós Fina Batám.

- Mirei mesmo na palheira, e no albório do forno, mas aí não estão.

- Levaria-os alguém?

- É tão estranho que não deem chio.

Na pracinha da capela fomos chegando a vizinhança toda. As de Ferrim, os de Batám, os do mestre (nós), as de Souto, a Pereirana, as do Leitiero, os dos xemelgos, os de Marina… Demos informes.

- No colégio não havia ninguém. Baixei até a Bemposta e Felisa a da taberna não viu crianças como as nossas.

- Acho que não me quedou pendelho sem mirar entre a de Juanito e a de Montoiro…

- É melhor chamar à guarda civil. Vai cair a noite e depois sim que será complicado procurar.

Foi aí que ouvimos uns risos. Vinham do fundo da capela, polo caminho real. A assembleia popular virou toda para o barulho infantil. Vimos como assomavam três figurinhas. Pareciam os meninhos do filme “Conta comigo”: Bárbara levava a sua mochila de Peppa Pig e acompanhava o andar com uma vara, como se fosse peregrina; Luis levava outra vara e vinha com um braço botado polos ombros do Manu, que parecia dirigir o grupo, com os seus prismáticos de explorador pendurados do pescoço. Pararam enquanto repararam na vintena de caras que os aguardavam, umas risonhas, outras incomodadas, outras com alívio.

- Mamai, andamos de turismo com Luis!

- Levamo-lo à fonte do Santo António.

- Vimos três píntegas, e culharapos, e metemos os pés, ainda que não se via o fundo…

- Eu não, a mim dá-me nojo. A água é escura.

Ninguém se acordara de baixar até a de Suso nem de revisar a fonte. Eu vim à minha mãe chegar-se a Maribel e botar-lhe a mão ao braço.

- Não lhes passes o teu medo. Que não saibam.

- Trouxem-che flores! - e Bárbara entregou à mamai um raminho de pampulhos que levava na mão.

- E desde quando podeis sair da casa sem permissão? -acertou a dizer-. Passai a merendar!