CONVERSAMOS COM SOCORRO LIRA, CANTORA E COMPOSITORA BRASILEIRA

“Estou feliz de voltar à Galiza”

“Estou feliz de voltar à Galiza”
Socorro Lira
Socorro Lira  

Socorro Lira nasceu na Paraíba, no nordeste brasileiro, e vive em São Paulo. Conta com uma trajetória profissional intensa, em quinze anos de carreira lançou dez CDs, um DVD e um EP. De regresso na Galiza, a poderemos ouvir em único show em Santiago de Compostela, no dia 24 de Outubro às 20.30h, no Teatro Principal, acompanhada de Uxía e Carlos Blanco. Conversamos com ela sobre seu novo álbum, Amazônia. Entre Águas e Desertos


Quando começa a sua relação com a Galiza?

Quando cheguei aqui pela primeira vez estava aprofundando um pouco o conhecimento sobre as cantigas de amigo galego-portuguesas. Eu queria fazer um disco com base em Portugal e, naquela altura, uma amiga de São Paulo neta de galegos, me sugeriu fazer um disco com as cantigas de amigo. Eu achei ótimo. Só que na altura eu não tinha muita noção, estou falando do ano 2006, do profundo e estudado que era esse tema e que faz parte do nosso patrimônio imaterial. Achei interessante e mergulhei de cabeça sem saber onde ia parar.

Primeiro fui à França para procurar informação sobre as cantigas de amigo através da tese da professora Ria Lemaire, e de aí viajei para a Galiza para conhecer o lugar de que falam as cantigas, como ondas do mar de Vigo. Onde é Vigo? Onde é São Simão? Eu cheguei aqui em 2006, voltei em 2007 e 2008, e foi como nasceu aqui o Cores do Atlântico, um CD-livro meu em parceria com “Ponte…nas ondas!”, e o livro que tem a interpretação teórica da catedrática Ria Lemaire Mertens.

"Toda cultura é local. O que é que acontece? Que o mercado, a indústria cultural do entretenimento, pega uma coisa e a impõe para o resto do mundo"

Você veio para conceber um trabalho artístico que resultou no CD-livro Cores do Atlântico, uma interpretação contemporânea da lírica medieval galego-portuguesa, com a colaboração de artistas de Portugal, da Galiza, da Guiné Bissau e do Brasil. Como nasceu este projeto?

Quando cheguei aqui em 2006, vindo da França, eu entendi qual era o projeto que eu queria fazer. Que é que eu fiz? Eu sou uma compositora brasileira e após revisar algumas autoras entendi o que é que poderia ser: vai ser um CD e eu vou atualizar os textos do galego-português para o português do Brasil, vou musicar e vou pegar na nossa matriz musical contemporânea, o samba, o batuque, a canção...

Durante este processo eu tive uma pessoa que foi fundamental nisto tudo que é a Uxía. Como sempre a Uxía. Ela me deu essa visão internacional ao disco que ela chama de Atlântico. Uxía me sugeriu ademais alguns nomes para colaborar no CD, como Eneida Marta da Guiné-Bissau, João Afonso de Portugal. Eu de lá do Brasil chamei a Margareth Menezes, Eneida Marta, e de aqui da Galiza colaboram a própria Uxía e Leilía.

"Entre águas e desertos fala um pouco dessa beleza amazônica por oposição a um deserto humano"

Agora você voltou à Galiza para apresentar um novo trabalho, intitulado Amazônia. Entre Águas e Desertos, um CD-DVD que homenageia a floresta amazônica. Qual era a ideia principal? Qual o objetivo?

Entre Cores do Atlântico e Amazônia houve outros discos, eu acredito que fiz mais dois discos que lancei no Brasil.

Agora Amazônia é o mais recente e é um projeto que me foi oferecido, me foi dado por um amigo que é escritor. Ele se chama Roberto Tranjan. O Roberto lançou um livro que é um romance de negócios ambientado na Amazônia, intitulado O Devir. Quando a gente estava no sarau, na entrega do livro dele, o Roberto me diz: “você comporia uma canção e faria um disco sobre a Amazônia?”. E assim foi.

Este disco é uma obra tríplex porque ademais tem o livro do Roberto, de onde vem a motivação para fazer o disco; e tem a colaboração de Elifas Andreato, que é um dos grandes artistas brasileiros da arte plástica, um grande artista visual, o mestre das capas de discos como as de Chico Buarque. Ele ilustrou a capa do CD e DVD do Amazônia, e também o livro do Roberto Tranjan.

A Amazônia vem porque é como uma metáfora. A Amazônia tão rica, tão abundante, e ao mesmo tempo tão depredada. Entre águas e desertos fala um pouco dessa beleza amazônica por oposição a um deserto humano, a uma secura humana que carregamos tão drasticamente nestes tempos. Você pode ouvir o álbum no Spotify, no ITunes... Uma forma de o poder ouvir já que o álbum não saiu aqui.

"A gente vai inventando formas de criar espaço para a música que realmente tem a ver com a história das pessoas, do povo, do país"

Ademais, você também é autora do projeto Memória Musical da Paraíba, onde trabalha com artistas e grupos de cultura popular no seu Estado. Qual é a situação da música regional neste cenário diante do atual processo de globalização?

Olha, tem um autor brasileiro chamado José Ramos Tinhorão, um grande escritor e estudioso da cultura popular brasileira. Ele diz assim: “o universal é o regional de alguém que alguém pega e impõe para o resto do mundo como universal”. Toda cultura é local. Toda cultura reflete um jeito de ser de um determinado lugar. O que é que acontece? Que o mercado, a indústria cultural do entretenimento, pega uma coisa que é de um lugar e impõe para o resto do mundo como sendo universal, assim como a língua inglesa, por exemplo. E o mesmo acontece no Brasil com o cinema do Hollywood, as bandas de rock&roll que vem da Inglaterra ou dos Estados Unidos.

Na verdade, eu venho da cultura do nordeste brasileiro que também tem raízes ibéricas e inclusive galegas, claro. O que acontece no Brasil com as políticas de cultura é que são incipientes, muito fracas, e os governos não fazem aquilo que deveriam fazer como gestores públicos, e as pessoas vão fazendo o que podem. Eu sou uma artista que se beneficia dessa riqueza cultural do país. E no meu estado, na Paraíba, eu fiz alguns discos e fiz umas recolhas de música tradicional porque ninguém fazia, na época comecei por intuição com a Memória musical do Paraíba. Agora eu estou com outro projeto que é o Prêmio Grão de Música, e este ano a gente vai fazer a terceira edição. É um prêmio a nível nacional e reúne cada ano em um disco quinze canções de artistas de cada ponto do país. É o quarto disco este ano.

Neste contexto, a gente vai inventando formas de criar espaço para a música que realmente tem a ver com a história das pessoas, do povo, do país. Como eu te falava, a cultura do entretenimento, essa que chega como diversão, ela solapa, ela mata o resto. Essa cultura chega com tanta força pelos meios de comunicação que mata e desacredita o resto. Aquilo que a Uxía defende aqui na Galiza, com projetos como os Cantos na Maré, existe em vários lugares do mundo, e também no Brasil, tem pessoas que vão cuidando essa parte descuidada pelos governos e pelo próprio mercado.

Muito obrigada, Socorro, por partilhar seu tempo. Você gostaria de acrescentar algo mais?

Sim. Quero dizer que eu estou feliz de voltar aqui. Também quero agradecer a Uxía e a Carlos Blanco, que são dois artistas que eu admiro muito e de quem eu gosto muito, gosto inclusive quando eles vão ao Brasil. Também quero agradecer ao pessoal do Teatro Principal e quero agradecer a esta terra pela sua generosidade e carinho por mim e por quem chega aqui. Obrigada mais uma vez por tudo.