ALINE FRAÇAO

“O galego continua a ser a mesma língua que eu falo”

“O galego continua a ser a mesma língua que eu falo”
[Imaxe: Cedida] Aline Françao
[Imaxe: Cedida] Aline Françao  

A cantora e compositora angolana Aline Frazão (Luanda, 1988) voltou à Galiza para apresentar seu novo disco, Dentro da chuva, um projeto que nasce da força do essencial, da pureza, do minimalismo:só voz e violão. Frazão esteve em concerto na quinta-feira 25 de abril em Compostela, na Sala Capitol, o sábado 27 em Ponteareas, no Auditório Municipal e o domingo 28 de abril na Corunha, no Garufa. Desde Lisboa, através de um fio que a une à Galiza, tivemos o prazer de conversar com Aline Frazão sobre o seu último trabalho discográfico, sobre a importância da palavra despida, da poesia e do silêncio num mundo cada vez mais ruidoso. Eis un extracto da entrevista publicada no número 344 do semanario Sermos Galiza en papel.


mini_2O concerto em Compostela foi uma oportunidade para festejar um dia muito especial, o 25 de abril, Dia da Liberdade, acompanhada também por convidadas muito especiais: a cantora brasileira Kátya Teixeira, a galega Uxia e o brasilego Sérgio Tannus. Como te sentes nesta volta à Galiza?

Como podes imaginar, significa muito para mim tocar em Santiago, na cidade onde eu vivi. Morei cerca de um ano em Santiago numa altura muito importante da minha vida, quando eu decidi fazer música. A Galiza foi o lugar que me começou a dar os meus primeiros pequenos públicos de uma forma muito orgânica, muito espontânea. E isso motivou-me muito para fazer tudo o que eu fiz desde então. Voltar a Santiago e aos outros lugares da Galiza é certamente emocionante. Principalmente e também pelo facto de partilhar o palco com a Uxia, a Kátya Teixeira e o Sérgio, em especial a Uxia e o Sérgio, que são duas pessoas superimportantes na minha vida. Ou seja, um pouco de reencontrose, como qualquer reencontro, dá sempre uma espécie de nervosismo, mas também de uma certa expectativa de alegria e de querer que as coisas corram bem.

Pela minha parte, há um conjunto de fatores muito curiosos: o facto de voltar a Santiago, de contar com a presença do Sérgio e a Uxia e por ser o 25 de abril, que é uma data realmente que sei que significa também muito para muitas pessoasna Galiza que seguem o meu trabalho e que estão ligadas à cultura portuguesa. E para mim tambémtem muito significado o 25 de abril porque desde pequena, em Angola, quando eu cantava de criança, sempre que havia 25 de abril a minha escolaorganizava espetáculos e muitas vezes eu era chamada para cantar, apresentar algumas canções, pequenos concertos, mesmo que fosse no âmbito escolar. O 25 de abril há muito tempo que para mim está ligado à música. E depois, politicamente significa muito, o significado foi mudando ao longo do tempo, mas há uma aura especial à volta desse dia e acho que para qualquer pessoa que valoriza a liberdade, a democracia, é uma data importante, até por que, como já nos ensinou esta década de dois mil, a liberdade e a democracia não são valores inamovíveis, não estão aqui para sempre, temos que defendê-los todos os dias.

Falemos do teu novo projeto, Dentro da chuva. O álbum marca uma diferença notável em relação ao anterior disco, Insular. Por que Dentro da chuva? Que necessitavas transmitir?

Este é um disco que chega num momento particular da minha vida de regresso a Luanda, a Angola. Voltei a Luanda há cerca de dois anos, quando comecei a escrever este disco. E eu me perguntei, sempre me faço essas perguntasem todos os lados: O que é que eu quero contar? O que é que eu quero dizer? O que é que eu posso acrescentar? O que é que eu sinto? Como é que eu me sinto? Com quem quero trabalhar? Aonde é que eu quero gravar? E essas perguntas todas vão sendo respondidas à medida que as canções vão surgindo e à medida que vão passando as conversas com amigas e pessoas próximas. Rapidamente me dei conta queprecisava de um outro tipo de isolamento, porque o Insular foi um disco que trabalhou esse conceito de ilha, até mesmo fisicamente, fui gravar numa ilha da Escócia vem afastada do meu lugar geográfico neste mundo. Mas neste caso senti uma espécie deimperativo de trabalhar um pouco mais essa solidão, e trabalhar a solidão mesmo literalmente, a solo, com violão, neste formato que sempre me apaixonou muito. Acredito que neste formato se encontram os mínimos necessários para que a canção funcione, para que a poesia tenha destaque, para que eu me sinta fluir enquanto cantora, para me aproximar do público.

Basicamente todas as minhas prioridades, todas as coisas que eu valorizo para estar na música, conseguem-se atingir com um violão, com um disco a solo. Eu sempre quis fazer este disco, vi que era o momento e comprovei que todas as coisas depois foram fazendo sentido à medida que o caminho ia avançando. Neste caso foi realmente uma ótima decisão, estou muito feliz por fazer este disco. Não é uma decisão fácil porquenós vivemos numa época de extremo ruído e extremo excesso de elementos, parece que a nossa satisfação é I can'tget no satisfaction, como diz a música, parece que nunca conseguimos estar satisfeitos com nada, sempre falta algo. Mas quando a gente faz o caminho inverso,de retirar elementospara focarmo-nos no que é mais essencial, surgem muitas respostase uma certa paz, um certo sossego. Foi o que eu senti com este disco: era a palavra, a guitarra, a voz, e pouco mais. Há convidados, importantíssimos, fundamentais para dividir, porque faz mais sentido dividindo, mas a verdade é que os elementos eram os mínimos e isso para mim foi revelador. Uma coisa que sempre falei na produção dos meus discos é que menos é mais, e aconteceu, ademais de uma maneira muito completa, muito serena, muito tranquila e que me deixa muito feliz.

Na tua música, e neste disco em concreto, parece que a literatura, a poesia, a palavra, ganha muita importância. As letras são muito poéticas, mas também políticas e identitárias.

Sim, concordo, a parte de identitária não sei exatamente, pelo menos não creio que seja intencionalporque a letra muitas vezes fala de mim, do eu que existe nessa canção. Mas sim que é político muitas vezes, e é poético. Mas acho que os outros discos também tinham poesia. Quando tu despes a canção, quando retiras essas capas de banda -que eu gosto muito, adoro música de concertos com banda, discos com banda-a palavra transforma-se num instrumento, passa a ser um baixo, uma percussão. A palavra tem essa gravidade, tem esse ritmo, tem essecaráter, como se fosse mais um instrumento da música. Isso é o que faz com que neste disco a poesia sobressaia mais. Realmente para mim faz todo o sentido porque eu tenho uma relação muito íntima e muito estreita com a palavra, sempre a tive e a parte da escrita neste disco foi um processo que me deu muito gozo.

Dentro da chuva foi gravado no Brasil, em Rio de Janeiro, o Insular foi, como já comentaste, gravado na Escócia, e o primeiro disco, Clave Bantú, na Galiza. São para ti importantes estes movimentos?

Muito. Viajar é um privilégio muito grande que alguém tem neste planeta. Viajar é aprender e é um exercício de certa esperança porque a gente muitas vezes acede ao mundo através das notícias, das redes sociais, dos écrãs, das várias pantalhas. E às vezes o que se tem em destaque são as coisas negativas, que são realidade, não quero aqui maquiar isso. Mas quando a gente viaja o contato é diferente entre as pessoas e acabas por te conhecer muito através da outra. Agora estou mais tranquila, cada vez gosto mais da minha casa, mas a verdade é que foram dez anos de muitas viagens, muitas mudanças de casa e isso teve uma influencia muito grande no meu trabalho.

Nos discos acontece um pouco a mesma coisa, eu acho que o contexto afeta muito ao resultado,nós somos muito permeáveis e acima de tudo trata-se de criar um espaço exclusivo para a música, para o disco, para a gravação. Com Insulareu aprendi que isso era um exercício muito bom, o fato poder estarnum lugar só a fazer uma única tarefa que era gravar um álbum. Então eu fiz isso também com este disco e fui para o Rio de Janeiro, uma cidade de importância afetiva e musical para mim. Fico muito contente de que o meu mapa discográfico passasse pelo Brasil porque é um lugar que influencia muito minha música desde o começo. Neste caso, com Dentro da chuva fazia todo o sentido gravar lá e, felizmente, o consegui.

[Podes ler a entrevista íntegra no número 344 do semanario en papel Sermos Galiza, á venda na loxa e nos quiosques]