ESPECIAL SOBRE ANTONIO FRAGUAS

A (in)utilidade da antropologia galega

A (in)utilidade da antropologia galega
Inauguración do Museo do Pobo Galego en 1977. Á esquerda, Filgueira Valverde e Fraguas; na dereita, Xaquín Lourenzo “Xocas” (arquivo MPG-AFF).
Inauguración do Museo do Pobo Galego en 1977. Á esquerda, Filgueira Valverde e Fraguas; na dereita, Xaquín Lourenzo “Xocas” (arquivo MPG-AFF).  

Na história da humanidade muitos saberes considerados inúteis acabaram por ter grande relevância na vida das pessoas. Do ponto de vista académico a antropologia galega é cada vez mais débil nas três universidades públicas galegas e apenas pode ser estudada na “Universidad Nacional de Educación a Distancia” (UNED) nos seus campus da Corunha e Pontevedra principalmente, e sem uma visão de destaque para a Galiza como objeto-problema e terreno de estudo.Paradoxalmente a antropologia galega reinventa-se fora do âmbito universitário através do CSIC-INCIPIT, o Museu do Povo Galego e outras organizações como AGANTRO (Associação Galega de Antropologia), liderada por uma geração jovem, muito dinâmica e com uma visão dominante entre os seus membros de que a antropologia galega tem que ter um papel público e estar ao serviço das necessidades sociais da Galiza.


Sen títuloA antropologia é uma ciência social e um conjunto de saberes inúteis do ponto de vista do utilitarismo e da lógica dominante dos benefícios económicos. Portanto está livre de utilitarismo pragmático, especialmente aquela que é feita fora da universidade e que se apresenta como algo distanciada da ditadura do capitalismo académico espanhol dominante nas universidades espanholas. A antropologia galega é mais inútil ainda porque é feita num país inútil que conta bem pouco no panorama geopolítico internacional, e que muitas vezes se nega a si próprio o direito cultural de coexistir em diversidade. É desde esta perspetiva crítica que podemos entender melhor a antropologia galega, não pelo que fazemos seus praticantes, mas pelo lugar que ocupa no sistema de produção global e pelo seu processo de institucionalização enquanto saber.

A antropologia pode servir como uma espécie de engenharia social ética e aplicada à solução de problemas humanos complexos e multidimensionais

Tal como é muito difícil entender e explicar para que serve a música, a literatura, a poesia e as artes, o mesmo ocorre com a antropologia. A sua inutilidade é também a sua força, isto é, a antropologia é fundamental para a humanidade e a antropologia galega é fundamental para os galegos, pelo seu poder para contribuir com conhecimento para o bem-estar e a felicidade coletiva, e enquanto espelho reflexivo para compreender o logos e construir o eros necessário na vida humana. A antropologia galega tem as suas raízes no século XIX e teve um grande impulso com a Geração “Nos”, tendo esmorecido depois da Guerra Civil Espanhola e só antropólogos resistentes como António Fraguas, Xaquín Lorenzo ou Taboada Chivite é que criaram pontes com a geração da época democrática iniciada a partir de 1975.

As visões da antropologia galega

Existem cinco possíveis visões da antropologia galega relacionadas com as suas origens históricas, as genealogias e inspirações intelectuais: a) uma visão museológica e patrimonialista (ex. Museu Etnológico de Ribadavia, Museu do Povo Galego…); b) uma visão “primitivista”, exoticista e folclorista; c) uma visão sociologista (antropologia social); d) uma visão etnohistórica ou sociohistórica, ligada em parte com a arqueologia; e) uma visão culturalista (antropologia cultural). É esta diversidade na antropologia galega, que enriquece, por um lado, o corpus de saberes antropológicos galaicos e que, por outro, dificulta a compreensão da sua identidade académica, profissional e social, facilitada também pela clássica confusão com a sociologia, ciência social irmã, mas também diferente.

A antropologia galega é BPP ("boa para pensar")

Neste panorama, consideramos que a antropologia galega é BPP (boa para pensar), e pode ser considerada como uma empresa científica e social que tem como missão mapear, etnografar e tomar consciência das semelhanças, diferenças, diversidades e desigualdades sociais e culturais.Mas, mais além de uma antropologia de construção da nação, como foi no passado, a antropologia galega é hoje em dia uma ferramenta imprescindível para pensar a cultura e as identidades galegas no mundo. Uma identidade galega que é cada vez mais pós-nacional, transnacional, multicultural e multi-territorial.

A antropologia galega é hoje em dia uma ferramenta imprescindível para pensar a cultura e as identidades galegas no mundo

O que pensa ou pode pensar a antropologia galega?

a) As complexas identidades territoriais galegas, os velhos e os novos ordenamentos do território galego: a paróquia, o município, a vila, as cidades, a vida de bairro, as áreas e regiões metropolitanas, as províncias, as nações e os estados.

b) As velhas e novas formas de parentesco: desde a família alargada e a nuclear passando pelas famílias LAT (Living Appart Together), LGBT, …

c) As relações de poder, as relações de género, as ruturas familiares, as novas masculinidades e feminidades, as dominações, as exclusões e as marginalidades sociais. 

d) As mobilidades, o despovoamento rural e as novas identidades rurbanas na Galiza.

e) As identidades transnacionais (ex. com Portugal…) e policulturais, as mestiçagens e as interculturalidades.

f) Os patrimónios culturais, o turismo e as suas apropriações sociais, identitárias e mercantis.

g) As políticas públicas em todos os seus âmbitos, os seus desenvolvimentos e avaliações dos seus efeitos, os movimentos sociais e as vozes de quem tem menos poder social.

h) A saúde e a educação, as idades e o envelhecimento da população.

i) O meio ambiente, os conflitos pelos recursos naturais (ex. rios, mar, minas, florestas…)e as perceções sociais deles.

j) A gestão e a mediação cultural, a integração dos imigrantes (novos galegos).

k) As empresas, a produção económica, o consumo, a moda, etc.

A antropologia galega é BPC (“boa para comer”)

A antropologia não só ajuda a compreender a vida como também ajuda a viver em sociedades multiculturais e diversas, isto é, a lidar com as diferenças socioculturais. É portanto um instrumento de autoajuda individual e coletiva. A antropologia galega é também uma ferramenta (in)útil para orientar a mudança social e melhor adaptar-se a ela, avaliar os efeitos das políticas públicas, contribuir para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e ajudar a resolver problemas humanos complexos. Isto é, para além do seu valor como saber conhecer, o valor da antropologia galega está no seu valor como saber fazer implicado, comprometido e aplicado. Notem que não considero a antropologia como uma teologia da liberação, nem uma moralização maniqueísta da vida social, antes penso que pode servir como uma espécie de engenharia social ética e aplicada à solução de problemas humanos complexos e multidimensionais.

[Este artigo forma parte do A FONDO especial sobre Antonio Fraguas que vai ser entregado co semanario en papel Sermos Galiza número 346 e que estará á venda a partir da quinta feira]

Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UID/SOC/04011/2019. Este texto é resultado do projeto de I&D “Património cultural da Euro-região Galiza-Norte de Portugal: Valorização e Inovação. GEOARPAD” Programa operativo EP - INTERREG V A Espanha - Portugal (POCTEP). Convocatória 1, Identificador 769- GEOARPAD (0358_GEOARPAD_1_E), financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) através do Programa de Cooperação INTERREG V-A Espanha-Portugal 2014-2020 (POCTEP)”. Ver: https://cpis.utad.pt/. O texto foi escrito no âmbito da Bolsa de Licença Sabática de Xerardo Pereiro no Departamento de Geografia da Universidade de Santiago de Compostela, baixo a orientação do Prof. Dr. Rubén Lois, financiada pela FCT com o código SFRH/BSAB/143053/2018.