O galego é mais fixe!

O galego é mais fixe!
Os Azeitonas são Marlon, Nena e Salsa.
Os Azeitonas são Marlon, Nena e Salsa.  

Os Azeitonas são Marlon, Nena e Salsa. Um grupo de pop-rock do Porto, formado em 2002. Com cinco álbuns às suas costas, são todo um sucesso no país vizinho. Hoje, 4 de dezembro, estarão em Compostela, no Auditório da Galiza, na gala aRi(t)mar, para recolher o prémio a melhor música portuguesa. Conversamos com Marlon Brandão, vocalista dos Azeitonas, sobre a sua visita à Galiza, música e língua.


Conhecem a Galiza?

Sim, já fomos tocar à Galiza bastantes anos atrás. Tocamos num pequeno festival na Galiza, algo que para nós é muito importante como músicos, também por amizades galegas que partilhamos. Ademais conheço Sanxenxo, A Toxa, O Grove, tudo por aí é uma zona que conheço bem. Gosto muito e gostei muito da Galiza. É muito bom poder voltar, é perfeito, há muitos anos que não visito Santiago de Compostela.

Contem-nos como começaram Os Azeitonas, como se formaram?

Isto tudo começou como uma brincadeira de amigos, como aliás a maior parte das bandas começam. Para divertir-se, tocar entre amigos. Foi isso que aconteceu, uma viagem nas férias com um grupo de amigos, e curiosamente a viagem foi na Espanha. Uma brincadeira. Quando voltamos das férias combinou-se um ensaio no Porto, mas o objetivo era ser uma brincadeira e não passar disso. Aliás, fizemos alguns concertos em bares, com amigos, a típica trajetória de uma banda, gravamos uma demo, e, curiosamente, esta demo chegou às mãos de Rui Veloso, todo um referente na música portuguesa e fundador da editora Maria Records. Naquela altura nós imprimia-nos as letras e éramos confundidos como uma banda humorística. Mais nós éramos ironia. A ironia é algo muito próprio do Porto e Rui Veloso compreendeu essa nossa característica. Ele conhecia bem o Porto. Então, nós não queríamos acreditar gravar um disco com o Rui Veloso, em 2005. Mas aqui estamos, quinze anos depois.

Nós imprimia-nos as letras e éramos confundidos como uma banda humorística

É que as letras das suas músicas caracterizam-se, como comentas, pela presença de muito humor, ironia e brincadeiras com os clichés.

Sim, sim. O cliché é algo que nós quisemos explorar muito. É para nós um processo muito interessante para incluir nas nossas músicas. A ironia faz parte do Porto. Cantar hoje em dia com estas especialidades chama a atenção. Com melodias dos ’80 e ’90, que agora está à volta. Explorar a nossa costela mais irónica e mais própria. Dessas canções que as pessoas não querem dizer que gostam, que não querem admitir que gostam. Nós exploramos essa faceta e foi-se mudando, fazendo mais sério também. Nós também estamos mudando constantemente. Criticar se calhar de uma forma mais leve a realidade atual, ver a realidade das coisas. É possivelmente uma forma mais subliminar e indireta de análise. Por trás de alguma frase indireta leva a perceber outros matizes. Mas a música é do público. Nós respeitamos tudo tipo.

Como está a vitalidade da música portuguesa?

A música em Portugal está ótima. Desde que nós começamos -em 2002- a indústria musical em Portugal e em português foi mudando, e de forma positiva. Pensemos que nos anos ’80 e ’90, aliás com artistas muito conhecidos, era tudo mais ou menos do mesmo género, havia pouca diversidade, muita letra em inglês, mas agora em Portugal tem praticamente todos os sons, desde rock, jazz, pop, rap, reggae até o fado, com todo tipo de artistas, com um público fiel que segue tantas bandas, com massa crítica. É um cenário muito interessante, fértil. E digo que mudou, que mudamos, porque muitos de meus amigos não ouvíamos música portuguesa nos anos ’80 e ’90. Não se ouvia música portuguesa, não se ouvia música em português. É como se o estrangeiro soara melhor. O português era fraco. Agora começou a crescer o número de bandas e os meninos e as meninas começaram a ouvir música em português, de todos os estilos ademais. Então, a equação inverteu-se um pouco. Temos festivais de muito prestígio com programação e bandas portuguesas. Muitas bandas a encher salas grandes em Porto, em Lisboa. Isso é ótimo. Antes era impensável, era algo “alternativo”.

É interessante essa anotação que fazes sobre o uso da língua portuguesa na música, como mudou a situação.

A língua, o fato de poder cantar em português, é importante. Estamos a ver que muitas bandas que cantavam inglês, como uma lógica para se internacionalizar, não funcionaram. A língua é uma ferramenta que devemos cuidar. A língua situa-nos no mundo. Muitas dessas bandas que cantavam em inglês, uma língua que não era a sua, cometiam erros gramaticais. É a falácia de cantar em inglês. Para mim, para a minha música e a banda da que faço parte, é importante poder expressar-me em português porque é a minha língua. Pensemos nos fadistas, a nossa matriz, por todo o mundo se faz fado. Por isso, cantar em português, faz sentido. Temos um país pequeno, a língua é importante. Sem deixar outras línguas de lado, temos músicas em francês, por exemplo, também em galego. Temos música em galego, com letra do amigo Roger de Flor, uma música que fala da ligação que existe entre a Galiza e Portugal, “Hai un lugar no norte”.

É importante poder expressar-me em português porque é a minha língua

Agora, também pensando no prémio aRi(t)mar, como sentes essa ligação entre a Galiza e Portugal?

Temos sotaques que identificam o país do norte para o sul. No fundo, os nortenhos identificam-se muito mais com a Galiza do que no sul do país, do que Algarve ou Lisboa, por exemplo. Acho que deveria haver uma ligação não fronteiriça, apesar da EU, porque as pessoas galegas circulam pela fronteira sem problema. É uma ligação forte, mas acho que as pessoas da Galiza conhecem muito melhor Portugal do que nós, portugueses, conhecemos a Galiza. Nós também temos de fazer esse caminho porque a língua é tão próxima como parece. Galego e português. Para mim, a nível pessoal, o galego escrito é mais complicado do que o oral. Na oralidade é muito próximo, mas na escrita percebo mais diferenças. Acho que, se calhar, deve haver mais informação para as pessoas aprenderem a falar galego porque falando percebemos tudo.

Acho que as pessoas da Galiza conhecem muito melhor Portugal do que nós, portugueses, conhecemos a Galiza

Sobre a questão da escrita, como percebes o Acordo Ortográfico em Portugal?

O Acordo Ortográfico foi, desde o meu ponto de vista, uma decisão terrível para o português, de brasileirização do português europeu. Foi uma coisa que não faz sentido. A língua portuguesa perdeu com este Acordo. Eu digo sempre que, de haver Acordo Ortográfico, eu escrevo em português antigo. O que o Governo português faz é aplicar o Acordo Ortográfico em todas as suas publicações e isso invisibiliza o país. Gosto da língua, gosto da língua do Brasil, mas acho que o Acordo não é uma opção levada a sério. Por exemplo, temos legendas em português do Brasil, o que implica escurecer a língua com vocabulário que não conhecemos os portugueses. Na internet, o brasileiro é muito, muito diferente, usa muito gerúndio, outro vocabulário. O Acordo quer aproximar os dois países, mas perdemos nós uma parte cultural grande, perdeu qualidade a língua, e contra isso eu tenho diferentes artigos publicados em jornais. Lembro na Galiza essa rebeldia em questão de língua, a escrever por cima de “La Toja” ou “Sanjenjo”, o nome que é em galego. Gostava dessa rebeldia, o galego é mais fixe!

O Acordo Ortográfico foi, desde o meu ponto de vista, uma decisão terrível para o português

O que podemos encontrar no seu último álbum, “Banda Sonora” (2018)?

“Banda Sonora” foi o nosso último álbum depois de o principal compositor de banda, Miguel Araújo, abandonar o grupo. Quando ele saiu pensamos, que vamos fazer? Mas continuamos e agora os principais compositores somos nós. Foi um desafio. Assumir cargo de compositores e ver se éramos capazes de o fazer. Algumas músicas tinham saído antes do álbum, lançamos coisas soltas. Depois essas músicas juntamo-las. Foi interessante ver que fomos capazes de compor e fazer músicas novas. O álbum é bastante eclético, músicas pop, acústicas... Tentamos criar uma história geral e que cada música contasse um episódio dessa história. São três músicas e vamos fazer três vídeos. Em Compostela, o dia 4 de dezembro, tocamos “O momento” em formato quarteto.

E, além de Compostela, quais serão as próximas atuações dos Azeitonas?

Estamos a programar nova turnê para o próximo ano. Com a nossa banda, toda, completa. A passagem do ano será em Coimbra.