MARCOS BAGNO, LINGÜISTA

“Realmente português é galego com outro nome”

“Realmente português é galego com outro nome”
[Imaxe: Belén Bouzas] Marcos Bagno
[Imaxe: Belén Bouzas] Marcos Bagno  

Conversamos com Marcos Bagno (Cataguases, Brasil, 1961), escritor, tradutor, pesquisador, professor do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB) e um dos mais respeitados linguistas brasileiros. O autor conta com diversos prêmios e mais de 30 títulos publicados, entre literatura e obras técnico-didáticas. Em sua obra ele afunda no preconceito linguístico, sendo uma autoridade reconhecida no assunto, e trata a discriminação ligüística e a violência da linguagem como instrumento de opressão social. Eis un extracto da entrevista publicada no Sermos Galiza 267.


-Qual é para você o papel do Brasil dentro da lusofonia?

-Na verdade, acho que lusofonia é um termo que no Brasil não tem muita repercussão, é uma expressão que está mais ligada e mais presente na retórica portuguesa. Justamente porque eu acredito que português europeu e português brasileiro já são duas línguas distintas, considero que as tentativas de fazer políticas linguísticas unificadas estão fadadas ao fracasso. Por exemplo, no ensino do português para estrangeiros, qual das duas línguas vai ser ensinada? Se uma pessoa aprende o português brasileiro, ela vai aprender a falar de uma maneira que é muito distinta do português europeu. A maioria dos brasileiros tem dificuldades para compreender os portugueses. Por exemplo, no Brasil os filmes portugueses já vêm com subtítulos, com legendas, isso demonstra a dificuldade de entendimento. Mas os portugueses nos entendem melhor porque a nossa pronúncia é mais clara principalmente porque nós temos as nossas vogais bem pronunciadas, ao contrário do português europeu que passou por uma evolução em que as vogais átonas desapareceram... Então, eu acho que nós podemos ter sim, galego, português europeu, português brasileiro e as variedades africanas do português incluídas num grande grupo, mas sem essa pretensão de fazer uma política linguística única. Essa é a minha posição.

-Tem-se falado de trocar o nome Lusofonia por Galeguia...

6-É uma ideia bonita, literariamente bonita. De fato, quando eu entrei em contato com o galego, quando eu o comecei a estudar e fui aprendendo mais da sua história, eu percebi que realmente português é galego com outro nome. Historicamente, a língua que surgiu e que nasceu aqui no noroeste da península foi o galego e depois por questões políticas, de novo, formou-se o reino de Portugal e lá pelo século XV a língua começou a ser chamada de português. Essa é a grande história.

Eu escrevi uma gramática do português brasileiro e lá conto a história da língua a partir do galego. Começo este livro com um capítulo provocador que se chama “Do galego ao brasileiro”. Eu proponho que existe um grupo de línguas chamado portugalego (incluo galego, português brasileiro, português europeu, as variedades africanas e os crioulos de base portuguesa) porque considero que passados quinhentos anos da expansão marítima de Portugal, esse tempo foi mais que suficiente para o surgimento de línguas novas. Quando nós estudamos a história, por exemplo, do latim na Europa, comprovamos que com a queda do Império Romano quinhentos anos depois, setecentos anos depois, já existem novas variedades de língua. Ainda não têm nome essas variedades que são registadas por escrito (ainda de maneira rudimentar), mas já são variedades faladas novas. Portanto, por que é que nós não podemos também, assim como a linguística histórica analisa a evolução do latim se transformando em outras línguas, por que é que nós não podemos pensar que o português ao se expandir pelo mundo criou línguas novas? É desde essa óptica que eu faço esse percurso histórico: primeiro do galego ao português europeu, depois o português europeu se difunde pelo mundo e aí se criam línguas novas. É uma proposta bem polémica, mas sem polémica a gente não propõe novas formas de pensar.

[A íntegra desta entrevista, unha dupla páxina, aparece no Sermos267, disponíbel na nosa loxa e nos pontos de venda habituais]