ANÁLISE

As lições para a esquerda se recuperar no Brasil após a vitória da extrema-direita

As lições para a esquerda se recuperar no Brasil após a vitória da extrema-direita
Haddad, na chamada Caminhada pola Paz decorrida em São Paulo na véspera do segundo turno das eleições
Haddad, na chamada Caminhada pola Paz decorrida em São Paulo na véspera do segundo turno das eleições  

Pese às denúncias de crime eleitoral por uso de caixa B no escândalo do impulsionamento de mensagens por whatsapp, a extrema-direita elegeu um presidente da República no Brasil pela primeira vez de forma democrática. As denúncias precisam ser investigadas e, se comprovadas, deve haver punição aos responsáveis. Mas o que a centro-esquerda brasileira precisa fazer agora é refletir sobre o sucesso da extrema-direita, para compreender o que aconteceu no Brasil e se renovar na oposição visando as eleições municipais de 2020 e a nacional de 2022.


Desconexão com as bases

O rapper Mano Brown, do grupo Racionais MCs, resumiu bem o problema das esquerdas com suas bases em um comício [mitin] a favor da candidatura de Fernando Haddad (PT): os partidos de esquerda abandonaram suas bases, deixarom a periferia das grandes cidades de lado em uma tentativa fracassada de abraçar as classes mais abastadas. A crise que deixou o Brasil com mais de 12 milhões de desempregados não começou após a queda de Dilma Rousseff (PT) da presidência, a crise começou no governo dela.

A esquerda abandonou suas bases porque achou que jamais perderia ela. O PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) e os demais partidos da centro-direita sempre tiveram dificuldades em dialogar com a população mais pobre. Mas a extrema-direita, com seu caráter populista e evangélico, rompeu a barreira e fez com que o discurso conservador invadisse a periferia. Acusá-los de complacência com o fascismo não é o caminho para recuperá-los. É preciso entender o que a favela tem a dizer nos dias de hoje.

Lulismo e pós-lulismo

PT, PDT, PSB, PCdoB, PSOL, e Rede são os partidos brasileiros de centro-esquerda e esquerda com representação na Câmara dos Deputados. Apesar da diversidade, as esquerdas no Brasil continuam dependentes do chamado lulismo. Somente o PT conseguiu força política o suficiente para disputar as eleições e as tentativas de PSB (2014) e PDT (2018) foram sufocadas pelo próprio PT, que viu os aliados como inimigos.

Enquanto impedia PSB e PDT de lançarem candidaturas competitivas, o PT pouco renovou seus quadros. Apostou única e exclusivamente na figura de Lula da Silva, atualmente a cumprir pena por corrupção. Foi o ódio a Lula que impulsionou a extrema-direita a passar por cima da centro-direita no primeiro turno e da esquerda no segundo, vencendo a disputa eleitoral.

Enquanto em Portugal António Costa (PS) vai bem sem a figura de José Sócrates e na Espanha Pedro Sánchez (PSOE) assumiu o governo renovando a imagem do partido, o PT no Brasil ainda parece dependente de Lula da Silva. As novas lideranças que o partido criou, especialmente na região Nordeste, ainda estão longe do comando interno. O PT e as esquerdas devem sempre valorizar o legado de Lula, mas precisam ir além disso para serem fortes de novo. Por isso, a necessidade de um pós-lulismo.

Renovação

Para fechar, as esquerdas precisam urgentemente renovar seus quadros. A derrota de figuras tradicionais da política para deputado e senador apontou o caminho escolhido pelo eleitorado: quer nomes novos. A maioria dos 52 deputados eleitos pelo PSL de Jair Bolsonaro irão para o Congresso brasileiro pela primeira vez. Bolsonaro é deputado há 27 anos, mas é a primeira vez que tentou a presidência. Repetir nomes levou à queda os tradicionais PSDB e MDB. O PT e as esquerdas precisam de caras novas.



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