TORRE DE TREZENZÓNIO

Di-me que falas e... direi-che quem es?

Di-me que falas e... direi-che quem es?
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Se perguntassemos alguém pola língua dos nossos monarcas, dos monarcas históricos, não os de hoje, claro... Se perguntassemos, digo..., acho que muitos duvidariam quê responder. Como a pergunta nunca ou quase nunca foi formulada implicaria que a resposta está sujeita a certa dúvida ou incerteça. 


Se perguntassemos alguém pola língua dos nossos monarcas, dos monarcas históricos, não os de hoje, claro... Se perguntassemos, digo..., acho que muitos duvidariam quê responder. 

Como a pergunta nunca ou quase nunca foi formulada implicaria que a resposta está sujeita a certa dúvida ou incerteça. De não ser assim dariamos por sobre-entendido – de facto é quase seguro que o damos- que o castelhano é o idioma usado... não é?

Bom, pode que Afonso X, que escreveu cantigas no nosso idioma...o falasse mas... 

Ah! Também Afonso VII, nado em Caldas (de reis, ainda que não há outro rei de Caldas) que de menino fora educado por Fernão Peres de Traba na Galiza... Também deveria de falar.

Desde logo de quem jamais esperariamos que falasse galego –eu quando menos–seria dum monarca tão castelhano (em realidade leonês) como Afonso VI. Esse Afonso que a tradição castelhana enfronta com o Cid a conta do juramento de não ter tomado parte na morte de Sancho, o seu irmão, e rei de Castela (o primeiro em exclussiva). O mesmo que ganhou Toledo, fingindo submetê-la por fome (1086), mediante pacto com o amir al-Qadir a quem concede, a troca, Valência. O rei que apressou e manteve nas cadeias (literalmente) o seu outro irmão, Garcia, rei da Galiza por breve tempo, preso por mais de 15 anos. O monarca que introduciu no reino Ocidental (que adoitam chamar Leão) a orde de Cluny. Em fim, Afonso VI quem destituiu o bispo de Compostela Diego Pais (Didacus Pelagis) por motivos escuros e o apresou e obrigou a se exiliar em Aragão. Um rei com muitas faces, as mais delas ignominiosas.

Após tantos esforços, enganos e violências, chegou á idade adulta sem herdeiro varão. Foi home de seis mulheres (umas vezes legítimo outras sem legitimar) sem conseguir apenas descendência. A mais dela feminina (Urraca legítima, Teresa e Elvira, bastardas; Sancha e outra Elvira) e um único filho Sancho.

De acreditarmos nas biografias do monarca, teria nascido por volta de 1040 ou 1045. No 1090 estaria nos 50-45 anos e não tinha outro herdeiro legítimo que Urraca e o seu conde Raimundo de Borgonha. No ano seguinte chegou a Toledo, procedente de Al-Andalus, a viúva do príncipe abbasi Al-Mamum, que governava Córdova em nome do seu pai, Al-Mu’Tamid de Sevilha. Zaida não vinha de mãos vazias, o seu “dote” incluía algumas vilas e castelos. Converteu-se na companheira do rei e da sua união nascerom duas filhas (Elvira e Sancha)e, um par de anos despois, o menino: Sancho. Zaida converteu-se ao cristianismo e adotou o nome de Isabel, assim puido desposar-se legalmente, ainda que nem todos os cronistas concordamquando aconteceu este feito.

Bom, pode que Afonso X, que escreveu cantigas no nosso idioma...o falasse mas... 

O rapaz converteu-se no herdeiro do trono de Afonso. Tal vez não de todos os territórios. Galiza fora cedida a Raimundo de Borgonha e á sua descendencia. Portugal começava por aquel tempo um caminho em solitário, a se segregar ainda da Galiza, baixo a vara de Henrique de Borgonha. No ano 1108 com menos de 15 anos, Sancho estava á cabeça do reino de Toledo encomendado polo seu pai e partiu para deter o ataque das tropas almorábides sobre Uclés (na provincia atual de Cuenca). O encontro foi uma batalha em campo aberto que se saldou com uma desfeita dos cristãos. O proprio menino morreu, bem no mesmo combate, bem na fugida, defendido polo seu aio o conde Garcia Ordonhes. Morreram também outros seis condes e um número alto de cavaleiros.

A impresão da nova no monarca,tirando informação doutras fontes, conta-no-laFrei Prudencio de Sandoval (1553-1620), bispo de Tui (1608-1612) e historiador, na sua obra Hª de los reyes de Castilla y León publicada em 1612.Di assim:

«Los que escaparon de esta rota fuéron á llevar las tristes nuevas al Rey Don Alonso, que estaba en Toledo. Fuéle dolorosa y amarga, porque no tenia otro hijo, lloróle como un David á Absalon; y en la lengua que se usabadixo con dolor y lágrimas, que quebraba el corazón. Ay meufillo(repitiéndolo muchas veces), ay meufillo, alegría de mi corazón &lume dos meosollos, solaz de miñavellez; ay meuespello, en que yo me soya ver & con que tomaba moy gran pracer. Ay meu heredero mayor; caballeros hu me lo lexastes; dadme meufillo Condes. Estas palabras dicen que decía el Rey, y otras tales diria  ?que la causa del dolor era grande; mirábanle los suyos confusos y vergonzosos y ninguno le hablaba. Y como repetia: dadme meu fillo Condes

Eis um facto surpreendente ou tal vez não tanto. Não cabe a menor dúvida sobre o idioma que o cronista põe na boca do monarca para o seu lamento pola morte do filho. 

Menos obvio é o motivo por quê um cronista castelhano (nado em Valhadolid ou Tordesilhas), da mais alta nobreza castelhana do tempo (meio-irmão do duque de Lerma) e duma época tão pouco amável para o nosso território e cultura se decidira em reproduzir o lamento real na lingua original (com a ortografia adaptada para a escrita do castelhano, evidentemente). Ainda é mais chocante ver o seu comentario sobre o idioma: ...en la lengua que se usaba...assumindo sem a menor dúvida ser esta língua habitual... Habitual de quem? Em que contextos?

Obvio que os galegos (e portugueses ainda membros dum reino da Galiza sem retalhar) falavam a sua lingua. Tal vez o leonês de partes de Astúrias e Leão era muito mais similar ao nosso idioma antes de se castelhanizar tanto... mas que um monarca, castelhano entre os castelhanos, lamente a morte do seu filho na lingua do noroeste significa que era a lingua habitual do monarca e, muito provávelmente, da familia real.

O galego não era um idioma reduzido ao seu território originário, senão que goçava dum prestígio suficiente como para ser usado polos monarcas

Mesmo, se reparamos na cena, podemos apreciar que os mesmos nobres, de origem castelhana e servindo em Toledo, têm uma clara intelecção da queixa do seu rei. O galego não era um idioma reduzido ao seu território originário, senão que goçava dum prestígio suficiente como para ser usado polos monarcas ou, invertindo o argumento, era usado pola família real e isso o dotava dum prestígio considerável.

E com todo isto a dar voltas na mente surge uma pergunta... tal vez mais de uma. Ei-la: Se é galego quem fala galego, era galego o monarca das tres religiões? Creio que a perspectiva da construção política da Península necessita duma revisão.