Os galegos são nossos irmãos

Os galegos são nossos irmãos

Assim consta na capa do número 39 da publicação O Notícias ilustrado, de 10 de março de 1929.

Celebrava na altura Portugal, isto é Lisboa, a Semana Galaica, uma iniciativa do Diario de Lisboa. O Notícias Ilustrado dá com este numero a sua colaboração “nessa homenagem à colónia galaica que em Portugal tem tão numerosa representação … Hoje, a colónia galaica é das mais importantes do nosso paiz. Nao só trabalhadores humildes e infatigáveis, trocaram os campos verdes e paisagens fartas pela labuta nos nossos centros; homens de valor, da indústria e da sciencia team em Portugal construido os seus lares. É das mais laboriosas colónias —a da Galiza irmã — esta que tem Portugal no coração —irmãos; e na alma amigos sinceros e complementos espirituaes— temos entre nós poetas e artistas galegos que nos acarinham a alma com as suas obras que tanto se casam com o nosso sentimento e com a nossa ternura de meridionais”.

Artistas e poetas filhos de galegos

A pagina oito começa com este título e mostra, de esquerda para direita, as fotografias do pintor “Vellozo Salgado num canto do seu elegante lar, acompanhado de sua esposa”. Veloso Salgado, nascido em Santa Maria de Melóm (Ourense) em 2 de abril de 1864 e naturalizado português em 1887, foi filho dos agricultores José Perez e Dolores Veloso Rodrigues Salgado e com dez anos de idade foi acolhido em Lisboa na casa do seu tio materno, Miguel Veloso Rodrigues, que era mestre da Litografia Lemos, sita na antiga Rua de S. Francisco (atual Rua Ivens), onde José Maria começou a trabalhar como aprendiz de litógrafo.

À direita, foto do poeta Alfredo Pedro Guisado (1891-1975). Filho dos galegos, naturais da aldeia de Pías, Benita Abril e António Venâncio Guisado (rico empresário em Lisboa segundo o periódico El Tea). Alfredo Pedro Guisado manteve um intenso contacto com a “terra onde nasceram os meus pais” e nos seus períodos de férias na Galiza, estabeleceu diálogos com políticos agraristas e intelectuais galegos. Nos seus escritos utilizou também o pseudónimo de Pedro de Menezes e foi fundamental a sua participação na fundação da revista Orpheu.

Continua a reportagem com outro pintor, Luis Varela Aldemira (1895-1975). Foi aluno de Bordalo Pinheiro e conta com obra nos principais museus de Portugal.

Screen Shot 2019-01-18 at 11.24.25O pianista e professor do Conservatório Nacional de Música Varela Cid, junto com a “diseuse” Helena Cid, completam esta página dedicada a artistas e poetas originários da Galiza.

Mas o epígrafe verdadeiramente importante é o seguinte, o que mostra claramente quem é quem na colónia. Leva por título AS GRANDES FIGURAS DA COLÓNIA e aparecem os rostos de vinte e seis pessoas, vinte e cinco homens e uma mulher. Ricos sócios de casas bancárias, directivos das casas galegas, especialmente da “Juventud de Galicia” , jornalistas como Alejo Carrera.

Fecha a listagem uma fotografia de João Franco “o conhecido e simpático creado de A Brasileira” café de bem conhecida história onde o galego João Franco trabalhou de empregado e onde, para além das tardes de tertúlia, teve origem a palavra bica para designar uma chávena de café.

O número contém ainda várias imagens da Galiza e um mosaico poético em que aparecem textos de Martinez Salazar, Marqués de Figueiroa, Rosalía, Curros, Cabanillas e Alfredo Pedro Guisado.

A pena de Alejo Carrera, “galego que em Portugal marca como valor”, e a presença de Guisado, “filho de galego e hoje um grande valor português, poeta, industrial e político”, são introduzidas para simbolizar “o abraço fraterno que une os dois povos” nesta publicação com que O Notícias ilustrado saúda “todos os galegos que habitam a nossa terra, todos os nossos irmãos de raça”

Isto foi em dez de março de 1929. Lá vão noventa anos. A presença galega em Lisboa quase não é percetível, ou mesmo não existe. Possivelmente também estejam esquecidas aquelas duas qualidades que se nos atribuíam. “Duas grandes qualidades da raça fizeram do galego a pessoa indispensável à vida de Lisboa: a discreção e a fidelidade”, ideias estas recolhidas na locuções que dizem que “um amor sem galego era um amor sem pés” em alusão à participação em assuntos amorosos que precisavam total discreção e a que diz que a um galego “se lhe podia confiar ouro em pó”, confirmada esta última pelas raríssimas vezes em que o registo criminal menciona um nome galego por furto.



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