TORRE DE TREZENZONIO

Modos de tergiversar o passado

Modos de tergiversar o passado
PORTADA
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Nova entrega da série sobre a história da Galiza que publicamos sob o título genérico de "Torre de Trezenzonio".


«Desde que a preocupação de memorizar 

de forma escrita actos e acontecimentos 

ganhou algum valor nas preocupações humanas,

 toda a realidade tem vindo a ser distorcida

 pela própria natureza da tarefa empreendida»

Profa. Mª João Branco, U.N. de Lisboa

É evidente, e por isso esquece-se com frequência, que o discurso sobre o passado (isso que chamamos história) é uma elaboração actual dos feitos que situamos nesse tempo anterior.

A memória humana tende a retocar as lembranças vividas. O passado é um reino de fantasia tecido sobre alguns fios de realidade ou, dito ao cínico, sobre alguns fios do que queremos que fora o passado. O mesmo facto pode ter muitas versões dependendo da sensibilidade, da idade, da responsabilidade no facto, dos modos de agir, das muitas formas de participar nele... E isto acontece ao falarmos de feitos vividos.

Para falarmos de feitos não vividos apenas contamos com os testemunhos das testemunhas que sentiram a obriga, a necessidade ou o interesse por deixar registo deles. Neles falam os autores. Cada um com a sua perspectiva, cada um com a sua intenção e, sobre todo, cada um com o seu particular interesse.

Não digo que os humanos enganemos por sistema. Ainda que muitos o fazem continuamente e sem vergonha. Não é isso. Mesmo os melhor intencionados, os mais cândidos «falam da feira como lhes foi nela» e, dalgum geito, enganam. Enganamos porque a memória é fraca. Pré-enchemos os vazios com lembranças feitas de novas experiências ou de focagens alheias que adoptamos.

Com frequencia aceitamos a versão dos factos que impõem os vencedores. Julgamos os feitos polos seus ressultados. Essa é chave de muitos enganos

Eis um dos vícios nacionais...,dosgalegos:Julgamos o nosso passado a partir do presente. Este nosso presente de colonização, aculturação e submissão... 

Pola contraos povos poderosos, orgulhosos de si, tendem a ver o seu passado, mesmo que fora um via-crúcis insuportável, como uma preparação para a glória que os aguardava. Mesmo modificam o relato dos factos do passado, mesmo os re-inventam, a meio dos seus intelectuais, para convertê-los em concordes com o presente –algem lembre a 1984 de Orwell e o seu “ministerio da verdade”?-. 

Estendim-me de mais. Eu queria falar de como se transforma o passado

Tratarei (em dous artigos)dous casos significativos da nossa Idade Média. Um mais conhecido do que o outro. Apenas dous por não aborrecer com tanta manipulação, ainda que há para encher bibliotecas.

Um, o presente, sobre a elaboração da personagem do rei Garcia. O segundo, sobre odenominado “Pacto sucessório” entre Henrique e Raimundo e as suas ecuridades, numa futura segunda entrega.

A elaboração da personagem do malfadado rei Garcia (1)

1O caso deste monarca épara mim o paradigma da justificação a posteriori do que, a todas luzes, é uma traição. 

Antecedentes familiares

Esta é a história de cinco irmãos (não todos) mal avindos: Urraca, Sancho, Afonso, Elvira e Garcia.

Fernando I e Sancha, reis dos cristãos decidem, numa data indeterminada, anterior a 1064, repartir os territórios baixo a sua autoridade entre os seus filhos. Sancho, o homem mais velho, receve Castilha,território original do seu pai, convertido em reino. O reino ocidental fica dividido em dous lotes. Para Afonso, Leão e Astúrias. Para Garcia, Galiza, ampliada com a conquista de Coimbra em 1064. Urraca e Elvira recevem, respectivamente, Samora e Toro o ademais do “infantado”, repartido entre elas. Alguns cronistas incluem nos lotes as párias das taifas. As de Badajoz e Sevilha para Galiza, as de Toledo para Leão e as de Zaragoza para Castilha. De considerarmos território, número de bispados e ingressos por párias, Garcia é o melhorado.

A ideologia detrás da tergiversação

Essa divisão decidida polo casal real foi, aos olhos dos espanhois modernos e contemporáneos, um empeço, felizmente superado por Afonso, para a consecução do destino manifesto de Castela de se converter em Espanha. Eis o porquê de redesenhar a realidade: justificar as acções de Afonso VI em aras da construção do projecto político castelhano, primeiro, e espanhol, despois. A elaboração do carácter de Garcia é uma sequela deste projecto político.

A divisão ainda não visava uma diferença clara dos tres reinos, apenas uma distribuição dos territórios do reino para tres administradores com título de “rei”. Prova disto, acho, é que Garcia, na documentação conservada do seu reinado, nunca se intitula rei de Galiza. Similares repartos foram ensaiadas em tempos anteriores, nomeadamente no século IX.

A luita entre os irmãos

Os herdeiros iniciaram o governo nos respectivos territórios á morte do seu pai em 1065 e aceitaram o reparto até á morte de Sancha (a detentora da soberania) em 1067. Nessa altura começam as dissensões entre os irmãos. O relato dos feitos, longe de estar bem definido, vai-se modificando á medida que avança o tempo e mudam os interesses. As tradições escritas e orais, de corte literário, misturam-se enovelando uma realidade que é difícil de conhecer em pormenor. Os protagonistas e alguns secundários maquiam-se convenientemente para converteracções de dudosa justificação em nobres.

Sancho ataca os seus irmãos e exilia-os em senhas taifas (Garcia em Sevilha, Afonso em Toledo), tomando os seus territórios. Sitia Samora, propriedade de Urraca, e é assassinado atraição. Afonso volta e toma o poder em Leão. Garcia volta também. Desde aqui existem duas versões. a) Retoma o seu reino e depois é apresado por Afonso ou b) não retoma o reino e é apresado por Afonso. Em qualquer caso é apresado (segundo Pelayo de Oviedo com engano) e encerrado no Castelo de Luna (hoje desaparecido), nas montanhas ao norte de Leão. Afonso fica com os tres territórios mentres Garcia apodrece na cadeia e Sancho do seu sarcófago.

O diverso e mutável relato dos feitos

Nas fontes mais próximas aos feitos (Chronicon compostelanum, Pelayo de Oviedo, “Crónica de Silos” (2) ) todas do século XII e posteriores a ter caído em desgraça, Garcia é representadocomo um elemento passivo nas desputas com Sancho e Afonso. As acções destes não se justificam em nenhuma acção do menor dos irmãos. Tampouco se referem riscos de carácter negativos que pudessem justificar alguma agressão

A pesar de tudo a Crónica Silense procura desculpar a acção de Afonso (a quem pretende historiar) com a promesa de Garcia sucedê-lo no trono (3). Disto deduze-se que não tinha nenhuma qualidade que o empecesse para o exercício do poder, como se dirá posteriormente.

Afonso VI. Na imagem diz: ADEFONSUS REX PATRIS PATRIAEEm fontes posteriores o seu retrato muda. Na Crónica Najerense (4) e no Liber Regum (séc. XIII) podem apreciar-se as influências dos relatos orais (juglarescos diz Portela) e, sobre todo, das mudanças ideológicas e dos interesses geo-políticos. A complexidade das dúas prisões de Garcia (a primeira por Sancho, a segunda por Afonso), separadas polo exilio em Sevilha,nestas obras convertem-se numa única prisão atribuída a Sancho. Com engano, simula uma peregrinação a Compostela para entrar no território galaico (5) e procura Garcia em Santarém para conduzi-lo a prisão onde morre 24 anos depois (6). Descarga-se assim de toda culpa a Afonso, pois nem o apresou nem se diz que o mantivo em prisão. Ao monarca que ostentou o título de “imperador”, reformador da igreja, introdutor de Cluny e foi considerado de “boa memória” não lhe acai uma acção tão abjecta, ou duas, melhor dito: 1) ter em prisão 20 anos um irmão por causa de 2) tê-lo desposuído do seu reino. Que o asunto fique indefinido é a primeira fase da maquiagem.

Os autores que seguem esta versão dos feitos divergerám, necessariamente, das versões mais antigas. E a contradição, de perceber-se, é muito difícil de ressolver.

Desacreditar a vítima

Ainda se procederá a maiores modificações. Como a história é conhecida e não cabe negá-la,cumpre justificar esses actos. Inicia-se então o caminho da descalificação da vítima. Garcia retrata-se com riscospara justificar, sequer levemente, a intervenção dos irmãos e o ressultado final de Afonso como rei único.

Lucas de Tui (7) diferença ambas as prisões mas caracteriza, por primeira vez, o monarca como simplicisingenii. A interpretação literal deste sintagma não é o que um entende a primeira leitura, pois tinha o sentido de nobre, sem dobrez. Portela duvida que estas duas palavras, incluídas como incisso, fizessem parte da redacção original, mas que chegaram aí durante alguma cópia do manuscrito. Em todo caso é um primeiro passo num caminho que até hoje mantém a péssima fama do paciente.

Jiménez de Rada (8) en De rebus Hispaniae narra o conflito, real, com uma parte da nobreza do reino,que derivou na batalha de Pedroso (1070), como uma sublevação contra os excessos dum servidor de Garcia,de nome Vérnula (em latim“criado-escravo nacido na casa”). Teria tal poder sobre o (agora já) desidioso e furibundo monarca que qualquer comentário sobre um nobre provocava a sua queda em desgraça. Os nobres para vingar essa injustiça matam-o na presença do mesmo rei.Garcia impõe um regime de terror após a morte do seu valido, causa do abandonodos seus nobres e da intervençãodos seus irmãos. 

Esta creativa imagem, difundida polo éxito desta obra, acabará por triunfar na historiografia posterior. Assim a Primera Crónica General, de Afonso XII, segue fiel o fio do relato de Rada, amplificado com novas incorporações (duas batalhas entre Sancho e Garcia, a de Santarém em dous tempos, com vitoria final a cargo do Cid). A castelhanização evidência a intenção de dar antecedentes “históricos” à preeminencia política de Castilha na altura. Estamos nos fins do século XIII e os tempos de glória para a Galiza há tempo passaram.

Obras posteriores introduzem diversas versões no tocante à cerna da história mastodas incluem episodios que escurecem os feitos com narrações divergentes. No “Livro de Linhagens” fai-se fincapé nas boas relações entre Garcia e os seus nobres (agora portugueses exclussivamente) em oposição aos castelhanos. Nos meados do século XIV Portugal procura uma afirmação da sua identidade fronte ao poder castelhano (lembre-se a batalha de Aljubarrota de 1385). Esta é uma das poucas visões possitivas mas converte Garcia num rei proto-português, ignorando a unidade da Galéciado seu tempo.

E nos textos do seu reino, que se diz?

Até aqui, com excepção do Chronicon Compostelanum, os autores eram alheios ao território deste monarca (incluoo actual Portugal). Nos textos galegos a tónica geral é o silêncio. A Historia Compostellana, centrada em Gelmires, resume os feitos de periodos anteriores mas oculta totalmente qualquer acto de Garcia. O siléncio é resultado de se escrever durante o reinado do usurpador e da sua filha, a rainha Urraca. Também dum interesse político. Não convém lembrar feitos escuros que indisponhamao monarca culpável, quer seus quer doutros.

Como tributária desta obra, a Crónica de Santa Maria de Iria, de Rui Vasques, cônego de Compostela no séc. XV, também ignora a persoa do malfadado rei Garcia. 

A imagem das versões galegas de obras de Afonso X (Cronica Geral e Historia Geral) são fieis ao modelo no que bebem e representam o noso protagonista como aquel.

Outro cariz têm os siléncios da documentação contemporánea feita em Coimbra, pois permite supor uma tensão com o “conde” Sisnando Davidiz (instalado polo pai do monarca, Fernando I) e uma oposição deste e da sua corte de nobres e eclesiásticos. Atrevo-me a dizer que Sisnando encarnava a quinta coluna a favor de Afonso,mas este é outro asunto.

Os juiços dos historiadores

A percepção de Garcia e a sua caracterização nos historiógrafos e historiadores dos séculos XIX e XX não é menos parcial e degradante. Masnem sempre polos mesmos critérios. Vejamos. 

Vicettodiz del: como soberano... su negra memoria será siempre repugnante para todo hijo de Galicia (Hist. De Galicia 1871, T. IV, pag331). Ainda que com o homem se amostra algo mais compreensivo. Murguia, que não escreveu da época, opina que Garcia não teve energia e se deixou levar pola indolência, e dominar polo seu valido a causa da imperícia, conseguindo assim perder a melhor ocasião de constituir uma monarquia galega.

Para não me extender de mais citarei um par de opiniões mais. Casimiro Torres considera o rei “infantilizado”e cheio de “terror y desconfianza” a partir do assassinato do bispo de Íria, Gudesteo por um nobre, seu parente.

Victoria Armesto no seu livro Galicia Feudal explicita uma opinião tão ofensiva como injusta: ...entre los tres hijos del primer rey de Castilla (sic) había dos listos y uno parvo. A Galicia le correspondió el parvo.

Mesmo Reilly,seducido polo retrato escuro do monarca na historiografia medieval tardia, interpreta um documento (dos seis conservados) de doação com usufruto vital do doante como uma expropriação forçada polo rei. Ainda que no documento os doadores dizem fazê-la grato animo, prona mente et expontanea uoluntate... Numa expropriação, as expressões seriam outras.

Uma análise exaustiva daria ainda mais pérolas negras sobre o carácter de Garcia. Mas já me estendi de mais. Em conclusão a pegada da historiografia pró-castelhana, desde a Idade Média, tem desvirtuado a figura do rei Garcia até convertê-lo, mesmo na mente dos encargados de procurar a verdade no passado (procuram-a?), num ser merecedor da sua desgraça e um paradigma do culpável do seu destino.Sempre hai poetas e cantores (9) para dar uma visão trágica e positivadora da sua desgraça, quando os anti-heróis estão de moda.

[1] Nesta análise parto do livro Garcia II de Galicia (Burgos 2001) de Ermelindo Portela.

[2] O Chronicon Compostellanum é uma história escrita após a morte da rainha Urraca (1126) na Galiza. A História de Pelayo de Oviedo (bispo de 1101 a 1130) recopila outros anteriores e amplia até a época contemporánea do autor. A Historia ou Crónica Silense é uma biografia de Afonso VI inacabada elaborada no 1º terço do século XII.

[3]Considerauat namque Adefonsus hunc interim salua pace post se regnaturum

[4] É uma historia universal, desde a Génese até os fins do século XII, data em que foi elaborada em Nájera.

[5] Crón. Najerense: Sed post mortem matris Santie regine... statim armatis trecentis electis militibus de castellanis ad limina Santi Iacobi causa orationis se simulat proficisci ...

[6] Crón. Najerense: ... Sed cum Garsias illi apud Sanctum Yreneum doli nescius et obsequiosus occurret,...

[7]Cônego da Catedral de Leão e bispo de Tui de 1239 a 1249 e autor de Chronicon Mundi a partir doutras obras.

[8] Arcebispo de Toledo (1208-1247), defensor da continuidade visigótica na monarquia castelhana.

[9]Victor Hugo escreveu “le petit roi de la Galice” e Miro Casavelha dedicada a Garcia uma composição, por exemplo.



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