Como já vimos falando, em diversos artigos, estudos e outros textos, a crise sistémica final de 2007-2008, tem sido o grande detonante da instabilidade económica global. Segundo Gobachov tempos de guerra se assomam. Esta afirmação não dever resultar estranha, pois desde início desta crise todas as potencias globais, regionais e locais se estão a preparar para um possível confronto. A instabilidade nas áreas de disputa pela própria hegemonia regional, global e local, tem aumentado muito, sobre todo nos epicentros onde vários poderes roçam, chocam como placas tectónicas na procura dum melhor assento para a defensa de seus interesses... Em tempos escuros de guerra física, psicológica ou social, a desunião e o medo vencem sempre.

A elite global financeira, que comandava o mundo (quase sem oposição) dentro das dinâmicas anárquicas de choque, aturdimento e submetimento, parecia desde fins dos anos 90 do século passado, destinada a implementar agenda global dominante, praticamente sem oposição. Mas a recuperação da Rússia e seu bom trabalho no tabuleiro militar; o bom desempenho da China no tabuleiro económico, e a decadência social e cultural no tabuleiro do controlo das massas no Ocidente, tem virado a situação.

A ideia do Meio Oriente alargado chegou mesmo a frutificar, depois do discurso do presidente Obama no Cairo, em Setembro de 2012. Discurso que a sua vez estabelecia uma nova - velha modalidade de fazer política "de cenoura", que Peter Murphy Lewis chegou a chamar de Doutrina Obama. Dessa doutrina vemos a clara luz, depois que os correios de Hillary Clinton e a última entrevista de John Kerry, deixaram bem claro aposta e apoio dos EEUU aos Yihadistas no Oriente Meio, como melhor forma de garantir a remodelação da região em favor do Império Ocidental. A entrada da Rússia no terreno quebrou de algum modo esta situação. O poder russo, que de momento não aspira mais que a garantir una zona de acomodo dos seus interesses na Eurásia, não é em realidade o grande concorrente pela hegemonia global dos EEUU, senão a China. Mas controlando a Rússia, evidentemente o cerco a China, impede ao poder de Pequim ter muita mobilidade, dado o mar oriental estar militarmente bem selado pelas bases da Coreia e o Japão. Dai a disputa das ilhas Diaoyu ou Senkaku não seja um simples jogo de direitos de titularidade.

As elites financeiras globais poderiam tal vez, agora olhando o novo cenário, ter impulsado Trump a presidência do gigante Norte-Americano, como pensa John Pilger? Ou pela contra, o cansaço das classes operarias americanas com a elite cleptocrata dirigente (que tem levado a milhares de famílias e muitas das cidades mais importantes de EEUU, como Detroit, a ruína) foi realmente o que virou o balanço em favor de Trump?

Existe a possibilidade de a elite global financeira estar usando Trump para criar uma aliança com a Rússia que isole a China, como no seu dia fez Nixon com a China para dobrar a URSS

Mas também existe a possibilidade de, seja qual for a realidade por trás do cenário, a elite global financeira estar usando Trump para criar uma aliança com a Rússia que isole a China, como no seu dia fez Nixon com a China para dobrar a URSS. Algo, a dia de hoje difícil, pois o presidente Putin tem-se oferecido a seus parceiros como homem no que se pode confiar, e uma deliberada quebra do pacto com a China semearia muita incerteza em este aspeto, entre os países aos qual Rússia presta assesoramento de vários tipos. Além de os grandes benefícios económicos, tecnológicos e científicos, que esta parceria lhes tem proporcionado a ambas nações. Não podemos esquecer que a reabilitação da rota da Seda, com suas derivas energéticas em favor da Rússia e mercantis em favor da China, foi uma das principais causas pelas quais o Império Ocidental teve de atuar rapidamente na Síria (tentando implantar quanto antes o plano de remodelação, que em outras circunstâncias, poderia ter corrido mais devagar).

Pepe Escobar é da opinião que a elite financeira global vai encurralar e pressionar Trump (através de protestos, utilizando a agenda esquerdista e, de outras manobras, utilizando a agenda económica de direita), depois das quais (é havida conta que o poder financeiro controla todos os resorts do Império) Trump não terá outro remédio que bailar ao som que a orquestra financeira toque.

Iremos vendo como evolui esta situação e se realmente Trump é ou será outro dançarino nas mãos da elite bancária, como foi Obama, ou pela contra o próprio Trump quer ser o Grande Imperador, mesmo apesar de não contar na prática com as condições apropriadas para isso.

Iremos vendo como evolui esta situação e se realmente Trump é ou será outro dançarino nas mãos da elite bancária, como foi Obama

Mas mesmo assim também não devemos deixar de olhar para o plano de guerra ideológica global: por um lado está a luta entre os globalistas financeiros e aqueles que querem a volta da hegemonia do Estado Nação, no Ocidente: os estaticistas . A luta secular entre xiitas e sunitas no Oriente. A luta adormecida no mundo cristão ocidental, entre católicos e protestantes (sem esquecer o domínio no oriente da ortodoxia crista, sem acomodo todavia com os sectores do catolicismo Vaticano). Entre outras questões inquietantes, das diversas fendas que existem no orbe.

O mundo sempre viaja na história da divisão à união, dos pequenos centros à conglomeração em grandes centros – desenhados pelos Impérios que submetem os reinos (os reinos que previamente submeteram aos condados; os condes que previamente submeteram os colonos…). Isto nos períodos de guerra - confronto (Era escura, ou Khaly Yuga, como denomina a mitologia indiana); os impérios aí governam sobre a anarquia global, impondo a paz dos mais fortes.

Nos períodos de verdadeira paz, Era de Ouro (ou Satya Yuga) a união se efetua pela analogia dos contrários, e pela essência comum que une a todos os povos, que formam a humanidade. Em esta era de luz os governos comandam, dentro da sociedade sinárquica (como bem a definira Sant Yves d´Alveydre), dum jeito relativamente fácil, pois o confronto é substituído pela ajuda.

O mundo sempre viaja na história da divisão à união, dos pequenos centros à conglomeração em grandes centros

Assim nos ciclos escuros, os povos perdem o trono e a coroa, que fica sobre o controlo dum grupo de famílias no vértice da Pirâmide, que assenta seu triângulo de ferro sobre o quadrado da base (onde em peleja intra-classe entre os próprios oprimidos, os mais fortes a sua vez escalam na citada pirâmide, para melhor servir aos senhores que estão no topo).

De novo, com a volta do novo ciclo de ouro, os povos recuperam o trono: acima da pirâmide (no triângulo equilátero de fogo áurico) se situam os homens e mulheres mais evolucionados no amor-sabedoria, enquanto na base as camadas sociais, menos evoluídas vivem uma experiência de aprendizagem harmónico. As pessoas escalam não pelos valores materiais ou pela força física, senão por aquilo que podem achegar aos demais. Ficar na frente significa uma responsabilidade baseada na ação de dar - retribuir à sociedade (ao invés de apropriar-se dos recursos que gera essa coletividade, como acontece nos dias de hoje). Não existe aqui propriedade em mãos de famílias, e sim coletiva. Os governantes são aqueles que por correta evolução minoram seu ego a tal ponto de os interesses dos seres humanos e todas as espécies vivas do planeta serem sua única grande preocupação... 

Os confrontos minoram de tudo no global, e permanecem em latência - ate chegar a era negra de guerra (onde voltam estourar). As lutas sociais, individuais, geram movimentos de renovação necessários para impedir a esclerose do sistema. Não é um sistema idílico, falto de fricção (necessária para a evolução) nem de pequenas injustiças - mas muito mais avançado, solidário e ecológico que o predatório e auto-destrutivo modelo de guerra que na atualidade vivenciamos.

As lutas sociais, individuais, geram movimentos de renovação necessários para impedir a esclerose do sistema

A evolução cíclica traz consigo a sua vez, uma evolução da consciência, sem a qual a mudança seria impossível. A velha ideia de combate continuo, medo ao diferente e medo à ideia que os outros podam achegar-nos sobre a vida é substituída pela ideia de que todas as visões, filosofias, modos de realizar-se uma pessoa, cultura ou povo, podem ter encaixe. No imaginário individual e coletivo começam a inserir-se ideias de confraternização (com tudo aquilo que deixamos de ver como contrário e começamos a olhar como enriquecedor), em substituição das ideias guerra (contra todo aquilo que consideramos ameaçante). Na compreensão holística do mundo ser uma rede natural e inteligente, formada de múltiplas conexões que organizam a rede da vida (e lembram mais a sociedade descrita por Kripotkin no Ajuda Mútua: Um fator de evolução), as novas coletivadades crescem. Superando aquele rançoso darwinismo social das teorias de Thomas H. Huxley e Thomas Malthus, com suas velhas ideias da luta pela existência ou sobrevivência (que tem dominado a mentalidade de homens e mulheres, mesmo até os nossos dias).

Sabemos que a evolução ate esse modelo social global de confraternização não será fácil. Sabemos também que o governo mundial que deve unir todos os povos, não pode ser o governo duma elite. Aguardamos também que, a pesar de analises tão interessantes como a de Christophe Trontin, no seu texto EUA, o titã epilético. Perigoso como uma fera ferida, o Império Ocidental, ainda no borde do colapso, tenha a capacidade necessária para chegar quanto menos a um acordo global momentâneo que permita alongar o fantasma da guerra nuclear.

Temos um grande problema pela frente: ou rumamos para a confraternização ou rumamos para a autodestruição

Temos um grande problema pela frente: ou rumamos para a confraternização ou rumamos para a autodestruição. E mesmo, sabendo que a consciência de toda a humanidade não está ainda preparada para assumir a revolução quântica, que significa abandonar o modelo de guerra; também sabemos que em esta difícil encruzilhada vamos ser obrigados a começar à abrir o punho e, pouco a pouco, soltar o machado da guerra. Sem esse primeiro passo, que requer estabelecer um forte movimento pacifista-ecologista de unidade dos opostos e aceitação de toda a diversidade, não será possível a mudança profunda e secular que precisámos.

Na curta o melhor cenário que podemos prever é um entendimento global das elites dominantes: Ocidente e os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e Sul África), urgente para remodelar o sistema económico global, entorno duma nova moeda global e novas regulamentações que tenham em conta o peso certo económico, geoestratégico e cultural de todas estas potencias.

Uma nova arquitetura que evite a inminente guerra.

Mas também precisamos uma pressão continua da base para poder obrigar as elites a esta negociação, enquanto o mundo ainda não estar preparado para a mudança de paradigma.

Lembremos que o sistema económico global, ficou quebrado e como bem explica Janus Varoufakis a China e EEUU estão tão unidos e imbricados no sistema económico global que a crise da divida privada a ponto de explodir na China, assim como a impossibilidade de seguir engrandecendo a divida pública a ponto de explodir nos EEUU, faz que a única saída (sem guerra) passe pela procura dum acomodo global iminente. Do contrário a guerra cambial e a guerra comercial, já na sombra, estourar-há em guerra total. Arrastando consigo ao caos mais profundo a toda a humanidade. Nossa consciência nos obriga a parar e deixar para sempre fora das nossas vidas esse velho modelo de guerra permanente. Devemos escolher viver e aprender a compartilhar.