«Houvo umha forma histórica de ultrajar a língua, que consistia em nom escrevê-la. O futuro registará outra, consistente em escrevê-la sem possuí-la. Sem querer possuí-la.» (Ricardo Carvalho Calero, «O galego desenfreado» [1976], em Problemas da Língua Galega [1981]: 70)

Há justamente dez anos, o Professor Xosé Ramón Freixeiro Mato dava a lume umha obra especialmente importante para a nossa sociedade, importante polas pautas que, com rigor e clareza, nela se estabeleciam e polos recursos que, de forma didática, aí se ofereciam aos galegos para estes, com independência das normas ortográficas e morfológicas em cada caso observadas, poderem cultivar (na fala e na escrita) um galego genuíno e verdadeiramente culto. Se já na altura, graças aos diversos estudos gramaticais e lexicais até entom realizados, o conhecimento da constituiçom de um galego genuíno e culto (e especializado) estava garantido, sobretodo, a filólogos e estudiosos da língua, o livro Lingua de Calidade: Vinte Reflexións e Unha Proposta Esperanzada para un Galego con Futuro, publicado polo Prof. Freixeiro Mato em 2009 (Xerais, Vigo), vinha a anunciar e explicar a um largo público, de forma acessível, as linhas-mestras que devem configurar um galego rico e castiço, umha língua de qualidade condigna com a cultura das pessoas que a utilizam como veículo comunicativo em ámbitos formais.

Assim, especialmente desde a apariçom desse oportuníssimo livro do Prof. Freixeiro Mato, nom podo compreender a elevadíssima freqüência com que, por exemplo, os redatores de artigos jornalísticos, quer jornalistas, quer colaboradores externos, pessoas cultas todos eles e que, em geral, se dim defensoras da língua e da cultura autóctones da Galiza, violentam aspetos fundamentais da gramática do galego, desprezam os recursos da sua morfossintaxe e atropelam significantes e significados do nosso léxico, quase sempre através de umha vincada subordinaçom ao castelhano, o que deixa esse galego nos antípodas de umha verdadeira língua de qualidade e de cultura. Precisamente, dedico as próximas linhas a ilustrar estas freqüentes e injustificadas deficiências expressivas com umha série de exemplos retirados de duas peças jornalísticas recentes, umha reportagem de tema médico intitulada «As vacinas contra o virus do papiloma humano tamén son para homes», publicada nas páginas 2 e 3 do número 349 (6.6.2019) do semanário Sermos Galiza, e um artigo de opiniom intitulado «O valor das abellas», vindo a lume no Faro de Vigo de 4.6.2019. Em ambos os casos, os redatores responsáveis (jornalista e colaborador externo, respetivamente) som pessoas cultas e formadas, o que, vistos os desacatos contra a genuinidade e riqueza do galego aqui testemunhados, tornará patente a conclusom que expomos no fim do presente artigo.

Começamos a nossa exemplificaçom com umha desgraçada oraçom do primeiro artigo referido, a qual, de facto, constituiu o estímulo principal para escrevermos estas linhas: «En palabras da doutora Calaza, “a vacinación masculina tamén é necesaria, xa que un terzo da patoloxía oncolóxica relacionada co papiloma dáse en varóns, un grupo no que está en aumento o cancro anal, de cabeza e de colo”.». Os dous erros crassos, incompatíveis com um galego genuíno e de qualidade, que aqui surgem (junto com outros lapsos menores, que agora nom focalizamos) ilustram casos infelizmente muito estendidos. Por um lado, e em geral, umha colocaçom incorreta do pronome átono e, em particular, a sua indevida posposiçom constante ao verbo: aqui, como o pronome clítico se acha no seio de umha cláusula subordinada introduzida pola locuçom conjuntiva causal já que, o correto teria sido «xa que un terzo [...] se dá». Este, a indevida colocaçom enclítica (posterior ao verbo) do pronome átono, é um lapso hoje infelizmente muito freqüente no galego escrito, e talvez se deva, no quadro da falta de domínio deste capítulo essencial da gramática galega, a umha hipercorreçom, ao considerarem, polos vistos, muitos redatores —equivocadamente!— como castelhanizante toda a posiçom proclítica (anterior ao verbo) de um pronome átono [1].

Inequívoca e obscenamente castelhanizante, por sinal, é a utilizaçom nessa oraçom do vocábulo colo com o sentido de ‘pescoço humano’, pois esse uso léxico-semántico, sem dúvida induzido polo castelhano cuello ‘pescoço’, revela-se hoje arcaico em galego-português, língua em que colo, atualmente, só se utiliza na linguagem corrente com o sentido de ‘regaço’ («criança/neno/meninho de colo») ou com o significado, surgido por transferência ou metáfora, de ‘porçom estreitada de algumha cousa’ (como em «colo da garrafa», este também designado por gargalo). A partir deste último sentido, na linguagem especializada da biologia e da medicina (a qual habilitamos em galego, naturalmente, de acordo com as variedades lusitana e brasileira da nossa língua!), utiliza-se colo com o sentido de ‘parte estreita de um órgao ou cavidade’: colo do útero, colo da bexiga, colo do fémur, colo do dente, colo da raiz, etc. De facto, esse uso errado que a redatora do artigo de divulgaçom médica fai do termo colo, com o sentido de ‘pescoço humano’, é tanto mais perturbador quanto que, no próprio artigo, se fala várias vezes do colo uterino, o que pode induzir facilmente o leitor da oraçom em erro ou, polo menos, como foi o meu caso, pode deixá-lo perplexo durante uns instantes [2].

Estes dous tipos de deficiências expressivas, de morfossintaxe e de vocabulário geral, também se deixam sentir pesadamente no segundo artigo que aqui traguemos à baila, de tema ecológico e centrado nas abelhas. Assim, no capítulo da morfossintaxe, as duas deficiências principais ficam patentes no seguinte trecho: «[...] coa intención de forzar ás empresas de distribución a que reduzan as súas embalaxes [...].». Aqui, a correspondente formulaçom própria de um galego de qualidade evitaria, por um lado, introduzir o complemento direto, por interferência do castelhano, mediante a preposiçom a, e, por outro lado, recorreria ao infinitivo flexionado: «[...] coa intención de forzar as empresas de distribución a reduciren as súas embalaxes [...].». Esses dous lapsos, por abuso e por desuso, surgem, ainda, noutros passos deste artigo, como «[...] que afecta tanto aos [correto: os] rendementos de numerosos cultivos agrícolas como á [correto: a] conservación da flora silvestre.», «[...] que obriga a algunhas [correto: algunhas] especies de abellas a migrar [correto: migraren] de altitude [...].» e «gravar á [correto: a] contaminación» [3].

Como dixemos, o artigo do Faro de Vigo aqui analisado apresenta, também, notáveis deficiências de vocabulário. Entre as mais significativas, além da atribuiçom errada de género feminino ao substantivo legume (castelhanismo morfológico), devemos salientar a alternáncia no uso dos vocábulos cambio e mudanza com o sentido de ‘transformaçom’. Esta inconstáncia vocabular patenteia, para além de insegurança, umha falta de rigor e de seriedade no uso do galego, que o redator, com toda a probabilidade, nom trasladaria à sua redaçom em castelhano. Como claramente nos mostram as variedades lusitana e brasileira da língua, com o sentido de ‘transformaçom’, a nossa palavra genuína e tradicional é mudança («mudança política», p. ex.), e nom o italianismo cámbio (triunfante, nesse sentido geral, só no castelhano moderno), vocábulo, este, que, em bom galego, apenas deve ser usado, fundamentalmente, no campo da economia, e em referêrencia à equivalência entre moedas ou divisas («cámbio do dólar», p. ex.).

Por último, diga-se que no domínio dos neologismos pós-medievais, os dous textos em apreço enfermam de umha marcada subordinaçom ao castelhano, em flagrante contradiçom, nom já com a recomendaçom do livro Lingua de Calidade, do Prof. Freixeiro Mato, como também com o Princípio 4.º da Introduçom às NOMIG da RAG-ILG (2003: pág. 12), os quais, recomendaçom e princípio codificador, reclamam, como é lógico e natural, a coordenaçom com o luso-brasileiro para a habilitaçom em galego de vocábulos modernos, cultos e de especialidade [4]. Assim, se na reportagem sobre a vacina contra o papiloma já coincidem com o lusitano (e brasileiro) as unidades lexicais de especialidade aí empregadas cancro e vacina (além de todas as palavras originadas antes do séc. XVI presentes no artigo!), por que nom há de coincidir também com o luso-brasileiro, entre outros termos médicos, rastre(i)o, com o sentido de ‘exame sistemático efetuado numha populaçom ou grupo amplo de indivíduos à procura de sinais clínicos para prevenir algumha doença’ (= ingl. screening, fr. dépistage)? Ora, infelizmente, no texto publicado, utiliza-se *o cribado com esse significado («os varóns non teñen ningún tipo de cribado para detectala[,] como a proba de Papanicolau […].»), castelhaníssima soluçom que, além de nom convergir com o luso-brasileiro, em galego apresenta dous problemas: a sua base, o verbo crivar, sem ser impossível, é improvável, porque em galego-português é bastante mais freqüente, nesse setor semántico, peneirar; além disso, *o crivado é um particípio passado habilitado como substantivo denotador de processo, mecanismo neológico, esse, que só em castelhano mostra produtividade significativa (cf. cast. el reciclado / gal-port. a reciclagem), de modo que, com a base castelhanizante crivar, o derivado, para ser genuíno em galego, teria de ser «a crivagem» ou «a crivaçom». Quanto ao artigo sobre as abelhas do Faro de Vigo, dous neologismos ostensivamente castelhanizantes respigamos nele: *cambio climático (tomado do cast. cambio climático) e *cumio (decalcado do cast. cumbre), no sentido de ‘reuniom de representantes (políticos) de alto nível’ («Cumio Mundial de Viena»). Mais umha vez, devemos assinalar que estas duas soluçons neológicas, além de onerosamente nom convergirem com o luso-brasileiro (em contraste com todas as palavras originadas antes do séc. XVI que surgem no artigo!), levantam problemas de coerência interna, umha vez que, como vimos, cámbio nom é, em galego, palavra genuína para denotar, em geral, ‘transformaçom’ (em coordenaçom com a variedade lusitana da língua, o correspondente termo galego correto e solidário é alteraçom climática), enquanto que o vocábulo cúmio representa, de forma a desqualificá-lo, umha variante dialetal da palavra supradialetal cume (sendo cimeira, em qualquer caso, a correspondente soluçom neológica galega solidária com o luso-brasileiro) [5].

Enfim, com o sólido conhecimento que hoje se tem da constituiçom de um galego genuíno, culto e especializado, com a facilidade com que a internet agora nos disponibiliza textos compostos nas variedades lusitana e brasileira da língua, e decorridos dez anos desde a publicaçom do lúcido e claro, acessível e didático Lingua de Calidade, do Prof. Freixeiro Mato, nom parece aceitável que, nesta altura, tantos redatores que publicam nos meios da comunicaçom social, quer sejam jornalistas, quer colaboradores externos, produzam com tanta freqüência textos num galego verdadeiramente esfarrapado, crivado de crassos castelhanismos morfossintáticos e lexicais e em larga medida destituído de eficazes e elegantes recursos expressivos próprios (como o infinitivo flexionado ou o futuro do conjuntivo). Se tal acontece, infelizmente, nom é senom por desleixo culposo dessas pessoas, incúria que, num plano técnico-operativo, caberá adscrevermos, sem risco de engano, a umha esmagadora aculturaçom e imersom comunicativa em castelhano, com correlativo estranhamento absoluto do luso-brasileiro, fonte de devastadores efeitos desgaleguizadores, e, num plano ético, e de acordo já com Carvalho Calero, a um défice de patriotismo cultural, de sincero compromisso com a nossa língua e com o nosso país.

Notas

[1] Alguém poderia aduzir que, na oraçom transcrita, o pronome átono pode ocupar umha posiçom enclítica, dado que, entre a marca de subordinaçom (xa que) e o verbo com o seu clítico (dáse), se interponhem bastantes palavras. Na realidade, essa justificaçom nom tem pertinência em casos como o presente, em que estamos a considerar umha manifestaçom da língua escrita, e ainda da língua especializada (da medicina), a qual, em contraste com a língua oral espontánea, deve responder a umha planificaçom cuidadosa e, em conseqüência, deve sujeitar-se, com mais rigor do que a língua oral espontánea, às normas gerais da gramática (o que também favorecerá a coesom textual).

[2] No artigo fala-se do colo do útero, mas nom, propriamente, com recurso a esse termo correto, antes utilizando de forma constante o anglo-latinismo *cérvix. Este uso terminológico, que a nossa redatora sem dúvida tomou emprestado do castelhano, e este do inglês, deve considerar-se inadequado, frente ao termo vernáculo colo do útero, ou uterino, cujo adjetivo derivado mais correto nom é cervical (que, propriamente, significa ‘relativo a pescoço ou a cerviz’, como em vértebra cervical), mas uterocervical (ex.: cancro do colo uterino ou cancro uterocervical).

[3] A este respeito, é instrutivo verificarmos como a construçom do complemento direto surge correta, sem a castelhanizante preposiçom a, no provérbio popular que o próprio autor cita neste artigo: «Quem mata umha abelha tem cem anos de pena» (e nom: *«a umha abelha»!).

[4] Na realidade, transmitida através do castelhano, estes textos também acusam umha perniciosa influência do inglês no uso de alguns neologismos. Assim, na reportagem sobre a vacina contra o papiloma, além de *cérvix ‘colo uterino’, também se usam os anglicismos abusivos *evidência científica, em vez do correto dados/provas/indícios científica/os e *patologia ‘doença, afeçom’, ao passo que no artigo sobre as abelhas, o redator utiliza nalgum caso, por indevida imitaçom do inglês, *global com o sentido de ‘mundial, planetário’. Sobre a habilitaçom e constituiçom do galego científico, o leitor interessado pode consultar o Manual de Galego Científico, de Carlos Garrido e Carles Riera (2011).

[5] Estes dous últimos neologismos, alteraçom climática e cimeira, revelam-se assaz interessantes porque ilustram um caso com que devemos lidar de vez em quando: às vezes a soluçom terminológica usada em Portugal nom coincide com a do Brasil. Como estabelece a Comissom Lingüística da Associaçom de Estudos Galegos (antes, da AGAL) no seu documento codificador O Modelo Lexical Galego (2012), nesses casos, seguindo um critério razoável, na Galiza devemos priorizar a correspondente soluçom terminológica da variedade lusitana (preferiremos para o galego, entom, alteraçom climática, a soluçom de Portugal, frente à soluçom brasileira mudança climática, e cimeira, a soluçom lusitana, frente à soluçom brasileira conferência de cúpula).