Na cultura tradicional, o baile vivenciou-se como a reaçom, a expressom espontánea do nosso corpo ante um ritmo, umha cadência, umha melodia... Bailamos porque si, porque nos peta e nos dá a gana e bailamos, principal e secularmente, porque, quer a nível individual quer a nível social, precisamos de comunicar-nos; o baile forma parte da expressom corporal como indivíduos mas também é expressom da cultura coletiva de que fai parte.

Na cultura tradicional, o baile vivenciou-se como a reaçom, a expressom espontánea do nosso corpo ante um ritmo, umha cadência, umha melodia... Bailamos porque si, porque nos peta e nos dá a gana e bailamos, principal e secularmente, porque, quer a nível individual quer a nível social, precisamos de comunicar-nos; o baile forma parte da expressom corporal como indivíduos mas também é expressom da cultura coletiva de que fai parte.

"Bailamos porque si, porque nos peta e nos dá a gana e bailamos, principal e secularmente, porque, quer a nível individual quer a nível social, precisamos de comunicar-nos"

Juntarmo-nos na cozinha com as visitas a parolar e tomar café, ainda que a sala da casa tenha aquecimento e seja igual de quente que a cozinha. Sairmos ao campo com as pantufas dentro das galochas, ainda que o plástico destas nom se poda comparar à dureza da madeira das socas. Que a vizinha venha com o leite recém mugido numha garrafa reciclada de Coca-Cola de 2 litros. Irmos bailar ao seram ou ao filandom, ainda que ninguém saiba muito bem o que significam essas palavras, pois os trabalhos que davam lugar a essas juntanças já quase nom se fam... Todas estas pequenas histórias, com que dalgum jeito nos identificamos, formam parte da nossa cultura, das mudanças que desenvolvemos para adaptar-nos ao lugar onde vivemos. Assim, umha das definiçons de cultura diz que é o conjunto de ferramentas que articulamos para viver melhor no lugar que habitamos. Estas histórias exemplificam que a cultura é, essencialmente, umha constante adaptaçom dos nossos costumes às necessidades, demandas e realidades que vam surgindo ao longo da nossa história e portanto a cultura tradicional é susceptível de ser peneirada através da abertura, da permeabilidade e do dinamismo.

O baile, como parte desta cultura coletiva estivo ao longo da história aberto a mudanças: novos jeitos de bailar, novos ritmos, novos passos e novos espaços fôrom conformando o que aprendemos a bailar na atualidade: bailamos moinheiras, embora nom seja no moinho, bailamos chótis ainda que os nossos passos retenham poucas reminiscências dos schottisch centro europeus, bailamos rumbas sem o sotaque caribenho... 

"Muitas mudanças afetaram a nossa cultura e o nosso baile, mas se repararmos há algo que permanece impertérrito em ambos: a perpetuaçom da desigualdade entre géneros". 

É visível que muitas mudanças afetaram a nossa cultura e o nosso baile, mas se repararmos há algo que permanece impertérrito em ambos: a perpetuaçom da desigualdade entre géneros. 

De forma secular homens e mulheres fomos ocupando lugares diferenciados na cultura, existindo no espaço público da forma desigual, sendo a mulher relegada às esferas privadas; dividindo os trabalhos por géneros e criando a imagem coletiva de debilidade e incapacidade ante certos labores normalmente relacionados com a força; menospreçando o que se atribuiu como conhecimento feminino; controlando a sexualidade, convertendo o nosso corpo em fonte de reproduçom de força de trabalho; obviando-nos na hora de palavrar as cousas...

O baile como ferramenta de comunicaçom da cultura, perpetua a interaçom desigual na mesma. Nom todas as pessoas comunicam igual a partir dele, e nom porque nom queiram ou nom lhes pete ou dê a gana, senom porque assumimos a mensagem cultural enviada baile após baile: o homem é quem sobressai, é quem guia, é quem decide, a mulher observa, assume e acata. 

"Assumimos a mensagem cultural enviada baile após baile: o homem é quem sobressai, é quem guia, é quem decide, a mulher observa, assume e acata". 

Assim, ante o desenvolvimento de qualquer baile, na maioria dos casos vemos que um género está por cima do outro: na maioria dos casos o homem tem umha atitude ativa e decisória enquanto a mulher segue as direçons emitidas por este de maneira submissa: o homem começa a bailar, salta mais, inicia o ponto, corta-o e normalmente continua assim todo o baile, bem ele ou bem outro homem colocado à par. Aliás, quando nos situamos em filas de homens e de mulheres enfrentadas, nom é umha ocupaçom do espaço casual e inocente, estamos transmitindo umha norma sexual: o par é o formado polo homem e a mulher, e estamos tirando da norma quem quiser formar outro par, principalmente se se tratar de dous homens, pois o sexismo também se encontra aqui. Aprendemos desde nenas que a dança é umha actividade “feminina”.

O baile está a ser reflexo da cultura de que forma parte, umha cultura patriarcal e heterossexista, onde o diálogo entre géneros nom se baseia na igualdade: sempre umha voz pesa mais do que a outra, um corpo visualiza-se mais do que o outro, o par homem-mulher é o normalizado.

Quando vemos a representaçom dum baile tradicional em cima dum cenário este esquema sempre se repete mas, na minha opiniom, o mais preocupante é que estamos a levar este mesmo esquema à nossa realidade, ao momento espontáneo onde nom reproduzimos um espetáculo senom a expressom natural com o nosso corpo. Entramos aqui na contradiçom: sustemos a essência do baile divertindo-nos e expressando-nos perante a música com o corpo mas nom revemos se em pleno século XXI queremos continuar a reproduzir esquemas desigualitários, machistas e heterossexistas. 

"Nós, tivemos e temos o papel de rever essas ferramentas da cultura que nós mesmas criamos e temos a obriga de modificarmo-las"

Nós, como partes ativas nas reviravoltas da nossa cultura, tivemos e temos o papel de rever essas ferramentas da cultura que nós mesmas criamos e temos a obriga de modificarmo-las, de voltar mais umha vez a adaptar todo aquilo de que nom gostarmos, tendo em conta que essa adaptaçom tem de partir da revisom crítica do que fomos, do que somos e do que queremos ser.

Por isso é necessário repensarmos a maneira em que mantemos o baile tradicional e, quando estivermos numha festa, todas e todos começar pontos, voltas ou passeios que nos levem por este caminho da adaptaçom à cultura que queremos: umha cultura igualitária criada desde umha sociedade em igualdade. 

Dizia Emma Goldmam que umha revoluçom em que nom se pudesse bailar nom seria a sua; agora podemos dizer que umha revoluçom em que nom podamos escolher como queremos bailar, nom será a nossa.



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