“Per xula ella, xulos nosaltres.” (Para chula ela, chulos nós.)


“Per xula ella, xulos nosaltres.” (Para chula ela, chulos nós.) Com esta arrogância justificava segunda-feira o líder do PP no Parlament, Xavier Garcia Albiol, a ausência da sua formação na Junta de Porta-vozes convocada pola presidenta da mesma câmara, Carme Forcadell (Junts pel Sí). Dada a resistência da formação espanhola a se constituir como grupo parlamentário, num intento, como o seu próprio líder expressou, de obstaculizar de qualquer forma possível a atividade das forças independentistas, a presidenta do Parlament decidiu continuar o processo para celebrar a votação da proposta de resolução de Junts pel Sí e da CUP, resolução conforme à qual se inicia o processo de construção da República Catalã e conforme à qual o Parlament de Catalunya se declara soberano e insubmisso “às decisões das instituições do Estado Espanhol, em particular do Tribunal Constitucional”. 

Pablo Iglesias iniciava a pré-campanha para as gerais afirmando de jeito contundente que o seu partido era “a melhor garantia de unidade de Espanha”

Como bem indica o documento, este não é mais que uma formalidade, a plasmação no papel da vontade que o povo catalão já expressou categoricamente nas urnas o passado dia 27 de Setembro. Se bem a estas alturas não surpreende a ninguém o feito de as forças reacionárias do Partido Popular fazerem gala de semelhante soberba perante os desejos de libertação nacional do povo catalão, sim é, se bem não surpreendente, quanto menos reveladora a resposta que está a dar o resto de formações políticas espanholas. A finais da semana passada, Mariano Rajoy tentava chegar a um acordo com elas para “fazer uma fronte contra o desafio soberanista de Artur Mas”, tal e como recolhiam os principais meios espanhóis. Pese a PP, PSOE, Ciudadanos e Podemos não chegarem a qualquer acordo, os três primeiros acudírom de feito à manhã seguinte de se celebrar dita Junta (esta terça-feira, tal e como estava previsto) ao Tribunal Constitucional para apresentarem conjuntamente um recurso de amparo contra a sua celebração. Apesar de Podemos se arredar de qualquer pacto comum contra o processo independentista, Pablo Iglesias iniciava a pré-campanha para as gerais afirmando de jeito contundente que o seu partido era “a melhor garantia de unidade de Espanha”. Certamente, toda uma surpresa a notável viragem conservadora pela que tem passado o seu discurso de há pouco mais de um ano para aqui. Enquanto, Alberto Garzón, dirigente de Izquierda Unida, arvora a velha bandeira do federalismo, sustendo que cumpre tender pontes de diálogo entre Espanha e a Catalunha, e que o problema não é um de nacionalidade, senão de classe. Diferentes argumentos para a mesma conclusão. Por outra banda, UPyD, por não rachar com a tradição, vem de apresentar uma querela perante o Tribunal Superior de Justiça de Catalunha contra várias deputadas independentistas por delito de sedição, a qual, em caso de ser levada a termo, poderia condená-las a 15 anos de prisão. Ninguém que observe com um mínimo de atenção pode obviar que o desenvolvimento dos feitos conduziu cara a uma clara polarização da situação política em dous grupos enfrentados de forma cada vez mais manifesta. De uma banda, aquele que está pelo cumprimento do mandato democrático do povo catalão e do seu legítimo desejo de liberdade. Da outra banda, aquele que teima ainda em defender a sacrossanta unidade de Espanha, mesmo com propostas federalistas mais ou menos matizadas, mas em todo momento negando o direito de autodeterminação nacional. Do mesmo jeito, ninguém pode evitar sorrir com certo sentimento de vergonha alheia ao olhar para as manobras dos paladins da grande e livre, mais ainda no espetáculo prévio a umas eleições gerais que no imaginário coletivo se mostram como decisivas e abrem a porta a toda classe de contorcionismo político com tal de apanhar uns quantos votos. Desde as arrotadas do senhor Albiol até os atrevimentos de Esperanza Aguirre, que há bem pouco defendia na sua conta pessoal do Twitter o legado dos “3.000 anos de História de Espanha”. Tudo passando por ameaças de tanques atravessando a Diagonal.

O resto de nações oprimidas não podemos senão demonstrar o nosso apoio incondicional ao povo catalão

Porém, se bem irrisórios às vezes os argumentos, as ameaças passam da simples brincadeira e não hão de ser subestimadas. Não demos nem por um momento assegurada a vitória; a História tem demostrado a capacidade dos setores mais reacionários da sociedade para afogarem qualquer ação contestatária. Os inimigos da independência são muitos e muito fortes. O PP faz escassos dias empregava a sua hegemonia no governo galego para lançar, em nome de toda a nossa nação, um comunicado em defessa da indissolubilidade do Estado. A sombra do artigo 155 da Constituição sobrevoa mais escura que nunca as cabeças das irmãs catalãs. O presidente do governo do Estado vem de assumir, num claro ataque à sua soberania, o controlo dos fundos estatais para Catalunha. Os meios de comunicação em mãos da burguesia unionista dedicam titular trás titular a desacreditarem a legitimidade da vontade popular. Os partidos do sistema procuram, pela força ou pelo engano, encaixarem Catalunha em Espanha. Mesmo uma parte considerável da autodeterminada “esquerda” espanhola se posicionou em contra do procés. A campanha do medo não cessa e “o sufoco da sublevação” sugerida pelo ministro Margallo cada dia semelha um cenário menos incerto. Neste contexto, o resto de nações oprimidas não podemos senão demonstrar o nosso apoio incondicional ao povo catalão, que mesmo apesar de todos os atrancos a salvar continua avançando, não apenas para “poder sair pela mesma porta que estão abrir” e vermos as nossas respetivas posições soberanistas reforçadas, mas também por compromisso internacionalista, por solidariedade com as que como nós padecem as cadeias, sem esquecermos nunca a nossa posição junto à classe trabalhadora do resto de nações do mundo. Enquanto “o desafio catalão” ocupa todos os telejornais, o espanholismo intenta fazer-se forte nas sombras projetadas pelo período eleitoral e detém nove companheiros independentistas sob acusações de enaltecimento de terrorismo, ao mesmo que tempo que a sua organização, Causa Galiza, é ilegalizada sob escusas semelhantes. Uns dias antes, no marco da Operação Pandora, os mossos d’esquadra detinham várias anarquistas também sob questionáveis acusações de terrorismo. Há pouco ainda rematava o juízo contra Askapena. Não são casos ilhados. Quase nunca são. São parte de uma mesma estratégia para apagar qualquer movimento revolucionário e contrário aos interesses do capital e á unidade do Estado. Não esqueçamos nunca que “se chulas nós, mais chulas elas ainda.” Porém, a batalha segue e não devemos claudicar. Um povo que decidiu ser livre não o para ninguém. Cumpre, pois, reafirmarmo-nos na nossa luta e na nossa solidariedade internacionalista. Como sinalava Fidel Castro, “ser internacionalista é saldar a nossa própria dívida com a humanidade. Quem não é capaz de lutar por outros, nunca será suficientemente capaz de lutar por si mesmo.” Sempre golpeia melhor um punho que cinco dedos e de nenhuma maneira podemos permitir que a História nos julgue como as que virárom as costas às suas irmãs. Galiza, Catalunha e o resto de nações oprimidas do Estado partilhamos um mesmo jugo, e se igual é o nosso jugo, igual e o nosso desejo de nos libertarmos dele. Portanto, que tremelique o inimigo, porque venceremos nós. Que tremelique o inimigo, porque Catalunha tornará a ser rica e plena. Que tremelique o inimigo, e que desde cada recuncho e desde cada língua, que desde o Atlântico ao Mediterrâneo e desde às neves dos Pireneos às marismas do Guadalquivir ressoe alto um só berro de liberdade: Adiante a classe trabalhadora catalã! Adiante a independência de Catalunha! 



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