Chamamos binormativismo à política linguística destinada a aproveitar em favor do idioma as diferentes posturas normativas, pois todas têm vantagens para o mesmo. Esta política definiria a coexistência, em paridade legal, de dous modelos gráficos para representar o galego: o atualmente ensinado nas escolas (que prioriza a identidade da língua) e outro partilhado com a Lusofonia (que prioriza a utilidade da língua). Os usos correspondentes a ambos os modelos poderiam ser assimétricos e debatidos, mas os dous deveriam contar com algum reconhecimento legal.

A entrevista a Víctor Freixanes que podemos ler esta semana no Sermos Galiza volta sobre o tema. Agradece-se o tom amigável dentro da discrepância do presidente da RAG. Ao fim e ao cabo, quando abordadas com empatia e madurez, as discrepâncias parecem-me sempre preferíveis às concordâncias acríticas. Tentar otimizar as divergências dos diferentes setores que trabalham em prol do galego deveria ser a primeira responsabilidade dos dirigentes galeguistas. Por isso, num momento em que alguns meios da metrópole se esforçam por gerar antipatia pola língua na nossa sociedade, é positivo que a RAG tenha um presidente capaz, primeiro, de ouvir, e segundo, podendo ser, de unir.

Afora os clássicos debates normativos em determinados fóruns, para o conjunto da sociedade o binormativismo seria confuso só na mesma medida em que também o é o plurilinguismo, pois os cidadãos desfrutariam das mesmas vantagens deste, tanto em termos culturais como profissionais

 

Ora bem, existem realmente tantas divergências entre eu e Freixanes neste terreno? Talvez sobre como concretar a proposta, mas nem tanto sobre os objetivos mais ambiciosos que o binormativismo persegue, que Freixanes explica assim: “Se queres unha proxección internacional, usa o portugués. Todos podemos estar xuntos nesa viaxe sen a necesidade de perder no camiño a nosa identidade”. E continua: “[...] aposto por estreitar o coñecemento do portugués e  do brasileiro e traballar com esa filosofía, dicirlles ás nenas e aos nenos que grazas ao galego poden entrar nese mundo”. Afinal, que procura o reintegracionismo mais que abrir novas possibilidades comunicativas ao galego através da “proxección internacional”? E que pretende o binormativismo mais que facilitar que percorramos “xuntos” esse caminho?

As discrepâncias poderiam reduzir-se ao momento de concretar a proposta, já que Freixanes afirma que o binormativismo “confundiría a xente”. Mas nem sequer aqui estamos completamente em desacordo porque eu de facto penso que evitar desorientar a sociedade será o primeiro desafio da política binormativista quando começar a ser aplicada. Porém, tampouco este repto seria difícil de superar desde que assumamos que os passos a dar devem partir de escrupulosos consensos afastados do ritmo da política atual, empachada de propostas urgentes para consumo eleitoral.

Mais vantajoso que confuso

Afora os clássicos debates normativos em determinados fóruns, para o conjunto da sociedade o binormativismo seria confuso só na mesma medida em que também o é o plurilinguismo, pois os cidadãos desfrutariam das mesmas vantagens deste, tanto em termos culturais como profissionas. Quem se poderia opor a aprender na escola, ao lado do castelhano e do inglês, as normas do galego atual junto com as do português? Para avançar com um currículo deste tipo, quer ensinando noções de português dentro das aulas de galego quer como matérias independentes, bastaria desenvolver de forma integral a Lei Paz Andrade. Seria positivo para quem nada quer saber da causa do galego (que poderia dominar com extrema facilidade a quinta língua mais falada do mundo) e obviamente também para as pessoas partidárias de promover mais o galego, que poderiam utilizar o português para reforço da própria língua, freando a sua excessiva deriva castelhanizante.

Eu acho que a política menos arriscada, a mais “séria” e responsável que podem fazer os organismos dedicados a fomentar o galego na atualidade, seria deixar todas as portas abertas para o futuro

 

Chegados a este ponto, o seguinte passo seria permitir aos galegos e galegas, tal como acontece na Noruega, usarem o modelo escrito de galego que preferissem perante os poderes públicos: o atualmente ensinado nas escolas ou o que assenta na ortografia do português.

Deixar todas as portas abertas para o futuro

Na mesma resposta à entrevista, Freixanes fala de que “os países serios teñen unha soa ortografía”. É verdade que o binormativismo só conta com amparo legal em dous países do nosso âmbito político: o norueguês e o luxemburguês. Noutros países em que existem conflitos normativos, umha das normas impõe-se à outra nas funções administrativas e no ensino: no caso da Galiza, a norma local (galega) impõe-se à internacional (portuguesa); no caso alsaciano, a internacional (alemã) impõe-se à local (alsaciano). Mas ninguém pode saber ao certo qual destas fórmulas impositivas poderia ser mais propícia para o galego do futuro. Por isso, eu acho que a política menos arriscada, a mais “séria” e responsável que podem fazer os organismos dedicados a fomentar o galego na atualidade, seria deixar todas as portas abertas para o futuro, preservando com muito mimo as diferentes motivações que podem levar as pessoas a usarem a língua. O binormativismo seria um excelente contributo nesse sentido.



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