Publicamos a seguir a novena entrega de Mauricio Castro sobre a obra de Karl Marx (1818-1883), no ano do seu bicentenario. Son doce achegas, unha por cada un dos meses do ano.

Que terá a ver umha cousa com a outra!, dirá quem lê estas linhas. Para já, esclareço que com ‘O Último Samurai’ refiro-me a um filme de há quinze anos (2003), protagonizado por Tom Cruise, em que se recria um episódio histórico da passagem do Japom feudal para o Estado-naçom industrial-capitalista, dentro da chamada ‘Restauraçom Meiji’. Umha convergência de circunstáncias –em que nom vamos entrar– permitiu na segunda metade do século XIX que o Japom se incorporasse à modernidade capitalista como naçom unificada, única nom colonizada e, embora com atraso, economicamente avançada naquela regiom do extremo-oriente. Nom fai falta acrescentar que, com o passar das décadas, o Japom transitou polo imperialismo fascista e converteu-se, até hoje, numha das principais potências mundiais.

 

Umha superproduçom hollywoodiana, a que comentamos, visualmente espetacular, que manipula a figura histórica de um capitám francês (Jules Brunet) envolvido no conflito interno entre a dirigência modernizadora nipona, apoiada na nascente burguesia comercial urbana, e setores “anticapitalistas” empenhados no isolamento e na manuteçom das barreiras da ordem feudal.

 

Manipula, digo, porque o tal militar francês passa a ser um oficial ianque (Nathan Algren) sobrevivente da Guerra Civil e das chamadas Guerras Índias dos Estados Unidos do século XIX, que é contratado polo poder Meiji para dar formaçom militar ao novo exército regular, encarregado de liquidar a reaçom conservadora. E manipula porque essa reaçom conservadora, que agrupa umha série de guerreiros e senhores feudais (samurais) é apresentada como defensora de um paraíso tradicional de carácter rural em que a populaçom camponesa vive feliz sob a proteçom de umha dirigência espiritual e guerreira, alheios todos a qualquer conflito entre classes. Algo que, nom é preciso dizê-lo, nom corresponde em absoluto com as crises e conflitos do Japom novecentista.

 

Essa reaçom conservadora, que agrupa umha série de guerreiros e senhores feudais (samurais) é apresentada como defensora de um paraíso tradicional de carácter rural em que a populaçom camponesa vive feliz

 

Karl Marx denominou no seu Manifesto do Partido Comunista, em 1848, “socialismo feudal” a posiçom de certa aristocracia francesa e inglesa oposta à nova hegemonia da burguesia, mesmo “aparentando defender os interesses da classe operária”, afirma. Logo a seguir, completa o quadro “cómico” desses críticos reacionários do capitalismo com o que chama “socialismo cristao”, em referência à aparência socialista do ascetismo clerical que, na verdade, nom passa de “água benta com que o padre consagra o despeito da aristocracia”. No caso japonês, a analogia possível seria com a aliança entre o campesinato e o espiritualismo feudal contra a modernizaçom capitalista e a padronizaçom do seu xintoísmo de Estado, da mao da burguesia ascendente.

 

As duras críticas do autor do Manifesto a essa reaçom conservadora frente à sociedade burguesa nom impedírom que tanto ele como Engels lessem e louvassem grandes autores da sua época que, no ámbito literário europeu, cumprírom um papel ideologicamente semelhante. Marx admira o francês Honoré de Balzac ou o escocês Walter Scott, representantes artísticos da aristocracia decadente, pola capacidade de representarem, com alta qualidade literária, a decadência da sua classe, sem que as respetivas ideologias conservadoras lhes tirassem, a olhos de Marx, o mérito de refletirem a mudança de época melhor do que os historiadores coetáneos.

 

O mesmo nom pode dizer-se da recriaçom do Japom da revoluçom burguesa refletida na referida produçom de Edward Zwick, que pom o foco no papel norte-americano no conflito interno japonês, além de idealizar as condiçons de vida camponesa, num exercício descabido e irrealista. De facto, a tentativa de paralelo com a história doutro filme de Hollywood, ‘Danças com lobos’, de Kevin Costner (1990), induz à mais grossa manipulaçom histórica e ideológica: a de pretender implicitamente umha equiparaçom moral entre a sociedade rigidamente classista/clánica do Japom feudal e a sociedade igualitária do povo caçador-coletor Sioux – Lakota, da América do Norte, vítima do implacável genocídio aplicado polo colonialismo anglo-saxónico na altura.

 

Importa aqui, nesta mínima apresentaçom de um aspeto da teoria do fundador do socialismo científico, sublinhar a veia ideológica que sustenta esse contrabando reacionário. Foi György Lukács que, no seu trabalhoMarx e o problema da decadência ideológica(1938), batizou com o nome de ‘anticapitalismo romántico’ o desenvolvimento dos referidos socialismos “feudal” e “clerical”, esboçados por Marx no Manifesto e que o próprio Lukács sintetizará como a soma de umha ética de esquerda e umha epistemologia de direita.

 

Foi György Lukács que, no seu trabalhoMarx e o problema da decadência ideológica(1938), batizou com o nome de ‘anticapitalismo romántico’ o desenvolvimento dos referidos socialismos “feudal” e “clerical”

 

Na verdade, tanto Marx como Lukács explicárom como essa reaçom anticapitalista tinha umha componente aristocrática, da parte da classe despojada dos seus privilégios pola ascendente burguesia. Porém, na epígrafe seguinte do Manifesto a que acima figemos referência alude também ao “socialismo pequeno-burguês” para explicar a posiçom de setores da pequena burguesia desfavorecidos polo desenvolvimento do capitalismo e que, em aliança com o pequeno campesinato, defendem as tradiçons agrícolas e oponhem-se ao desenvolvimento industrial. O próprio Marx cita o economista Jean de Sismondi como referente teórico desses socialistas románticos que, analisando as conseqüências dissolventes da sociedade antiga realmente decorrentes da produçom moderna, aspiram à utopia reacionária de regressar ao regime de produçom anterior.

 

Ambas as correntes utópicas a que aludimos tivérom continuidade, metamorfoseadas, até hoje.

 

-Do lado reacionário, como ingrediente das ideologias características de países com regimes surgidos da incorporaçom serôdia ao capitalismo. Os casos típicos som a Alemanha, Itália, Japom… Nazismo, fascismo, saudosismo, integralismo, misticismo e outras visons románticas de direita formam essa família. Também o nacional-catolicismo e outras correntes tradicionalistas espanholas, onde um setor importante das classes dirigentes tradicionais atrasou a revoluçom burguesa e mantivo um importante poder mesmo depois da sua arribada.

 

Malthus, Schelling, Kierkegaard, Nietzsche, Heiddeger, Ortega y Gasset… som referentes de diversas variantes dessas correntes irracionalistas e críticas totais ou parciais do capitalismo com perspetivas reacionárias, orientadas primeiro contra a burguesia ascendente e, a partir da Comuna de Paris e no esplendor do imperialismo, contra o proletariado.

 

-Do lado da esquerda, a idealizaçom de um passado pré-capitalista de carácter comunitário, rural e igualitário está presente já no genebrino Jean-Jacques Rousseau, seguramente o seu representante mais progressista, numha altura em que a burguesia ainda era ou podia ser revolucionária. Também o “utopismo reformista” das cooperativas anarquistas de Pierre-Joseph Proudhon, massacrado por Marx na ‘Miséria da filosofia’ (1847).

 

Além do próprio Nietzsche, autores do campo liberal como Max Weber ou Ferdinand Tönnies darám “muniçom” à nova esquerda. Marxistas románticos como Walter Benjamin, existencialistas como Jean Paul Sartre, intelectuais da heterogénea Escola de Francfurt como Herbert Marcuse, pós-estruturalistas como Michel Foucault, reconhecidos pós-modernistas como Boaventura de Sousa Santos… desenvolvem teorias mais ou menos irracionalistas e/ou influídas polo anticapitalismo romántico.

 

Diferentes características integram a tendência romántica do anticapitalismo esquerdista: moralismo abstrato, empirismo praticista, volta à natureza, reivindicaçom do passado comunitário e rural, oposiçom à indústria, anti-iluminismo, antimodernidade, contracultura, irracionalismo, ativismo, subjetivismo, voluntarismo, essencialismo, niilismo… trata-se de um amplo leque de tendências, nem sempre coincidentes nos mesmos autores e coletivos, que hoje virárom hegemónicas no que podemos chamar “esquerda alternativa”, incluindo o new age e outras famílias herdeiras de derrotas como a do Maio do 68 ou a queda do Muro de Berlim e o fim do Campo Socialista. Umha hegemonia que se manifesta em todo o seu “esplendor” na chamada pós-modernidade, negadora dos grandes princípios da esquerda revolucionária, relativizadora da centralidade das luitas de classes e defensora da fragmentaçom extrema de cada luita parcial, de cada grupo oprimido frente ao capital. No fundo, assumindo a impossíbilidade de umha superaçom histórica do sistema, as correntes a que aludimos limitam as suas aspiraçons a construir ilhas de conforto grupal, sem questionarem a hegemonia burguesa-capitalista, tentando assi abstrair-se do seu domínio, vista a dificuldade de derrotá-lo.

 

Poderá parecer que escapamos à exposiçom da teoria de Karl Marx, mas de facto ela surgiu como resposta crítica e radical à dispersom das diversas variantes socialistas a que aludem as páginas do Manifesto Comunista que nos servírom de ponto de partida para estas linhas.

 

Se a versom de direita do anticapitalismo romántico acabou cristalizando na extrema-direita, constituindo-se numha variante burguesa útil para o disciplinamento social em torno da classe dominante, a sua versom de esquerda é representada por setores subjetivamente opostos nom só ao capitalismo, mas também à modernidade. Objetivamente, negam a possibilidade de superaçom do capital mediante as luitas de classes, situando no seu lugar um relativismo absoluto, plasmado numha série infinita de luitas “extraeconómicas” no nível “micro” das diversas opressons.

 

Em definitivo, e frente à alternativa de superaçom do sistema como avanço civilizacional, o romantismo subjacente em ambas as tendências, de direita e de esquerda, com as suas grandes diferenças, caracteriza-se pola procura no passado, e nom no futuro, da alternativa à barbárie capitalista.

 

O filme que nos serviu de escusa para apresentar este aspeto da teoria marxista é um bom exemplo dos pontos de contacto entre as variantes de direita e de esquerda do anticapitalismo romántico. Seguramente umha e outra poderám identificar-se com a exaltaçom da vida agrária, antimoderna e tradicional que na fita de Tom Cruise é idealizada como expressom romántica e velada das velhas relaçons sociais de produçom e dos privilégios das velhas castas dominantes da atraente cultura japonesa.

 

Ao contrário, a teoria revolucionária de Marx parte já no primeiro capítulo do Manifesto do reconhecimento do “papel eminentemente revolucionário” que a burguesia desempenhou na história. De modo dialético, ela converteu-se no seu contrário umha vez instalada no poder, criando a sua própria negaçom ao “produzir” a classe chamada a superá-la: o proletariado. Só este, pola posiçom que ocupa no modo de produçom, pode acabar com a barbárie capitalista e liquidar as sociedades de classes. Tal nom significa que, em nome de um universal abstrato (a classe), se neguem as múltiplas opressons realmente existentes no capitalismo decadente. Trata-se, antes, de articular dialeticamente essa luitas com um objetivo globalmente unitário e revolucionário.

 

Insistamos mais umha vez a quem queira contrapor unilateralmente voluntarismo e mecanicismo: nom se trata de umha inevitabilidade, mas de umha necessidade possível. As derrotas que já fôrom impingidas à classe trabalhadora desde a sua primeira tentativa de “assalto aos céus” até cá, sem serem desconsideradas, perdem dimensom se tivermos em conta que o ascenso da burguesia demorou, no mínimo, o período que vai da primeira revoluçom inglesa, no século XVII, às últimas revoluçons burguesas (alemá, italiana, japonesa, espanhola...) ao longo do século XIX.

 

As derrotas parciais sofridas pola maior parte das tentativas de transiçom socialista ao longo do século XX deixárom, além de um retrocesso objetivo nos importantes avanços conseguidos pola classe trabalhadora e polos povos de todo o mundo, umha involuçom ideológica manifestada no relativismo absoluto e na atualizaçom dos velhos socialismos utópicos, hoje recuperados através das novas versons do anticapitalismo romántico.

 

Regressar a Marx é também reconhecer e criticar as variedades utópicas do socialismo na sua ressurreiçom pós-moderna.

 

Nota: podes reler aquí a entrega anterior desta serie de artigos.



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