Pode parecer um dramatismo excessivo, mas som muitas a evidências de que vivemos tempos de dissoluçom de toda umha civilizaçom, a burguesa-capitalista. Ao longo de vários séculos, ela tivo, como todas as civilizaçons históricas anteriores, a sua época de surgimento e de apogeu, vivendo na atualidade umha lenta, mas inexorável decadência que atravessa de maneira cada vez mais visível todos os poros da sua existência social.

A mais conhecida e patente das suas manifestaçons é a crise económica. Muito se esforça a ideologia ainda dominante em explicar-nos que se trata de umha crise episódica, mesmo subjetiva ou de “estado de ánimo”. Essa era a mensagem –lembrades?– daquela campanha de 2010 no Estado espanhol: “Esto lo arreglamos entre todos”. Financiada por 18 das maiores grandes empresas espanholas e através de umha série de caras amáveis do mundo do espetáculo, o seu objetivo declarado era “contagiar confiança e fomentar as atitudes positivas” como melhor via para deixar atrás a crise.

Apesar do forte financiamento de Telefónica, Repsol, BBVA e El Corte Inglés, entre outras, a propaganda ideológica tem os seus limites. Aquela campanha ajudou a difundir o “cidadanismo” e a amortecer as luitas de classes, o que nom é pouco, mas ficou longe do seu falso objetivo inicial: deixar atrás umha crise que, como já era evidente na altura, nom respondia a nengum problema de confiança ou autoestima, e sim aos limites históricos do próprio sistema, que continuam aí, diante dos nossos olhos.

A própria esquerda participa da decadente conceçom de vida burguesa

Porém, gostava nesta ocasiom de abordar umha outra manifestaçom bem ilustrativa da dissoluçom a que aludia mais acima. Refiro-me a como a própria esquerda participa da decadente conceçom de vida burguesa, de maneira inevitável até que consiga enxergar primeiro, planificar depois e aplicar por fim, um programa alternativo de superaçom desta decadente civilizaçom.

A crise de identidade do que algum dia foi a esquerda revolucionária, derrotada nas suas diversas tentativas de superaçom do sistema capitalista, após tumultuosos e contraditórios avanços e recuos, manifesta-se principalmente na sua participaçom “crítica” na recuperaçom do sistema. O tema é suficientemente complicado para nom o despacharmos aqui num artiguinho como este, mas sim gostava de referir alguns exemplos de como a linguagem expressa a lamentável integraçom da nossa esquerda na cosmovisom burguesa.

Gostava de referir alguns exemplos de como a linguagem expressa a lamentável integraçom da nossa esquerda na cosmovisom burguesa

Desarmada de qualquer ferramenta teórica transformadora, as posiçons e referências da esquerda pós-moderna fam toda a diferença frente a qualquer afirmaçom de rutura revolucionária com o sistema, o que se mostra desde logo nas suas categorias programáticas.

Vamos comentar três que consideramos bem significativas.

A primeira renúncia destacável é a adoçom da “cidadania” como sujeito e referente político permanente da mudança que essa esquerda defende. O significado profundo de tam superficial etiqueta vai muito além da renúncia ao uso de categorias científicas como “proletariado”, “classe trabalhadora” ou a sua antagonista, “burguesia”. Na verdade, o esconjuro dirige-se à essência mesma da noçom de “classe social”, que na versom da esquerda dos nossos tristes dias ficou reduzida a vestígio arqueológico.

O que pode parecer um puro bizantinismo terminológico converte-se em porta aberta à ideologia liberal que, em nome do individualismo metodológico, pretende converter a sociedade numha coleçom de pessoas à procura da satisfaçom particular de desejos, base explicativa da teoria económica atual.

O esconjuro dirige-se à essência mesma da noçom de “classe social”, que na versom da esquerda dos nossos tristes dias ficou reduzida a vestígio arqueológico

Desaparecem assim do tabuleiro de jogo, numha só cartada, duas categorias imprescindíveis para umha compreensom cabal do funcionamento de qualquer sociedade de classes: a de “antagonismo” e a de “totalidade”. Deixam de fazer qualquer sentido tanto a luita coletiva com critério de classe como a visom da sociedade enquanto complexo integrado de determinaçons e interesses materiais ligados ao próprio papel de cada grupo na reproduçom social. A renúncia à compreensom global torna impossível umha abordagem política integral, que é substituída polos parches e medidas parciais dos governos “para todos”, com simpáticos programas de reformas que nada de substancial resolvem.

É claro que a reivindicaçom da “cidadania” tivo todo o sentido no capitalismo ascendente, ligado ao surgimento de umha nova sociedade marcada pola contradiçom central entre quem compra e quem vende a força de trabalho no mercado capitalista. Porém, umha vez universalizada tal contradiçom como motor da nova reproduçom social burguesa, carece de qualquer significado ressuscitar semelhante etiqueta, a nom ser que continuemos a pensar que um setor significativo da sociedade galega vive num sistema de tipo servil ou feudal. Tenhamos em conta que, de facto, o termo “cidadao/cidadá” inclui hoje na Galiza qualquer indíviduo de qualquer classe social que compra ou vende força de trabalho: tanto o dono de Inditex como a última das suas operárias exercem desse modo a sua cidadania. Todas elas som, portanto, cidadás ou cidadaos.

Umha outra referência anestésica que fai imenso sucesso nos tempos pós-modernos que vivemos é a de “pobreza”. Novamente, nom se trata de negar a existência da pobreza, nem muito menos de ocultar a sua significativa e crescente dimensom. O problema neste caso é que a exibiçom do efeito oculta por completo a causa e, nessa medida, retira do foco aquilo que deve realmente ser combatido: a “exploraçom”.

Questionar a exploraçom significa questionar radicalmente a própria reproduçom do sistema, o que nengumha esquerda “realista” está disposta a fazer nos dias de hoje

Convido quem isto lê a reparar a grande freqüência com que todo o tipo de partido, ONG católica, campanha instituicional e coletivo social reconhecem e denunciam a “pobreza” e, em simultáneo, a quase absoluta desapariçom de referências à sua causa, que nom é outra que a “exploraçom” e a desigualdade crescente que ela gera. O motivo dessa desapariçom parece evidente: a “exploraçom” é o núcleo duro do capital. Questioná-la significa questionar radicalmente a própria reproduçom do sistema, o que nengumha esquerda “realista” está disposta a fazer nos dias de hoje. Em lugar disso, fica no assistencialismo e na distribuiçom da renda, sem maiores pretensons.

A terceira das categorias pós-modernas que comentamos provém diretamente do campo da ideologia liberal dominante. Trata-se da figura do “empreendedorismo” como parte do programa de saída da crise proposta polo conjunto de forças políticas de todo o espetro parlamentar, incluídas as da esquerda.

Neste caso, a noçom remete, de umha parte, para o espírito do “american way of life”, situando a iniciativa particular e o autoemprego como melhor alternativa em tempos de crise, sem esperar que nem o Estado nem ninguém che solucione os “teus” problemas; e doutra parte, para a defesa dos pequenos capitais, da pequena empresa, como alternativa à hegemonia incontestável do grande capital.

Frente a ambos mitos, nom deveria ser necessário insistir na dupla falácia: a da saída individual mediante a conversom de cada trabalhador/a em autónomo ou pequeno empresário; e a da suposta alternativa progressiva do pequeno capital frente ao grande.

Um programa de esquerda deveria propor que a socializaçom crescente da atividade produtiva seja coroada pola socializaçom da propriedade

Para já, a própria dinámica do capital promove que a pequena empresa e o trabalhador autónomo colaborem barateando o custo de produçom mediante a autoexploraçom ou a pressom sobre os salarios do seu pessoal, geralmente bem inferiores nas pequenas empresas do que nas grandes, pola menor margem objetiva para a extraçom de mais-valia.

Doutra parte, o próprio desenvolvimento histórico do capitalismo implica desde o seu nascimento a imparável concentraçom e centralizaçom do capital, tornando inviável o regresso a fases historicamente superadas, de livrecambismo e pequena escala produtiva. Um programa de esquerda deveria propor que a socializaçom crescente da atividade produtiva seja coroada pola socializaçom da propriedade, mediante umha determinante intervençom pública na economia, e nom a intervençom em defesa de uns capitalistas “bons” contra outros “maus”.

A lista de conceitos, categorias e práticas que delatam a integraçom da esquerda política atual no sistema que tinha combatido é muito ampla e mostra bem a dimensom de umha derrota histórica. Porém, julgo os três exemplos brevemente comentados significativos da nossa incapacidade coletiva para fazermos frente a sério à crise estrutural do sistema da única maneira efetiva: com a imprescindível reconstruçom de umha esquerda que, com todas as mediaçons e luitas parciais que forem necessárias, aponte para a superaçom histórica do capital, um modo de produçom agonizante que deve ser definitivamente relegado.