O franquismo, tanto com como depois do ditador, utilizou duas claves para manter-se no poder: o terror e a desmemoria. O terror não rematou com a vitória dos revoltados senão que prosseguiu por muitos anos, seguiram os assassinatos, ajustizamentos, desaparições, requisa de bens, denegação do inimigo, morte civil, estranhamentos, perda de empregos ou impossibilidade de exercer as titulações obtidas, depois o mais subtil rejeitamento a aqueles que não eram afetos ao regime, exclusão social, dificuldade para obter postos de funcionários públicos, despedimentos laborais, vigilância e controlo policial e já não digamos se ao teu morno sentimento nacional católico unias evidencias claras ou aparentes de tua laicidade.

Que outra cousa é a Lei Mordaça? Mantenhem a desmemoria  ferreamente, mas começa a sair do seu controlo

O emprego do terror manteve-se, as ameaças de males maiores, o desterro, a entrada da policia não só em domicílios, espaços públicos que também em Universidades, empresas e incluso em alguma igreja; a desmemoria e a ocultação persistiam. O terror continuou ainda com posterioridade á morte do ditador e com brotes na atualidade. Que outra cousa é a Lei Mordaça? Mantenhem a desmemoria  ferreamente, mas começa a sair do seu controlo,  tratam de suster a desmemoria do 36 e seguintes e vão perdendo a luta da publicidade do que ocorre cada dia, que tentam substituir com as noticias falsas que proliferam entre jornais e  redes sociais e informativos digitais.

Ainda hoje temos a centos, tal vez milheiros, de mortos nas cunetas que não podem repousar á beira de seus seres queridos ou polo menos ter uma tumba com identificação. Mas levamos quarenta e quatro anos lembrando a Moncho Reboiras  no cemitério onde repousam seus restos em Imo, e no Ferrol onde foi assassinado a tiros. Provavelmente nem o imaginava o stablismem. Perderom a luta pô-la ocultação no assassinato de Moncho Reboiras. O de Moncho Reboiras foi uma morte sem sentido, totalmente desnecessária, exemplo da incompetência e do medo da Policia BPS, Policia Armada e Policia Municipal, em número de mais de 200 agentes segundo as fontes da época, que tendo localizados e cercados a Reboiras e outros dois militantes da UPG, designadamente Elvira Souto e Lois Rios, numa vivenda do bairro de Canido, no Ferrol fugissem dois de eles e que o terceiro, Reboiras, igualmente os despistasse, até que foi localizado e refugiou-se no portal de casa núm. 27 da Rua Terra, que daquela se chamava de José Antônio. Incompetência e medo que os pagou caros Reboiras.

Sabia de Reboiras e da sua atividade e igualmente ele saberia de mim, pois naquela altura eu era o único advogado com que contava a UPG

Penso que qualquer morte é inútil, a não ser em defesa própria, e que ante situações limite também existem medidas limite. Não conheci a Moncho Reboiras pessoalmente, tal vez porque naquela altura recrudescera-se a repressão e consequentemente reforçara-se a clandestinidade. Sabia dele e da sua atividade e igualmente ele saberia de mim, pois naquela altura eu era o único advogado com que contava a UPG, além de alguma colaboração com colegas da órbita do PSG. Ainda há pouco um home se me acercou para saudar-me porque polos anos de 1975 era aprendiz em Citroem e dí que todos os obreiros revolucionários nacionalistas levavam anotado o número de telefono do meu escritório por se se produzia alguma detenção.

Reboiras era um mozo que todo o que conseguira foi devido a seu esforço e trabalho. De ajudar no bar da sua casa chegou á Universidade, sensível á exploração obreira, á falta de liberdades, ao estado de dependência de Galiza, aleccionado polo Pai Seixas (a quem devemos reconhecimento pô-la sua labora de concienzação na juventude de aquela época) já foi estudante reivindicativo, rematou o que atualmente se chama Engenheiro Técnico Industrial; entrou no estaleiro de Barreras do que saiu por mor da sua intervenção destacada na chamada “folga de setembro-1.972”, depois em Alvarez e incluso no seu afã de relacionar-se e fazer proselitismo e consciènciar á classe operaria chegou a entrar como simples obreiro no complexo fabril de Intelsa.

Ninguém deveria morrer fora do seu tempo, menos Reboiras, um mozo cheio de ilusão, de energia, de solidariedade, de amor á sua nação, á sua língua, as suas gentes

Ninguém deveria morrer fora do seu tempo, menos Reboiras, um mozo cheio de ilusão, de energia, de solidariedade, de amor á sua nação, á sua língua, as suas gentes, um rapaz que só pretendia um futuro melhor para este pais. Como titulado em engenheira industrial constituía um valor superior para o desenvolvimento industrial galego, firme nas suas convicções revolucionarias de liberação nacional, autodeterminação e defensa da língua, defensa do proletariado, heroico e abnegado, solidário com seu povo e especialmente com a classe proletária que pretendia dignificar e liberar. Foi especialmente ativo, poderíamos dizer que foi o motor que impulsou e incluso se implicou na criação do Sindicato Obreiro Galego, das Comisions Labregas ou de ERGA. Inteligente, astuto, e escurridizo conseguiu durante muito tempo burlar aquela temida BPS a pesar de estar fichado e reconhecido como alentador de todas, não puderam impedir que as mobilizações obreiras e revolucionarias de aqueles anos saíssem á rua.

Há um tema no que sempre tive duvidas porque também as informações são diversas, que é o da luta armada. Assim como tenho a certeza de que a UPG, inicialmente integrada por estudantes, profissionais, pequena burguesia... sofreu um giro proletário com Reboiras, seu liderado e seu poder de organização, no tema da luta armada, sua dimensão e futuro, penso que nunca houve intenção firme de constituir um grupo armado, ou polo menos isso era o que se comentava entre nos, gentes da órbita da UPG, mas sem militância ou polo menos sem intervenção nos órgãos de decisão; eu mesmo, que defendi em juízo á meirande parte dos detidos com motivo de essa suposta luta armada, a conclusão a que chegava depois das conversas com eles era que o único que se pretendia eram golpes económicos, expropriações, para obter financiamento para os múltiplos gastos que se ocasionavam com pagamento de multas, depósitos de fianças, ajuda a famílias de afetados e quantiosos gastos judiciais, pois ainda que eu nada cobrava polo meu trabalho, sim se me restituíam as despesas e quantidades correspondentes a deslocamentos (Madrid, Segovia, A Corunha, etc.) e similares.

Baixo meu ponto de vista, acreditam isto precisamente que dos três militantes que se topavam em Ferrol o dia 11 só um deles, Reboiras, levasse um arma, que não haja noticia de possíveis campos de entreno, que não existissem folhetos ou manuais para este tipo de atividades, que não houvera enfrentamentos com a policia, etc., ainda que Reboiras e algum sector muito minoritário da UPG matinasse sobre esta possibilidade e incluso houvesse discussões ao respeito e contatos com o LUAR português.

Na manha do dia 12 estou em Vigo, acorda-me o telefono e uma voz, que não reconheço nem ainda hoje sei de quem era, alerta-me que tome medidas

Pois bem, que passou essa tarde/noite/madrugada do 11 ao 12 de agosto do 1975? Na manha do dia 12 estou em Vigo, acorda-me o telefono e uma voz, que não reconheço nem ainda hoje sei de quem era, alerta-me de que detiverem em Guntim a Marisa Vázquez, Manolo de Remesar e Brañas, que se estão praticando muitas detenções e que tome medidas e trate de enteirarme nos julgados qual e a situação dos detidos. Mudo de vivenda, fecho o escritório, comprovo a través do Colégio de advogados de Vigo que existe uma ordem de registo do meu despacho profissional, igualmente por médio de amigos, colegas e funcionários judiciais, incluso algum membro da policia, vou-me fazendo uma ideia das dimensões do operativo policial montado em diversas cidades e vilas.

Todas as pontes com os órgãos de direção do partido ficam choidas, os contatos com outros militantes ficam cheias de dificuldades, há uma confusão enorme, a militância trata de agachar-se ou passar a Portugal. Intenta a Policia levar a cabo o registo no meu escritório, mas a renuencia por parte da Xunta de Governo do Colégio para comparecer e a necessidade que haveria, dado que o escritório ficava fechado e eu desaparecido, de decerrajar a porta, desanimou a praticar o registo, no que, por outra parte, a peza principal penso que não era eu senão Xesus Sanxoas (jovem advogado, ativista desde seus tempos na Universidade e que naquela altura colaborava no meu escritório de Vigo).

É pouco mais tarde quando eu recebo uma mensagem de Paco Rodríguez para contatar com ele, que fora acolhido na vivenda de Pilar Allegue, em Pontevedra e fago um pouco de enlace com detidos, presos e fugidos. Imos tendo noticias de todos eles, mas que passou com Reboiras? Só sabemos que foi morto a tiros, que lhe negam o entrego de seu corpo á família para proceder a enterrá-lo, que negam incluso a entrega de seus efeitos pessoais e que todo o relativo a este feito se tramita, baixo secreto sumarial, no Julgado de Justiça Militar. Polo tanto carecemos em absoluto de qualquer dado respeito de como foi a sua morte; alguns jornais que dão a noticia falam de enfrentamento armado com a policia, falasse de suicídio, há médios que calculam em 200 e incluso 300 efetivos  que, a partir das  últimas horas do dia 11 e até as 2h do dia 12 em que os cominaram a entregar-se e posterior perseguição, participaram na operação policial, dirigidos pola BPS; neste requerimento de entrega já se produziu uma balaceira que sempre se imputou ao nervosismo dos policias intervintes que começaram a disparar indiscriminadamente.

Durante muito tempo nos faltou informação verídica e fiável do ocorrido entre as pouco mais de duas horas transcorridas desde a fugida de Reboiras polos telhados da vivenda na que se topava e ser alcançado de novo pela policia refugiado no portal da Rua Terra onde foi abatido. O sumario no Tribunal Militar foi arquivado ao não ficar apessoado ninguém e haver morto o suposto terrorista e definitivamente sobreseido, polo que tampouco tivemos acesso ás diligencias praticada, informes e demais. Como sempre, a ocultação para a desmemoria.

No ano de 1979 Francisco Carballo colaborou num livro coletivo de “Historia de Galicia” (AN-PG), assumindo Carballo redigir o capítulo correspondente a os últimos anos e referiu-se á morte de Reboiras manifestando que “... a Policia Española asesinou a Xose Ramón Reboiras, um dos dirixentes da UPG”, frase que aproveitou a policia para denuncia-lo por calunias; aberturou-se um sumario que foi arquivado mas, recorrido o arquivo, continuou a tramitação, assumindo eu sua defensa e imediatamente aproveitei para solicitar entre as provas propostas que se requeresse do Tribunal Militar copia do praticado nas atuações seguidas pela morte de Reboiras, alegando que para defender a acusação de calunia precisava demostrar que o feito imputado era certo. Remitiram-nos o expediente e pudemos comprovar o cúmulo de falsidades tanto no declarado pela policia no processo de Carballo como nos comunicados á imprensa no momento dos feitos. Lamentavelmente o expediente completo, incluso o correspondente ao processo de Carballo do meu escritório, desapareceu no incendo do escritório de um colega a quem eu havia prestado. Mas se houvera investigador ou historiador que tivera interesse nele poderíamos obtê-lo na Audiência provincial de A Coruña, nos seus arquivos.

O certo era que o corpo de Reboiras estava no interior do portal com um tiro na caluga que, ao parecer foi o que o matou

De qualquer jeito a policia havia declarado que o corpo de Reboiras estava fora do portal com a mão estendida, confundindo esquerda com direita, rente da pistola, como se houvera saído pegando tiros. O certo era que o corpo de Reboiras estava no interior do portal com um tiro na caluga que, ao parecer foi o que o matou, e vários na espalda e a porta do portal totalmente acribilhada. A pesar de todo Carballo foi condenado (anedoticamente, Carballo, segundo me confessou, na redação original havia escrito que Reboiras foro “abatido” pola policia e foi o editor o que mudou de abatido a “asesinado”, circunstancia que Paco se negou a utilizar na sua defensa). Os policias intervintes nem forem investigados; mais bem premiados por dar morte a um perigoso terrorista que tinha em carteira cometer novos delitos.

Foi a partir da sua morte, e muito especialmente a partir do conhecimento em 1980 de como havia ocorrido, que um dos pilares, o do ocultamente e desmemoria, comezou a debilitar-se  A memoria avivou-se e Reboiras passou a converter-se num referente histórico do nacionalismo galego. O terror, mais ou menos morno, continua. As avançadas do franquismo ou do fascismo franquista do PP e o Joseantonianismo do Cs, cada vez mais desinibidas, dam paso á sua ala dura, sem complexos, que se chama VOX e que necessita armas como as necessitou José Antonio que invocava a dialética dos punhos a das pistolas e como, sem piedade, as utilizou Franco.

Moncho, não acredito no mais alá, polo que não tem sentido desejar-te um repouso em Paz, e porque tampouco ficas morto em tanto vivas na nossa memoria, na memoria de todos, na memoria histórica e mentras nesta nação galega haja pulso de dignidade nacional que mantenha vivas as arelas de liberdade.