A Espanha bourbônica ve cair o pano

Ramiro Vidal - Escritor


Lembro um 25 de Julho no que, trás o almoço no Campus Sul de Compostela, numha daquelas jornadas reivindicativas nos tempos nos que eu militava em NÓS-UP, ter assistido a umha disertaçom do Iñaki Gil San Vicente sobre o direito de autodeterminaçom. Este direito, contava ele, é a essência mesma da liberdade, pois nom pode entender-se que há liberdade se os colectivos e os indivíduos nom temos a capazidade de escolher em cada momento sobre o que queremos fazer, assomindo a responsabilidade e as conseqüências das nossas decisons de maneira plena. Punha exemplos tam quotidianos e compreensíveis como a assembleia operária que decide ir à greve, ou a mulher que trabalha na casa e que decide a umha altura da jornada interromper as tarefas que atende habitualmente para dispôr do seu tempo e combinar por exemplo com as suas amigas para tomar um café.

Isto pode-se trasladar a contextos mais amplos... por exemplo um estado que decide abandonar umha estructura supra-estatal como a UE, como foi o caso do Reino Unido, ou um país sem estado que escolhe independizar-se da sua metrôpole. A democracia é isso, que o povo decida com todas as conseqüências. E assomindo o acertado ou o errôneo da decisom. Nem mais, nem menos.

A classe política espanhola é inimiga desse conceito de democracia. As palavras do Pedro Sánchez valorando o por alguns inesperado resultado do referendo do Brexit som bem expressivas do conceito que no “Planeta PSOE” tenhem da democracia manifestada no uso de umha das ferramentas mais democráticas que há enquanto a participaçom política: “Isto é o que acontece quando deixamos em maos dos cidadaos decisons que tenhem que tomar os políticos”. Claro, se deixamos ao povo votar podem sair vencedoras propostas que vam em contra dos interesses aos que realmente servimos... isso é o que está a expressar. Também lembro as palavras de Esperanza Aguirre numha ocasiom a falar contra as assembleias abertas do 15-M: “Quero recordar que estamos numha democracia re-pre-sen-ta-ti-va”... ante tudo, nunca reconhecer a legitimidade de qualquer expressom de democracia fora desses templos do espectáculo da política profissional onde eu me manejo com soltura e me sento blindada e protegida para decidir por todo o mundo, mesmo em contra dos direitos da maioria.

Se deixamos ao povo votar podem sair vencedoras propostas que vam em contra dos interesses aos que realmente servimos...

 

Quantas vezes teremos escuitado que a acçom dos piquetes de greve é anti-democrática? Os piquetes substituim às assembleias em muitas mais ocasions das que pensamos. As assembleias que em muitos centros de trabalho nom se podem nem celebrar e que teriam que ser os órgaos democráticos polos que todo trabalhador ou trabalhadora teria que conhecer os motivos de umha greve para poder decidir se a apoia ou nom.

Quantas vezes teremos escuitado que decidir os investimentos de umha câmara municipal numha assembleia vizinhal é anti-democrático? O problema disso que certas correntes da esquerda começarom a chamar há anos “caste” (e o termo nom é tam desencaminhado) é o medo a ver-se superados pola realidade e comprovar que eles nom representam a vontade popular e que isso é o pior que lhes pode acontecer.

Catalunya é o cruel espelho no que os políticos do regime espanhol temem ver-se reflectidos. O único que representam Pedro Sánchez, Rajoy, Soraya Sáenz de Santamaría, María Dolores Cospedal, José Bono, Susana Díaz, Pablo Iglesias, Celia Villalobos, Albert Rivera... e qualquer nome da política estatal agora mesmo nesse país é a impotência. A mídia espanhola insiste muito em apresentar aos líderes políticos cataláns como caudilhos enlouquecidos que conduzem aos seus seguidores ao abismo. A democracia representam-na os rostos de umha elite política espanhola incapaz de finiquitar a “transiçom”. A Constituçom Espanhola, os Pactos da Moncloa e tudo o derivado dessa apoteose da democracia som limites intocáveis, inamovíveis e infinitos. E se queres superar essas linhas, estás a convidar a que fantasmas que permaneciam durmidas nas últimas décadas entrem de novo pola porta.

A negaçom do direito a decidir, mesmo por lei, em nome da soberania única, a negativa via dogma de mudar essa realidade, dá como resultado o estado de ânimo na sociedade catalá de hoje. Depois, evidentemente, cada comunidade política, cada sigla, cada classe social, cada grupo de pressom joga as suas cartas. Mas o problema político é esse, o auto-colapso de um regime que rebenta pola questom nacional, num momento no que umha maioria social ampla reclama que queremos fazer o nosso caminho pola nossa própria conta, sem a tutela de ninguém. O regime de 78 é perfeito, portanto intocável, afirmam alguns... pois a rigidez provocou a quebra...nom sabem muito os apologetas do regime de resistência de materiais.

Catalunya é o cruel espelho no que os políticos do regime espanhol temem ver-se reflectidos

 

A monarquia, a classe política, os banqueiros, a elite econômica em geral invocam à repressom no nome da democracia... estám em pânico porque vem de perto o final do regime bourbônico... primeiro a ferida será Catalunya, depois virá o falho multi-orgânico com o aguçamento das contradicçons no resto do estado. Vai cair o pano no teatro de 1978, e vai-no fazer em forma de desastre. O show toca ao seu final e para alguns começará a tragédia.