A linguagem política pretende muitas vezes, em vez de transmitir uma mensagem diáfana e clara, encobri-la

A linguagem política pretende muitas vezes, em vez de transmitir uma mensagem diáfana e clara, encobri-la, agachá-la e disfarçá-la para fazê-la mais recetível polo destinatário, com uns efeitos que podem ser mui perturbadores e terminar semeando a desilusão na cidadania, e inclusive representar uma traição aos que se diz servir. Os políticos aproveitam-se freqüentemente da credulidade e pouca capacidade de defesa duma cidadania muitas vezes desinformada ou insuficientemente informada para meter-lhe gato por lebre, porque o caso é ganhar as eleições e não os métodos utilizados para conseguir este fim. Isto é o que se quer fazer com o povo galego, muito menos lúcido politicamente que o catalão ou o vasco, o qual explica, em grande parte, o nosso devir histórico-político, até o momento desafortunado. Em Catalunya creio observar uma grande dissintonia de Pablo Iglesias com o povo catalão e os seus resultados parece que não serão boiantes [este artigo foi enviado ao Sermos antes dos comícios, nota da Redação], e careceria de sentido que algum partido político nacionalista catalão se entrega-se atado de pés e mãos a um partido nacionalista espanhol em aras dum resultado eleitoral imediato. Igualmente, algo parecido podemos dizer dos partidos nacionalistas vascos.

Anova e Esquerda unida já têm experiência provada na manipulação da cidadania com o invento de AGE, no qual Anova, carente da mais mínima infra-estrutura e convertida num puro fruto mediático, quiçá com o único objetivo de desacreditar o BNG, se converteu em sacristão de IU, também, agora, numa fase de clara decadência política e eleitoral e e com um grande divisionismo interno. O seu êxito eleitoral foi sobressalente mas a prática política da Alternativa foi o maior fracasso de nenhuma formação política desde que se criou o sistema autonômico.

Não podiam comparecer com esta carta de apresentação a umas novas eleições. Por outra parte, Podemos está a perder influência a olhos vista no eleitorado, polos seus câmbios de mensagem e pola sua chularia madrilenha, que parece que vai comer o mundo e que reduz os demais ao papel de reserva indígena incapaz de captar o devir histórico. Eles são os que sabem e os que devem marcar o passo e os demais corpo a terra. A deriva, por tanto, destas formações necessitava um salva-vidas, e a solução creram encontrá-la num matrimônio de conveniência, no que a prejudicada é a noiva denominada Galiza. Operaram com o BNG igual que fizeram com Compromisso por Galícia, de cara ás autonômicas, á que marearam até a última hora para após eleger a confluência com os social-comunistas espanhóis.

"O nacionalismo de Anova é mais bem um reclamo eleitoral que uma convicção firme, como se prova claramente pola purga de Cerna, o setor nacionalista que convivia no seu seio"

Por outra parte, o nacionalismo de Anova é mais bem um reclamo eleitoral que uma convicção firme, como se prova claramente pola purga de Cerna, o setor nacionalista que convivia no seu seio. O seu selo é hoje o social-ecologismo desenraizado da identidade nacional galega real e concreta, que deveria ser o norte da sua atuação, o qual explica que optassem polo pólo esquerdista e postergassem o pólo nacionalista, pretextando que, neste momento de crise, é prioritário, como se fossem excludentes e como se um grupo parlamentar autenticamente nacionalista de esquerdas fosse um obstáculo para coligar-se com uma alternativa de esquerdas a nível do Estado. Parece que em Anova não sabem assobiar e montar a cabalo ao mesmo tempo. Esquecem que a esquerda consolidada no poder, por muito que pregasse e incluísse o direito de autodeterminação na constituição, sempre o invalidou na prática.

No dia de ontem [refere-se ao 25 de setembro, nota da redação], anunciaram as três formações: Podemos, Anova e IU, um acordo de princípio, elaborado e aprovado polas cúpulas partidárias á margem de toda participação da cidadania, á que diziam dar a prioridade e ser motores principais, convertendo a expressão «unidade popular» na maior fraude dos últimos tempos. Em realidade, a unidade popular não existiu mais que como um reclamo eleitoral na mente dalguns para pescar incautos. Nesse acordo, surpreendentemente, deixam na sombra a principal exigência do BNG, que se trate de formar um grupo parlamentar próprio submetido aos ditados da do povo galego e não do povo espanhol. Isto indica que a confluência entre as duas plataformas, o Encontro e a Iniciativa, fica invalidada na prática, porque os partidos já decidiram praticamente todo, e o que fizeram os do Encontro afirmando que era necessário tratar o câmbio de metodologia, etc, não era mais que uma tática para ganhar tempo.

"A confluência entre as duas plataformas, o Encontro e a Iniciativa, fica invalidada na prática, porque os partidos já decidiram praticamente todo"

Agora, do que se trata é de mistificar a linguagem para apresentá-la como assumível polo eleitorado, e, para isto, um dos vetores importantes é conservar o pedigree nacionalista de Anova, por puro marketing eleitoral, e de ai que a primeira mensagem ao eleitorado se baseie na legitimação da sua atuação apelando nada menos que a Castelao, esquecendo que Castelao nunca priorizou as formações espanholistas sobre as galegas e tronava contra Risco pola sua teima em dividir o nacionalismo galego. A primeira mensagem que lançam consiste em afirmar que só participarão numa confluência "com quem aceite que Galiza é sujeito político soberano", o qual de cara á galeria soa mui bonito e, na prática, não obriga a nada, ao igual que o que acrescentam a seguir, que "só renderá contas ao povo galego", compromisso que podem assumir perfeitamente o PPG ou o PSdG. O que fica já claro é que renunciam a que o povo galego tenha um grupo parlamentar próprio, seguindo o guião traçado polo amo madrilenho, que diz que já decidiram em Vista Alegre que todos têm que ir sob o pára-chuvas de Podemos, como se isso fosse já um dogma de fé imutável ainda que existisse vontade política de fazê-lo. Aos catalães não foram capazes de fazer-lhe tragar tal indignidade, mas sim á formação do velho Beiras, que tolea por ir a Madrid, ainda que seja só sob as ordens do de Valhecas, e sem conseguir para Galiza grupo parlamentar próprio. A informação jornalística não deixa lugar a dúvidas: "Tanto Anova como Podemos coincidem em que esse não deve ser o objetivo fundamental ante um regime «que não vale», ainda que também insistem em que se articularão todos os mecanismos para fazê-lo possível, algo que condicionam a uma maioria ruturista na Câmara e na Mesa do Congresso. «O grupo próprio sem uma quebra do regime não vale, é preciso um câmbio importante da correlação de forças". Por tanto, Galiza deve ser sujeito político soberano mas sem os instrumentos para poder defender essa soberania, quer dizer, políticas próprias, salvo que o Grande Chefe lhe conceda uns minutinhos quando o que vão defender passou o seu filtro. Por outra parte, o PNV, Amaiur, ERC, CDC que tomem nota do invento. O que fizeram até o momento foi perder o tempo, e no futuro deveriam já acovilhar-se sob um pára-chuvas espanholista, e justificá-lo com o recurso a Sabino Arana ou a Prat de la Riba. Eis, a formação que se diz nacionalista galega, Anova, convertida num mero apêndice de Podemos, ad majorem gloriam de Pablo Iglesias. Uma autêntica mofa e uma estafa.

"Castelao nunca priorizou as formações espanholistas sobre as galegas e tronava contra Risco pola sua teima em dividir o nacionalismo galego"

A atuação do BNG até o momento foi mui inteligente, porque amostrou muita flexibilidade e permitiu derivar a responsabilidade do fracasso das plataformas na falta de vontade política por parte dos social-ecologistas galegos, mas creio que devem já desistir de confluir com quem não tem vontade política para fazê-lo. Do que se trata é de saber comunicar-lhe a realidade á cidadania galega.