Um fantasma percorre o mundo. Com certeza, percorre Europa, mas uma afirmação como essa seria hoje insuficiente, quando os satélites e as suas ondas irradiam continuamente para manterem o planeta tele-comunicado


Um fantasma percorre o mundo. Com certeza, percorre Europa, mas uma afirmação como essa seria hoje insuficiente, quando os satélites e as suas ondas irradiam continuamente para manterem o planeta tele-comunicado. Esse fantasma ainda não tem nome. Alguém chama-o de Decrescimento, alguém sugere etiquetas amplas, como ecologia radical ou profunda, alguém qualifica-o, mais suavemente, de apenas outro mundo possível. O esperável seria saudá-lo como mais um camarada, e entendê-lo como uma extensão da justiça social e a distribuição das riquezas naturais, embora convenha caminhar com cautela, visto que se acusa esse fantasma de não ser promovido por um autêntico grupo organizado e combatente, mas por apenas um corpúsculo de hippies come-flores.

Quando Marx anunciou o seu fantasma, quis apropriar-se dum termo, o de comunismo, que estava a ser manipulado por todas as forças da velha Europa para refutá-lo, salientando assim que já era reconhecido como tal e que corriam tempos de expor ao mundo inteiro os seus objetivos e tendências com um manifesto que acabasse com a lenda. Acho que não será incorrer em excesso usar a sua potente imagem e considerar que os desafios referidos à nossa relação com a natureza devem passar também, nesta hora e urgentemente, à fase de organização de estratégias.

Nada chega. Precisamos mais: mais fetiches, mais vestidos, mais carros, mais telemóveis de última geração, mais ipods e ipads e i-tudo

Tudo nasce neste caso duma crítica radical ao capitalismo e à sua principal criação: o simulacro da escasseza. Nada chega. Precisamos mais: mais fetiches, mais vestidos, mais carros, mais telemóveis de última geração, mais ipods e ipads e i-tudo. Precisamos tanto para mantermos a roda da produção da economia, dizem, quando não se atrevem mesmo a assegurar que precisamos tanto para ser felizes. A publicidade insinua que nas nossas casas tudo será harmónico e prazenteiro o dia que adquiramos o último modelo de eletrodoméstico, que os nossos corpos podem ser modelados à vontade no mercado da cirurgia ou da moda, que o futuro pode blindar-se com um seguro a todo risco. No mundo confortável que nos pinta o capitalismo, o ser humano aproxima-se perigosamente ao ser unidimensional de que falava Marcuse; alguém que se apaixona com a propriedade, com os objetos efémeros que descarta rapidamente. Traçar uma cadeia de acontecimentos, das consequências à causa primeira, é complexo e o tipo de mecanismos intelectuais implicados nesta tarefa é desconhecido para aquelas pessoas adestradas a olharem para a vida como espetadores de televisão. Adestram-nos para reduzir a existência a fenómenos sem conexão nem efeitos futuros. Convidam-nos, como dizia a Internacional Situacionista, para o dia depois da batalha, para contemplarmos o naufrágio e a confusão que nos rodeiam; não para tomarmos as armas e participarmos na alegria da subversão. Hoje, nas minúsculas interações diárias, para matricular-nos num curso ou adquirir um bem pequeno como um livro, a Internet exige-nos que detalhemos os números impressos no nosso cartão bancário, como se não pudesse existir neste mundo de cidadãos do regime, alguém que não tivesse trato com a banca. É evidente que, com tantos brinquedos a nosso dispor, estamos a esquecer o essencial. Porque num sentido último, as pessoas apenas têm o seu corpo e o seu tempo. A doença ou a morte hão de chegar algum dia para atentar contra o primeiro; o tempo já começa a esgotar-se quando se enuncia a palavra. Pois bem: o sequestro do corpo e do tempo para a produção é a perversão social que o decrescimento vem dinamitar. 

Convidam-nos, como dizia a Internacional Situacionista, para o dia depois da batalha, para contemplarmos o naufrágio e a confusão que nos rodeiam

O primeiro mandado militante é convencer: persuadir, difundir, chegar a uma massa ampla sem perder o entusiasmo perante as negativas. Mantendo a comparação com o fantasma do comunismo, o movimento em favor do decrescimento, em sentido económico mas nem só, está nessa fase. Porém, o caminho foi semeado de minas, de maneira que não se pode transitar sem as devidas precauções.

As línguas fornecem de extraordinários exemplos para pensarmos na realidade de maneiras alternativas. Adoro o exemplo do kalispel. Nesta língua ameríndia, falada ainda por uns poucos centos de pessoas, não se pode dizer 'lago' ou 'montanha'. Não é possível conceber os elementos da natureza como objetos, tal e como é habitual nas línguas indo-europeias. Não saberia decidir se seria o animismo o que criou uma gramática semelhante ou se, ao revés, foi a gramática a que produziu uma visão do mundo mais respeitosa com o meio natural. Que em kalispel seja obrigado expressar que a paisagem 'laguea' ou 'montanhea' é tudo menos anedótico; acho tal exemplo singularmente representativo de como Ocidente impõe a sua ótica fazendo-a passar por universal. Quem falar uma língua onde uma montanha é vista como um objeto, poderá dinamitá-la e extrair os seus minerais. Quem falar uma língua onde o rio é um objeto, pode pô-lo a trabalhar movendo uma turbina. Para quem montanhear ou laguear forem propriedades ontológicas da paisagem, no entanto, essas possibilidades ficam fora do nível de expectativas. Existe uma vinculação forte entre a concetualização da realidade das línguas indo-europeias e o industrialismo que, não por acaso, impôs Ocidente.

Deverá decrescer mais quem mais tenha abusado dos limites do planeta, admitindo mesmo a possibilidade de que alguns países tenham ainda que crescer

Ao recorrer a esta comparação entre línguas, pretendo refletir sobre o próprio termo decrescimento. Decrescer é o contrário de crescer. Por isso, com bons argumentos, os teóricos desta versão alternativa insistem numa proporcionalidade que não fica muito longe da repartição da propriedade nos termos marxistas clássicos: deverá decrescer mais quem mais tenha abusado dos limites do planeta, admitindo mesmo a possibilidade de que alguns países tenham ainda que crescer. A questão que surge cá é tão elementar como difícil de responder: Quem é que decide? Que tribunal haverá de praticar essa justiça distributiva? Essa é já uma pergunta pela hegemonia, que nos desloca para o segundo dever militante, tradicionalmente estipulado na conquista do poder, a tomada do Estado e o esmagamento da resistência burguesa.

Os referentes da teoria do Decrescimento, se é que pode falar-se nestes termos, tendem a ser pessoas de alto nível de formação, que moram em centros urbanos e, mesmo se podem ser exemplares no seu uso das energias e nas suas formas de adaptar estes princípios de auto-limitação às suas existências –nenhuma suspeita cá–, acham dificuldades em difundir as suas teorias por estas implicarem que outras pessoas tenham que voltar atrás, que reencontrar-se com um passado que davam por superado. Poderíamos completar o retrato dos teóricos decrescentistas, sem causar muita surpresa, a indicar que, em geral, são homens. Estes traços, grossos e sujeitos a exceção como toda generalização, apontariam para a consideração do decrescimento como uma ótica burguesa, algo que deve ser negado radicalmente. Na construção duma sociedade alternativa ao capitalismo, ao contrário, estes princípios de austeridade voluntária são fulcrais e profundamente revolucionários. Voltarei depois sobre isto, especialmente sobre a masculinidade, porque considero que as teorias decrescentistas procedem e/ou interatuam com as teorias e práticas eco-feministas.

O problema político para a alternativa decrescentista radica nas dificuldades para convencermos a maioria socia dumas mudanças que vão privar os indivíduos do que consideram a sua principal fonte de satisfação: o consumo

Na sociedade galega, e não será a única onde isto suceda, cada vez que se menciona o fantasma do decrescimento evoca-se uma volta ao passado que produz suspeitas. As reservas mais fortes provêm, aliás, de pessoas dum perfil contrário ao dos ideólogos do decrescimento: gentes de procedência camponesa ou proletária, geralmente de certa idade, que viveram a carência real de bens materiais duma maneira especialmente crua. Nalguma ocasião tenho-me pronunciado em termos decrescentistas e as críticas, nos jornais ou nas redes sociais, foram imediatas e diretas: “vai tu arar sem trator!”, mesmo se não cantava eu um passado idílico para o que regressar, nem pretendia fazer propaganda do arado romano. Que as simpatias para o decrescimento sejam menores entre a população rural, proletária ou feminina –quer dizer, que sejam precisamente as pessoas mais vulneráveis as especialmente contrárias a retroceder nos níveis de produção e consumo– exige refinarmos os argumentos. Porque quando Marx encorajava o proletariado mundial para unir-se, estava a oferecer em troca uma melhora das condições de vida. Se havia que esforçar-se na batalha, seria para libertar-se da situação de servidão a que estavam submetidas as massas trabalhadoras. Nesse sentido, o problema político para a alternativa decrescentista radica, a meu ver, nas dificuldades para convencermos a maioria social –numa massa tão significativa como para decidir o futuro da humanidade– dumas mudanças que vão privar os indivíduos do que consideram a sua principal fonte de satisfação: o consumo. Como este objetivo libertador é uma arma contra o capitalismo, como recupera a dignidade, como incorpora a relação com uma natureza submetida à exploração, não é compreensível que as reivindicações em favor do decrescimento não estejam entre as prioritárias das políticas transformadoras, a menos que o problema aponte que não se tenha incidido bastante em que essas restrições não se formulam só por adequar-se a uma preocupação espiritual ou a uma estética, mas para produzir felicidade, para mudar a realidade. E nos ideários políticos e económicos galegos faltam, em geral, referências ao Decrescentismo. Falta análise e falta debate.



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