É difícil convencer ninguém de comportar-se austeramente num mundo abastecido até a obscenidade.


É difícil convencer ninguém de comportar-se austeramente num mundo abastecido até a obscenidade. Mas, se o consumo fosse a felicidade, cumpriria reconhecer que a ideologia que sustenta o capitalismo fez bem o seu trabalho. Porque os níveis de consumo afetaram as nossas existências de maneira tão impercetível que não é fácil determinarmos quando se tornaram em abuso. Qualquer tarefa quotidiana pode dar a medida das mudanças que experimentamos nas últimas décadas. Hoje uma visita ao supermercado implica aceitar um excesso de envoltórios plásticos desmedido, implica desejar muito mais do que é naturalmente necessário para o sustento e, aliás, implica que, para encher a cesta da compra de produtos baratos, estes tenham de provir dos outros confins do planeta: os legumes dos nossos mercados chegam do México ou dos USA e, portanto, tiveram que transportar-se usando combustíveis fósseis, para além de armazenar-se durante meses, perdendo nutrientes. Declarar a insubmissão ao consumismo torna-se complexo porque o produto ecológico e de qualidade é sensivelmente mais caro. É o mercado e a sua perversão que está a determinar que a ecologia seja uma sensibilidade de gente “acomodada”. 

É o mercado e a sua perversão que está a determinar que a ecologia seja uma sensibilidade de gente “acomodada”

A nossa é a sociedade do desperdício. A sensibilidade ecologista vê-se afetada quando observamos a quantidade de plásticos que se descartam sem reutilização, mas o que se torna especialmente escandaloso é que uma boa parte das frutas que produzem os campos sejam também eliminadas por não terem o tamanho idóneo nos centros comerciais, ou por adotarem formas estranhas –a pataca em forma de coração, a maçã dupla–, que depois fotografamos nos hortos familiares e ficam tão engraçadas nas redes sociais. Em meio do consumo exorbitado e do megadesperdício, as mensagens decrescentistas têm algo de velha sabedoria: referem-se aos limites, à necessidade de fixarmos linhas vermelhas que não vamos ultrapassar. E de fazê-lo num sentido da responsabilidade que é uma marca de ética e de disciplina militante, alheia por definição ao prazer fácil. Não sendo uma resistência burguesa, o problema único estabelece-se em assegurar que esta linha de ativismo seja coletiva, que não fique reduzida a uma elite.

Eis, a questão da manipulação das mensagens. O retrato que pintam de nós, das pessoas interessadas pelo decrescimento, é patético. No fantasma mítico que percorre o mundo, se o teórico decrescentista era um homem sábio, embora pouco comprometido, a destinatária da ideia é uma mulher partidária da ecologia, excêntrica e ligeiramente snobe. A ecologista leva cabelo longo, viste descuidadamente com roupa folgada de estilo hindu e faz ioga. No mito, a ecologista é pouco disciplinada, ainda que defenda as suas crenças com teimosia de sectária. No mito, a ecologista não usa termos como luta de classes, transformação social ou independência: deixou de morar na urbe para ocupar uma aldeia e plantar leitugas e abandona todas as militâncias que lhe exigem um tempo não bucólico. No mito, a ecologista é ascética, acende pauzinhos de essências aromáticas e procura vias de enriquecimento espiritual. Essa série de imposturas destinadas a ridicularizar debilitam o perfil de todas as perspetivas ecologistas –o decrescimento é só uma entre elas–, sem terem que molestar-se em atacar a crítica principal que se está a formular: que não se pode crescer ilimitadamente num planeta finito, sobretudo quando os sintomas de esgotamento dos recursos são já incontestáveis. Se a urgência dos problemas é a que se está a apontar, se o petróleo tem os dias contados e a civilização vai colapsar, como asseguram [email protected] [email protected] [email protected], é momento de organizarmos a resistência duma maneira que implique a totalidade da sociedade. Obviamente, não hão de faltar visões inconscientes que se desinteressem pelo futuro da humanidade, ou interpretações otimistas emanadas dos poderosos centros de investigação sufragados pelo capital e prontos para defenderem os seus interesses. Mas, em certa forma, qualquer cálculo hiperespecializado sobra porque una análise minimamente honesta dos nossos modos de vida sugere que algo não devemos estar a fazer bem quando nos rodeamos de objetos sumptuários para viver uma vida apressada, onde vendemos tanta força de trabalho para termos tão pouco tempo de desfrute.

No mito, a ecologista não usa termos como luta de classes, transformação social ou independência: deixou de morar na urbe para ocupar uma aldeia e plantar leitugas

Ora, se quisermos organizar este movimento crítico, haverá que procurar os mecanismos. Nada em contra do hippismo, mas está-se a falar dum assunto prioritário e coletivo. E aqui damos com vários problemas. Duma parte, ninguém acredita que os estados ou as administrações, controlados pelos interesses financeiros, possam dar autênticos passos adiante. Boa parte do descrédito da ecologia procede, precisamente, de que sendo um movimento alternativo, o poder pretendeu fagocitar o seu impulso castrando-o. Foi por isso, e não por afã de reverdecer a sociedade, que se estabeleceram departamentos verdes e ambientalistas nos governos para impulsarem medidas cosméticas –como contentores de recolhida seletiva de lixo que não asseguram depois um tratamento acorde com o trabalho de seleção– sem mudarem o tipo de sociedade; sem transformarem realmente nada. A alternativa não pode ser individual ou ficar nas mãos dumas poucas pessoas sensibilizadas. Porque no melhor dos casos, estas apenas conseguiriam viver vidas mais acordes com a natureza, com consumos mais ajustados às suas necessidades... sem modificarem as grandes linhas políticas: as que decidem sobre os meios de transporte, sobre uma civilização baseada nos combustíveis fósseis ou na radio-atividade potencial de determinados elementos químicos que, necessariamente, hão de esgotar-se. 

Muitas das consciências implicadas em criar vontades novas estão, com efeito, a organizar-se. Aparecem cooperativas de consumo, eco-aldeias, cidades em transição. Conceitos relativamente recentes, como soberania alimentar ou comércio justo, integram-se nas nossas vidas. E, duma forma radicalmente democrática, cresce a ideia de auto-gerir, de exercer o controlo sobre as nossas decisões, uma vez que as instituições fizeram crescer a desconfiança. Sabotar os cultivos transgénicos, denunciar as empresas químicas e fito-farmacêuticas, evitar que nos arrebatem a água são medidas políticas, exercidas por um ativismo consciente. Boa parte desta tarefa chega da economia feminista, ausente no nosso nacionalismo, e que usa noções tão radicalmente revolucionárias como a duma vida que valha a pena de ser vivida, onde os cuidados que praticamos sobre tudo o que amamos se estendam também à natureza. Restringir o lixo, limpá-lo antes que contamine, fertilizar a terra com os nossos resíduos orgânicos são práticas tradicionais de todas as tribos humanas que esquecemos neste desenvolvimento atrapalhado das últimas décadas e evocam o mesmo estilo de esmero que dedicamos a cuidar das nossas crianças, ou a reservar um alimento para que possa ser comido mais tarde. Certo é que os discursos marxistas clássicos adotaram de forma preferente, que não exclusiva, retóricas de combate bem distantes deste discurso maternal. Certo é que muitas das mochilas políticas que trazemos penduradas das costas, e que constituem a nossa referência e a nossa inspiração, preferiram usar termos bélicos como luta, combate, conflito, poder, em vez de termos entranhados como cuidado, esmero, conservação ou nutritivo. Outra vez o assunto volta para as palavras: as metáforas com que construímos o mundo hão de compor o mundo que havemos de habitar. Se não posso bailar, não é a minha revolução, disse Emma Goldman. Pois, se não posso mimar, também não é.

Duma forma radicalmente democrática, cresce a ideia de auto-gerir, de exercer o controlo sobre as nossas decisões

Nos anos 70, o movimento Chipko dava início a uma luta feminista fora dos focos habituais. Em Uttar Padresh, na Índia, tentou-se implantar um mono-cultivo. A companhia que desenhava a proposta prometia dar postos de trabalho aos homens ocupando as suas terras. E as mulheres levantaram-se em contra porque sem o seu horto doméstico, sem as árvores de fruto que davam duas colheitas cada ano, não poderiam alimentar aos seus filhos e filhas. Para evitarem a tala, ataram-se às árvores usando a única arma que as mulheres tiveram sempre ao seu dispor: o seu próprio corpo. Essa reivindicação insólita procedia de lógicas de cuidado, antes que duma prática militante habitual e, contudo, era igualmente subversiva. Exemplos deste tipo repetem-se em distintos momentos em todas as nações colonizadas, mas nem temos que deixar-nos seduzir pelo ar exótico. Porque também nos clássicos achamos reivindicações fortes em defesa da natureza. F. Engels insistia: "Não reinamos sobre a natureza em modo nenhum, mas pertencemos-lhe com a nossa carne e sangue e com o nosso cérebro; estamos no seu seio, e o nosso domínio sobre ela reside apenas na vantagem que tiramos doutras criaturas por conhecermos as suas leis e servir-nos delas com bom juízo". E Marx não seria um anjo verde, mas também não um demónio da produção, visto que nos Manuscritos de 1857-58 inclui uma crítica ao produtivismo, quando nota que se está a desenvolver um consumo ao margem de novas necessidades sociais, sujeito unicamente à lógica automática do mercado. Temos, pois, o suficiente corpo teórico como para priorizarmos o decrescimento na ação política. 

E Marx não seria um anjo verde, mas também não um demónio da produção, visto que nos Manuscritos de 1857-58 inclui uma crítica ao produtivismo

Perante a magnitude dos problemas que devemos enfrentar, também não chega com desenhar um projeto para o executar nas administrações; devemos criar uma cultura política que permita o povo participar nas mudanças económicas, sócio-culturais e de sensibilidade vinculadas à nossa relação com a natureza. Isso implica pôr toda a nossa imaginação e a nossa força de trabalho ao serviço desse objetivo prioritário, revistando a ciência e a tecnologia, mas também os modelos económicos, os hábitos de consumo, o lazer e os transportes. Noutras palavras, a revolução decrescentista precisaria que nos aprestássemos a modificar as nossas existências para um benefício conjunto, aceitando uma boa base de auto-crítica e assumindo que muitos dos nossos costumes atuais podem precisar revisão. Fora da imagem de fantasma, a transformação decrescentista chegará de construirmos uma cultura ecológica de base popular, amparada no desejo de resistirmos frente ao capitalismo. Quando falamos em ecologia, aceitamos que os seres humanos partilhamos a biosfera com os demais seres vivos e com a paisagem e tratamos de instaurar um sistema de relações que nos faça participes desse sistema biológico, não seres dominantes que o submetem a exploração. Está na pura tradição de que bebemos a possibilidade de rejeitar esse papel de quem se apropriar do direito a subjugar o espaço que ocupamos e tudo o que se move nele. Nesse modelo, a maioria das propostas decrescentistas indicam que os compromissos terão que adquirir-se no interior de pequenas comunidades auto-geridas para fazer realidade a máxima de “atuar localmente, pensar globalmente”. Mas qualquer uma que seja a decisão final no que respeita ao modelo político, cumpre elaborar análises que ultrapassem o puro ambientalismo institucional e os problemas quotidianos da reciclagem ou o uso de pesticidas para decidir a energia que deve usar-se ou modificar as nossas atitudes para o valor não material de, por exemplo, rios e montanhas. A novidade é que essa cultura política terá em conta, para além dos interesses de classe, (a) os interesses não materiais dos seres humanos, (b) os das gerações por virem e (c) os interesses não humanos da flora, da fauna e o equilíbrio de habitats e ecossistemas. O processo é radicalmente revolucionário porque a sociedade no século XXI leva muito tempo mergulhada numa ideologia destrutiva do planeta, segundo o modelo de desenvolvimento ocidental que, contra todo respeito a outras realidades culturais, se implanta como o único possível. 

Na Galiza o apego à aldeia própria, à terra ou à paisagem é ainda um elemento sentimental importante; é sobre essa inclinação natural que é possível perfilar os nossos objetivos políticos

Na Galiza o apego à aldeia própria, à terra ou à paisagem é ainda um elemento sentimental importante; é sobre essa inclinação natural que é possível perfilar os nossos objetivos políticos. Muitas das atividades que realizamos nem produzem benefícios económicos nem estão sujeitas ao mercado: a dedicação à militância política de base, o ativismo da vizinhança, o cultivo das artes ou o cuidado dos seres queridos não se regem pelo oportunismo nem a convenção. Neste ponto devemos desterrar o ceticismo conservador que indica que as pessoas apenas são movidas pelo egoísmo. Os seres humanos, ainda narcotizados pelo consumismo e numa sociedade gerida pelo capitalismo mais feroz, somos altruístas. Doutro modo, não se explicaria que funcionassem os bancos de sangue ou continuassem os transplantes. Se deixamos em atividades filantrópicas o melhor das nossas vidas, será porque cultivar-se e cuidar [email protected] demais produz prazer. Em vez de assumirmos acriticamente os males todos do capitalismo, podemos dar-nos a oportunidade de adotarmos um estilo de vida menos opulento, de obtermos grandes satisfações de consumos materiais mínimos, os justos para garantir as nossas necessidades. Com efeito, devemos redefinir o conceito de necessidade para prescindirmos do sumptuário e, ao tempo, assegurarmos para toda a população a cobertura do que é preciso: esta mensagem libertadora não implica a austeridade pela austeridade, nem a austeridade dirigida ao serviço das classes dominantes que sai pela boca dos políticos conservadores; implica apenas esperar prazer doutras fontes.

Todos estes problemas, vistos na Galiza, ainda são mais contraditórios. Desapegamo-nos do mundo rural umas gerações atrás e temos bem aprendido que o campo é o lugar onde não devemos voltar, mesmo se tudo indica que o futuro está precisamente no tipo de sociedade que tradicionalmente construímos: vivendas rodeadas duma pequena extensão de terra onde seja possível exercer certa soberania alimentar e uma estrutura social de laços bem fortes, que permitam a cooperação. Como a nossa auto-estima sempre está à baixa, queremos emular outras nações e o seu industrialismo e isso gera fortes contradições nos nossos discursos que um dia protestam contra a minaria e para o dia seguinte reclamam-na. Mas a pouco que arranhemos, surge o interesse ecológico em sentido amplo: a paisagem é sentida como própria e está encarnada nos seus habitantes, segundo se observou na maior mobilização da história deste país, a do naufrágio do Prestige. Por isso não é estranho que haja muitas galegas e galegos partidários do decrescimento. Não é estranho que figuras de reconhecido prestígio internacional, como Carlos Taibo ou Xoán R. Doldán, se expressem em galego para defender esta visão como a única alternativa perante um futuro incerto. O que promete o decrescentismo é uma sociedade com mais tempo para a conversa enriquecedora, para o debate de ideias, para a arte, para as relações sociais, para a experiência lúdica, para gozar da amizade e do sexo, para cuidar e receber cuidados; um projeto que pode ser reivindicado nem só como um sacrifício imposto pelo dever militante –que também–, mas como uma conquista decidida do prazer de viver uma vida que valha a pena de ser vivida.
 



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