Na fronteira de dous séculos, em dezembro de 1999, no número 10 da rua do Pintor Lugrís da cidade de Vigo, abria as suas portas a livraria ANDEL, com uma proposta cultural alicerçada na ausência do livro em castelão e, polo tanto, na venda de produtos escritos só em galego e português, ou galego-português, projeto que naquela altura se poderia definir com os qualificativos de afouto, afastado da realidade ou simplesmente suicida. Num contexto marcado pola subordinação da língua galega à espanhola, pola suposta indiferença cara ao galego, pola invasão do mundo digital sobre o mercado editorial e, como conseqüência, pola aquisição de novos hábitos de leitura entre o público, a decisão de Xaime e Concha Nogueira semelhava pouco menos que incompreensível.

Recuemos meio século. As e os manifestantes que há cinqüenta anos se mobilizavam em Nanterre ou no Bairro Latino tinham —entre outras— uma consigna clara: sejamos realistas, reclamemos o impossível. A frase, em aparência um oximoro absurdo, constituía, porém, uma declaração profundamente realista, pois, ao voltarmos a cabeça e olharmos para a História e os seus ensinamentos, comprovamos que a procura incansável da realização do impossível foi um dos eixos essenciais do avanço social e da conquista da justiça. Era impossível, há 3.200 anos, na primeira greve da que se tem notícia, uns escravos exícios exigirem —e conseguirem— condições de trabalho mais justas que as oferecidas polo deus-farão, como impossível era, há apenas um século, as mulheres reclamarem —e conseguirem— a igualdade que o voto concretiza, como aparece impossível entre nós, no dia de hoje, o conseguimento do direito de autodeterminação ou a exigência de liquidação do patriarcado.

Andel demonstrou, num tempo que define a política como a arte do possível, que, justamente, só a procura do impossível, disso que parece situar-se no âmbito da fantasia, gera novas hipóteses e possibilidades e desenha caminhos de futuro e verdade

 

Com as ícones de Castelao e Rosalia Castro na fachada da livraria, com uma clara fixação de objetivos, com infinita confiança nas próprias forças —acompanhados, logicamente, de momentos de dúvida e angústia—, com uma determinação inamovível, Concha e Xaime Nogueira chegam ao dia de hoje possuidores dum tesouro que semelhava, empregándomos um termo de atualidade, quimérico, e com uns resultados, reais e simbólicos, que ninguém poderia imaginar: vinte anos de espalhamento contínuo da cultura galego-portuguesa, pondo em circulação centenas, ou milheiros, de peças de cerâmica tradicional, de discos, de lâminas e mapas históricos, de recitais de poesia, de concertos infantis e de adultos, de apresentações de livros, homenagens, mesas redondas, encontros literários, conferências, contadores de histórias e espetáculos lúdicos para a gente miúda, apalpadores, programas didáticos e de animação cultural e, naturalmente, quase trezentos mil volumes vendidos na nossa língua e um fundo total —constituído por diferentes produtos ao longo dos anos— de 50.000 títulos.

ANDEL demonstrou, num tempo que define a política como a arte do possível, que, justamente, só a procura do impossível, disso que parece situar-se no âmbito da fantasia, gera novas hipóteses e possibilidades e desenha caminhos de futuro e verdade. ANDEL demonstrou, ao mesmo tempo, que, para além das dificuldades, um setor da sociedade galega, em geral, e da viguesa, em particular, está disposto a emprestar o seu apoio a projetos que garantam a permanência da sua identidade e que foi precisa a aparição da crise mais assoladora que conhecemos desde 1929 para chegar à situação presente. É um lugar comum afirmar que as conquistas de hoje são a utopia de ontem, que a utopia de hoje será amanhã o feito corriqueiro. ANDEL, vinte anos desafiando a hipótese da impossibilidade, está já para sempre na história da Galiza.