Ainda que o título deste artigo, polo seu ritmo octossilábico,  pudesse parecer uma consigna


Ainda que o título deste artigo, polo seu ritmo octossilábico,  pudesse parecer uma consigna, devo dizer que não é, em absoluto, essa a minha intenção. O que tentam as linhas a seguir é refletir, sempre que for possível com dados na mão, sobre o fenômeno da supradita formação madrilenha, bem como a sua trajetória política e eleitoral no último ano e meio, que me lembra, na fita Blade Runner, as palavras de Eldon Tyrell, da Tyrell Corporation, o qual, dirigindo-se a Roy —que, como replicante que é, sabe que a sua vida tem caducidade— afirma que “a luz que brilha com dupla intensidade dura a metade do tempo”. Desejaria também dizer que chamar madrilenha à formação não é uma afirmação tendenciosa, mas só a descrição dum feito: as suas figuras públicas, Iglesias, Errejón, Montero, Alegre, Bescansa, Mayoral, López ou Urbán nasceram ou desenvolvem a sua atividade política na capital do Estado e projetam a sua sombra sobre o resto da pell de brau, por dizê-lo em palavras de Salvador Espriu.

Desde a sua aparição no panorama político, Podemos moveu-se segundo uma trajetória que se poderia qualificar de parabólica, iniciada com uma rápida ascensão —cavalgando sobre meios de comunicação que iam de Intereconomia a La Sexta— que atingiu o seu cimo na fronteira dos anos 2014 e 2015, quando conseguiu umas percentagens de voto que a situavam, quase com o 31% dos sufrágios, como primeira força estatal (Simple Lógica, Metroscopia, CIS e MyWord). Os inquéritos mensais da empresa de sondagens Celeste, que fornecem ademais o número de cadeiras no parlamento, outorgavam-lhe à organização morada, no mês de Junho de 2014, 34-37 cadeiras; entre 36-44 em setembro e 60-66 em dezembro. Desde este instante, começou um notável afundimento que a situou no verão-outono de 2015 num intervalo de 31-37 cadeiras, dado compartilhado por NC que lhe outorga um valor de 30-32 cadeiras. Afirmam esta linha de devalo dados procedentes de La Vanguardia cuja sondagem de junho de 2015 deitava até 23 cadeiras no Parlamento catalão que se viram reduzidas na realidade às 11 do passado domingo com uma exígua percentagem do 8,9%, praticamente a mesma que a do Partido Popular (8,5%), cujo caráter residual em Catalunha parece não ter muita discussão. Uma tendência semelhante, ainda que mais extrema, é a que fornece o Euskobarómetro que, no intervalo dos seis primeiros meses do 2015, constata que Podemos perde a esmagadora percentagem de quase a metade de votos e cadeiras, passando, no Parlamento Basco, de 21-22 assentos a 10-11.

Muitos setores de esquerda começam a ver Podemos como uma força usurpadora dos seus valores e que, ao invés do que proclama o seu discurso, dificulta processos de unidade

Chegados a este ponto, desejaria sublinhar um dado que acho de interesse: Podemos não acrescenta nada significativo aos resultados anteriores em Catalunha de ICV, organização que, ao adotar a companhia do partido de Pablo Iglesias, perde 2 cadeiras e baixa do 9,9% ao 8,9%, o qual supõe uma perda de praticamente o 10% dos sufrágios, que se traduziriam em 37.000 votos menos se a participação não tivesse mudado. Outra das constantes do evoluir podemita é que, tirando a sua primeira aparição nas eleições europeias, os seus resultados sempre pioram, como se acaba de ver, as expectativas criadas. O caso catalão é neste sentido claro: algumas predições (Encuestamos) outorgavam a Catalunya si que es pot, um 19,2% de votos, praticamente o duplo dos obtidos em realidade e outras sondagens concediam ao partido de Iglesias até o 14% do voto (CIS). Nenhuma das 16 sondagens publicadas foi quem de adivinhar o forte revés do partido morado, pois outorgavam um mínimo de 13 cadeiras e um 10,6% de votos. Se a leitora acredita no feito de que foi a polarização do voto o resultado do fracasso, deve lembrar que a mesma situação se produz nas eleições andaluzas, onde os inquéritos chegaram a prognosticar até 25 cadeiras, e a realidade foi muito mais avarenta, situando Podemos com 15 assentos no Parlamento andaluz.

Acho que é não só lícito mas pertinente perguntarmos-nos o porque desta ascensão meteórica e desta queda célere no brevíssimo período de 10 meses, sem que existisse a corrosão própria de quem governa. Para além de questões relacionadas com a volubilidade social, a pressa ou a moda, deve-nos importar a face política pola que muitos setores de esquerda começam a ver Podemos como uma força usurpadora dos seus valores —tendência que acho se vai reforçar no imediato futuro— e mesmo, ao invés do que proclama o seu discurso, que dificulta processos de unidade. Esta afirmação alicerça, duma beira, na assunção de alguns comportamentos próprios de forças conservadoras e, doutra, no abandono de algumas atitudes que caracterizaram historicamente os movimentos de emancipação. E tudo isto conforma-se ao redor duma ideia perigosa, que acompanha Podemos desde o mesmo instante do seu nascimento. Estou-me a referir à noção de ambiguidade.

Com efeito, desde as suas origens, a força morada negou-se a aceitar a tradição histórica que dividia  as forças sociais em direita e esquerda. Rejeitou esse eixo horizontal para o substituir por outro, definido sobre uma coordenada vertical, acima/abaixo, e num conceito: a casta. Não se deve negar que esse eixo vertical, como certos ícones dos nossos computadores, é mais intuitivo e começar a falar de acima e abaixo subministra uma perspectiva que, em princípio, não teria de ser recusada, porque, ao cabo e ao resto, deve-se lembrar que o binômio direita/esquerda tem a sua origem na Revolução Francesa e muito antes que esta acontecesse existiram, ao longo dos milênios, movimentos emancipadores. Ora, não é menos verdade que a ambiguidade —o que se acostuma chamar ambiguidade calculada— tem objetivos políticos, que se baseiam na ocultação da verdade ou na simples mentira e tem como finalidade prioritária a caça continuada do voto, proceder este de onde proceder.

Desde as suas origens, a força morada negou-se a aceitar a tradição histórica que dividia  as forças sociais em direita e esquerda

Esse feito de (tentar) não se situar na direita nem na esquerda, essa perspectiva de terceira via, patenteou-se nas eleições catalãs nas que se ofereceu como uma opção que tentava superar a barreira que existe entre as forças independentistas e as não independentistas. Em realidade, a campanha catalã mostrou que essa suposta opção continha uma atitude tingida de obediência centralista e mostrou também os prejuízos de pensar que as questões sociais —cortes, corrupção ou despejos — são, seguindo a argumentação do PPSOE, o que a gente lhe interessa, estabelecendo-se assim uma barreira fictícia entre o bloco social e o nacional. Essa ambiguidade ficou bem clara nas próprias palavras do candidato Rabell, quando, na noite eleitoral, pedia que não se situasse Catalunya si que es pot “nem entre o si nem entre o não”, ambiguidade cuja realidade ficava ao descoberto quando, umas horas mais tarde, Pablo Iglesias afirmava que “não aceitaremos nenhuma declaração unilateral de independência”, palavras que encontram um eco nas declarações de Carolina Bescansa: “o problema galego não é a sua identidade”, cegueira que surpreende ao constatarmos que pessoas procedentes de distintas opções ideológicas concordam no feito de que o principal problema ao que se defronta no presente o Estado é justamente o que atinge os processos nacionais, entendidos pola estrutura estadual espanhola, segundo aconteceu historicamente, como “problema”. A propósito do Estado, a noite do dia 27, o líder de Podemos pronunciava umas palavras impróprias de quem dize adotar uma perspectiva emancipadora: “Apostamos pola responsabilidade do Estado”, frase indistinguível das pronunciadas por Suárez, González, Aznar, Zapatero ou Rajoy que justificaram a injustiça do ponto de vista da responsabilidade. Na mesma linha, resultam igualmente sintomáticas  as palavras de Breogán Rioboo que afirma que o independentismo catalão medra pola “irresponsabilidade” de Rajoy, frase que desprende uma dose de preocupação polo processo de emancipação dum povo que quere caminhar para a sua liberdade. E tudo isto numa organização que proclama a sua defensa do direito a decidir e o reconhecimento do direito de autodeterminação.

Ao pé da (suposta) ambiguidade na questão nacional existem outros dados que acho conveniente salientar: a proclamação republicana de Podemos no começo da sua caminhada e a realidade atual de louvores a Felipe VI, de agasalhos tipo Jogo de tronos a uma Monarquia que cavalga sobre os restolhos da ditadura, ou de galanteios polas (conjecturadas) capacidades comunicativas da rainha. Podem-se acrescentar outros comportamentos: a atuação do seu líder em tempos não longínquos em herriko tabernas de Euskal Herria e o seu atual, continuo e autoproclamado patriotismo espanhol que Iñigo Errejón tenta explicar baseando-se na distinção, indistinguível no caso de Espanha, entre patriotismo e patrioterismo; a renúncia estrita ao termo casta, que desapareceu da linguagem de Podemos; a obsessiva necessidade de projeção pública que leva Pablo Iglesias a desejar a foto com Alexis Tsipras que, num gesto memorável, canea-o em Bruxelas; a conduta prepotente, sectária e humilhante com Izquierda Unida, com termos como “cenizos”, “pitufo gruñón” e outros, não respeitosos e impróprios duma linguagem que simplesmente aspire a se qualificar de progressista; a detestável atuação na campanha catalã, remexendo nos piores sentimentos dos humanos e chamando à divisão entre as classes populares autóctones e imigrantes numa perfeita reencarnação de Lerroux, apenas com a intenção de apanhar votos; o papel histriônico nesta mesma campanha, fazendo literalmente o índio (não é uma frase racista, fazia-o em verdade, não metaforicamente) e cantando canções sobre Manitu ao jeito de Berlusconi, bem como a escassa sensibilidade com o conjunto de pessoas que conformavam as candidaturas de Catalunya si que es pot, às que abandonou para seguir “na capital” os resultados dos comícios, decisão que revela quais são, para Iglesias e Podemos, os lugares centrais e os secundários; a negativa, de quem se proclama guarda-chuva de convergência, à renúncia das siglas próprias, partindo da hipótese nunca demonstrada, e que os dados negam cada dia com maior evidência —anteontem Andaluzia, ontem Catalunha— de ser a principal ferramenta de mudança social; o trânsito desde a denominação de casta ao oferecimento ao PSC, um partido da casta, para contribuir à construção dum governo catalão; a proclamação teórica do caráter democrático de Podemos e a sua concreção em listas impostas em Madrid, além de qualquer requisito formal, com uma ousadia que o PPSOE nunca chegou a exercitar; o intento de apropriação indevida de todo o movimento popular e de esquerdas.

Este conjunto, nem muito menos exaustivo, de elementos desemboca numas frustração e decepção  que se concretizam em dados bem significativos: o distanciamento de Ada Colau e Manuela Carmena do partido morado, manifestado, no caso da primeira, na sua ausência no processo eleitoral catalão e, na segunda, na sua enérgica afirmação de não pertencer a Podemos, protesta que se espalhou a outros âmbitos de todo o Estado e que, no nosso próprio país, Martiño Noriega contribuiu a fortalecer sinalando que na candidatura de Compostela Aberta não figurava nem uma soa pessoa de Podemos; a descida da participação no interior da própria formação, cujo índice de abstenção num referendo interno, chegou ao 85%, circunstância que Iñigo Errejón tentou justificar aludindo à época estival, explicação que sugere que o uso do telemóvel é incompatível com tempo de bonança (!); a profunda divisão existente em Galiza sobre os métodos empregados pola cúpula madrilenha e o centralismo que preside a sua atuação; o abandono do conselho da sua candidata mais votada ou a negativa, decidida em referendo interno, das bases da força majoritária de Compromís, o Bloc Nacionalista Valencià a concorrer eleitoralmente com a organização dos círculos, decisão que com toda segurança afirmará-se após os ruins resultados obtidos o dia 27 na Catalunha por Podemos. Talvez este conjunto de atitudes fique resumido nas palavras de J. Carlos Monedero quando afirmava que Podemos deveria escutar mais a gente, rejeitar a ambiguidade e abandonar uma posição de centralidade que não deve ser a sua.

Numa reunião com militantes da formação, Breogán Rioboo informava que a estratégia, acordada com Pablo (sic), baseava-se na captação de figuras relevantes da cultura e a sociedade galega que cumprissem a condição de não terem um perfil galeguista

Em resumo, o conjunto de comportamentos aqui levemente enumerados é, do meu ponto de vista, o que vai semeando a ideia de que Podemos é um elemento, em contra do que proclama, de obstrução da possibilidade de unidade popular. Aliás, a sua aceitação prática da monarquia, a assunção da realidade atual de organização estadual, por muito que proclame a admissão do caráter plurinacional do Estado espanhol, em definitiva o alinhamento com o statu quo vigente faz que Podemos seja um representante do que ele mesmo qualifica como velha política e afastado, cada vez mais, de ser esse motor da mudança que autoproclama, hipótese que, até o de agora, não está demonstrada. Todos estes fatores contribuem a restar credibilidade aceleradamente ao partido de Pablo Iglesias.

Rematarei com uma pequena, embora significativa, anedota que contribui a definir como Podemos vê a questão nacional. Numa reunião com militantes da formação, Breogán Rioboo, na procura de pessoas ideais para o partido, informava que a estratégia, acordada com Pablo (sic), baseava-se na captação de figuras relevantes da cultura e a sociedade galega que cumprissem a condição de não terem um perfil galeguista. Este ponto de vista mostra não só uma conceição mui concreta do nacionalismo ou o galeguismo mas também um profundo desconhecimento da realidade do nosso país, incompreensível no secretário geral duma organização que se autoproclama transformadora. Este aspecto, ao pé dos elementos explanados nas linhas que antecedem, aponta face a hipótese de que Podemos há tempo que deixou de ser uma ferramenta para a mudança. A profundíssima fenda existente entre o que diz e o que faz a diário, as suas doses de ambiguidade, oportunismo e travestimento político, a sua fasquia de partido ônibus que não exige adesão ideológica nenhuma ou a sua ceguidade centralista perante a evidência do caráter plurinacional do Estado, desenham, ao meu ver, cada dia com maior precisão, o perfil da formação que nasceu, há agora dous anos, na universidade Complutense de Madrid.