Tenho um amigo, que apreço sinceramente pola sua bondade e pola sua entrega, —concretizada em décadas— na defensa do nosso país. Dado que vivemos em lugares distintos da Galiza, vemo-nos de figos a bêberas, notadamente em atos reivindicativos ou celebrações que têm a ver com a defensa assinalada. Ao nos encontrar pronuncio uma dessas frases rituais —como vão as cousas?— que empregamos para começar qualquer conversa. A resposta que, desde há anos obtenho, é sistematicamente a mesma: “Mal, como sempre”.

A lembrança do meu amigo voltou para a minha mente há alguns dias ao ler, numa rede social, o texto duma pessoa a quem, igualmente, admiro pola sua teimosia em prol das nossas cultura e identidade, Antonio Reigosa. A queixa do escritor e etnógrafo luguês concretizava-se na constatação de se surpreender a si próprio ao escutar falar em galego, afirmando que a sua experiência, ao andar por Galiza, poderia chegar a ser comparável à experimentada ao passear por outros lugares de Europa ou América (“como se estivese em Paris ou Nova York” era a frase exata). Não preciso dizer que muitas das pessoas amigas (no sentido “facebookiano” do termo) partilhavam a sua opinião e exibiam a preocupação costumeira.

Por meados do passado mês de julho percorri, durante vários dias, terras luguesas na companha de amigos galegos que vivem desde há décadas em Euskal Herria. Com o propósito de mostrar a amplitude do percurso direi que decorreu polas comarcas de Chantada, Lemos, Sárria, Ancares, Lugo, Meira, a Terra Chã e a Marinha, visitando vilas como Monforte, Samos, Mondonhedo, Ribadeu, ou a própria capital luguesa. Posso dizer que ao longo dessa excursão, tomada na sua totalidade, a presença da língua espanhola deve-se qualificar pouco menos que de anedótica. Há uma exceção, a Marinha, onde o peso turístico —com uma paisagem avassalada polo eucalipto e o tijolo— reduz notavelmente a presença do nosso idioma. À fim da viagem, os meus amigos galegos —ambos, do meio rural galego, na altura já euskalduns e ideologicamente situados nas coordenadas da defensa do direito de autodeterminação— mostraram a sua surpresa polo elevado grau de uso da nossa língua detectada na viagem.

Posso dizer que ao longo dessa excursão, tomada na sua totalidade, a presença da língua espanhola deve-se qualificar pouco menos que de anedótica

 

Eu não vou negar, pois seria asneira, a situação difícil que atravessa o galego, notadamente nas cidades e na mocidade, nem que a perda de falantes seja real. Ora, no discurso sobre o idioma das pessoas defensoras das nossas língua e identidade, existe, praticamente, um exclusivo e constante fio condutor: a acima apontada perda de falantes. Numa situação complexa como a que vive o galego, jamais se combina este dado com feitos que, tomados num prazo longo, apresentam aspetos positivos: que à morte do ditador, a publicação anual de livros em galego se contava por dúzias e hoje por milheiros; que hoje se lecionam mais aulas no nosso idioma que daquela; que no dia de hoje multinacionais que comercializam marcas como Hellmans, Super Bock, Orange, Vodafone ou entidades bancárias empregam o galego na sua publicidade; que grandes armazéns que daquela rotulavam em espanhol, hoje têm introduzido o galego; que pequenas empresas, ginásios, centros de saúde, serviços de ajuda no fogar, lojas de flores ou cooperativas de produção e consumo utilizam a nossa língua; que todas as equipas de futebol gaélico que se acabam de proclamar campeãs e sub-campeões do mundo têm nomes galegos; que a atividade, a presença e a qualidade da nossa música, o nosso cinema ou a nossa banda desenhada possuem uma expansão inexistente há quarenta anos; que existiu uma geração que —há quase meio século— decidiu se converter em monolíngüe e cujo número segue a medrar —devagar, é verdade— hoje e que se é inequívoco que o número de pessoas que falam só espanhol está a aumentar, também aumentam —dado fundamental— as que se expressam só em galego, pessoas, deve-se ter em conta, que falam corretamente espanhol —e provavelmente alemão, francês ou inglês— e que, conscientemente, não o usam. E pergunto-me, qual das situações é mais desejável: a dum país no que o 92% da população fala um idioma, porque, em grande medida, não sabe falar outro, ou aquele no que um 18%, de maneira consciente, só fala o que institui e manifesta o seu profundo compromisso com o país? Hoje é maior ou menor a consciência nacional do que era em 1975? Não dissemos sempre que o nosso objetivo era converter cada pessoa galego-falante em galego-falante consciente? Há alguns anos, Pilar Garcia Negro, uma figura de primeira linha na sociolingüística galega, afirmava que, ao seu ver, a sobrevivência do galego dependeria de que uma minoria, mais ou menos numerosa, não cedesse e mantivesse a defensa do idioma. Eu, que vivo numa das cidades mais castelanizadas da Galiza, vejo como está a abrolhar, notadamente entre setores novos da população, um fato concretizado em mães —nomeadamente mães— que se dirigem em galego às suas crianças, em moços que mantêm o galego numa conversa onde a maioria de falantes usa o espanhol, em raparigas do ESO que, num centro de reprografia, resistem, em galego, a atitude, idiomaticamente hostil, duma pessoa que lhe quadruplica a idade. E devo proclamar, com total solenidade, que esses comportamentos eram inexistentes há dez anos nesta mesma cidade. Se calhar temos de assumir que, nos tempos vindouros, imos seguir perdendo falantes, mas assumamos também que a nossa faina principal deve-se centrar em alargar essa faixa de pessoas profundamente comprometidas com a nossa língua, cultura e identidade. E um apontamento mais: interessa-me, ainda, sublinhar a afirmação que venho de fazer umas linhas acima: a história ensina-nos como as grandes vitórias, os grandes avanços sociais têm tido sucesso porque uma minoria se emperrou em vencer. Colhamos apenas um exemplo de grande atualidade: agora que estamos mergulhados numa mobilização geral, massiva, do feminismo, convém botar a olhada atrás e vermos as mulheres que compunham na sua origem o movimento sufragista.

 

Esse comportamento ao que me referi acima, de constante queixa perante o devalo do galego, que as pessoas defensoras do nosso idioma desenvolvem —com honradez absoluta e com profunda dor, conseqüência óbvia do seu amor polo país e o seu idioma— é, do meu ponto de vista, uma estratégia errônea para o avanço do galego, numa sociedade na que o critério de aposta polo cavalo ganhador constitui um dos eixos de atuação. Acho que a explicação subliminar desta tática que salienta a réu a doença do idioma se acha num grafito que não há muitas semanas vi na minha cidade e que dizia: GALIZA AGONIZA. LOITA. Eis, ao meu ver, a estratégia que subjaz na grafito que comento e que se concretiza da seguinte maneira: se mostrarmos a realidade lingüística e social tingida dum notável verniz de dramatismo e mesmo morte (agonia) a gente necessariamente, reagirá e lutará. A crise que vivemos tem mostrado com contundência que o mecanismo de reação não responde a este esquema. Há uma década o termo mileurista soava depreciativo, enquanto hoje constitui um desejo para milhões de pessoas, notadamente moças, e o que medrou na maioria da sociedade foi, fundamentalmente, o medo e o suposto de que “melhor quatrocentos euros por doze horas de trabalho do que nada”. Esse desempenho de sublinhar sem trégua a doença, a situação adversa da causa que defendemos seria inadmissível em qualquer campanha publicitária ou em qualquer confronto esportivo, nos que a confiança no êxito ou na vitória constitui o fator chave. A equipa que se acha no bordo do abismo de perda de categoria e cujos dirigentes repetem, uma vez após outra, que, enquanto não se achem matematicamente descendidos, lutarão até a morte, ou as organizações políticas que, perante inquéritos desfavoráveis nas vésperas eleitorais, não deixam de teimar em que imos derrotar os inquéritos, constituem uma prova evidente de como a confiança num amanhã melhor preside, em geral, a atuação humana. Nos exércitos, a difusão de mensagens negativas, que conduzam, ou possam conduzir, à desmoralização, são punidas com corretivos gravíssimos que podem atingir, em tempo de guerra, mesmo à privação da vida, o qual fala com claridade da necessidade —continuo a utilizar a terminologia militar— de que “a moral de combate da tropa” se mantenha bem alta. Encontro incompreensível porque não aplicamos estes mesmos esquemas —esportivos, políticos, castrenses— ao futuro do idioma. Também aqui, como em tantos aspetos da política ou da vida, é necessário aprendermos dos nossos adversários.

 

Acho, neste contexto, imensamente luzido e encorajador o testemunho de Ana Pontón, realizado a este mesmo jornal há umas poucas semanas: É necesario —dizia a porta-voz nacional do BNG— derrotar o pesimismo, que é un dos maiores problemas que temos como sociedade, o de crer que non somos capaces de facer as cousas. Com efeito, a atitude de qualquer pessoa que arvore uma posição militante —no idioma ou na questão que for— deve residir, como acostumo repetir até fartar, na definição precisa de objetivos, na determinação na procura do seu conseguimento e na confiança nas próprias forças. Para além de tudo o dito, cabe perguntar-se se a repetição, a recorrência constante à desgraçada marcha do decurso lingüístico, contribui positivamente ao processo de construção da emancipação nacional e social.

 

Qual das situações é mais desejável: a dum país no que o 92% da população fala um idioma, porque, em grande medida, não sabe falar outro, ou aquele no que um 18%, de maneira consciente, só fala o que institui e manifesta o seu profundo compromisso com o país?

 

Ao longo da história, o povo galego, embora o seu injusto renome de dócil e apoucado, planejou e executou com sucesso ações que a priori poderiam parecer de impossível alcanço: da primeira derrota sofrida em toda Europa polo exército francês na ponte de São Paio, até a paralisação da central nuclear de Jove; do derrubamento do Decreto de Bilingüismo até a vitória que tem de nome próprio Corcoesto sobre a multinacional canadiana Edgewater; da imensa mobilização que supus a greve geral de Vigo de setembro de 1972 —origem do sindicalismo nacionalista que meio século depois constitui a primeira força do país — ao exemplo de dignidade que mostrou a ação da plataforma Nunca Mais. As estimuladoras palavras de Ana Pontón acima sinaladas estão a sugerir, com efeito, a necessidade de confiança nas próprias forças, mas também algo mais: uma transformação de atitudes, consistentes na imprescindível atenção a alguns signos, em geral passadios e quase que imperceptíveis, que anunciam novas realidades, aos feitos singulares que, como heraldos, profetizam o porvir, à análise das nossas capacidades, com a segurança de que a interpelação constante à sociedade, cedo ou tarde, vai produzir proveito e, ao cabo, uma fidelidade a um pensamento como o refletido por Marx numa carta enviada a Engels o 11 de janeiro de 1860 e recolhida no seu texto A guerra civil nos Estados Unidos: “Li agora mesmo no New York Tribune que se produziu um levantamento de escravos em Missouri. É verdade que foi esmagado, mas o sinal está dado”. Os sinais silenciosos, os signos emergentes que se enxergam, a necessidade das suas corretas tradução e interpretação para se converterem em vetores de luta, jamais a queixa ou o laio, a determinação, o desmascaramento do poder hipócrita que deseja a nossa diluição como povo, a confiança, a disciplina, a insistência, uma vez após outra, sem desfalecermos jamais, na denúncia da injustiça, a ética da não cessão, eis o único caminho que conduz às vitórias.

 

 



x